Resumo de Kant: o criticismo, a revolução copernicana e o imperativo categórico
Por Otávio Ribeiro 12 min de leitura
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Kant tentou resolver a briga entre racionalistas, que confiavam na razão, e empiristas, que confiavam na experiência. Sua resposta: todo conhecimento começa com a experiência, mas nem todo vem dela, porque a mente traz formas próprias, como espaço, tempo e categorias, que organizam o que os sentidos recebem. É a revolução copernicana: em vez de a mente se ajustar aos objetos, os objetos, tal como os conhecemos, se ajustam à mente. Por isso só conhecemos fenômenos, e não as coisas em si. Na ética, Kant afirma que uma ação só tem valor moral quando feita por dever, e propõe o imperativo categórico: agir apenas segundo uma regra que se possa querer como lei universal, tratando a humanidade sempre como fim e nunca apenas como meio.
O problema que Kant herdou
No século XVIII, a filosofia estava dividida em duas grandes correntes sobre a origem do conhecimento.
Os racionalistas, como Descartes e Leibniz, confiavam na razão: há ideias que não vêm da experiência, e é a partir delas que se chega a verdades seguras.
Os empiristas, como Locke e Hume, confiavam na experiência: tudo o que sabemos vem dos sentidos. David Hume levou isso ao limite e mostrou que nem a ideia de causa se justifica pela experiência. Vemos um fato seguir outro, e nunca vemos a necessidade que os liga. Se for assim, a própria ciência fica sem fundamento seguro.
Kant contou que foi Hume quem o despertou do sono dogmático. Sua obra principal, a Crítica da Razão Pura, de 1781, é a tentativa de responder a esse problema. Crítica, aqui, não é ataque: é exame dos limites. A pergunta é o que a razão pode e o que não pode conhecer.
A síntese: começa na experiência, não vem só dela
A frase que resume a solução abre a Crítica: todo conhecimento começa com a experiência, mas nem todo conhecimento deriva da experiência.
Os sentidos fornecem a matéria. A mente fornece a forma. Sem matéria, as formas ficam vazias; sem forma, a matéria é um caos de sensações. Conhecer é o encontro das duas coisas.
Por isso a filosofia de Kant é chamada de criticismo, e ele mesmo a chamou de idealismo transcendental.
Os tipos de juízo
Para mostrar como a ciência é possível, Kant classifica os juízos, e esta classificação cai com frequência.
| Tipo | O que é | Exemplo |
|---|---|---|
| Analítico a priori | o predicado já está no sujeito; não amplia o conhecimento | todo corpo é extenso |
| Sintético a posteriori | amplia o conhecimento e depende da experiência | esta mesa é pesada |
| Sintético a priori | amplia o conhecimento e é universal e necessário, sem depender da experiência | 7 + 5 = 12; todo acontecimento tem causa |
A grande aposta de Kant está na terceira linha. Hume dizia que só existem os dois primeiros tipos. Kant sustenta que a matemática e os princípios da física são sintéticos a priori, e que explicar como isso é possível é explicar como a ciência é possível.
A revolução copernicana
A explicação vem de uma inversão que Kant compara à de Copérnico. Copérnico, não conseguindo explicar o movimento dos astros supondo que giravam em torno do observador, supôs que o observador é que girava.
Kant faz o mesmo com o conhecimento. Em vez de supor que a mente se regula pelos objetos, supõe que os objetos, tal como os conhecemos, se regulam pela mente.
Isso acontece em dois níveis:
- Sensibilidade. Tudo o que percebemos aparece no espaço e no tempo. Eles não são coisas que encontramos no mundo, e sim as formas a priori de toda percepção. Por isso a geometria vale para qualquer experiência possível.
- Entendimento. Para pensar o que percebemos, usamos categorias, como unidade, causalidade e substância. A causalidade, que Hume não conseguia justificar, é uma dessas formas que o entendimento aplica a tudo o que conhece.
Fenômeno e númeno
A consequência é forte. Se só conhecemos as coisas pelas formas da mente, conhecemos apenas fenômenos, as coisas como aparecem para nós.
A realidade considerada independentemente de nós, a coisa em si ou númeno, pode ser pensada, e não pode ser conhecida teoricamente.
Daí vem o limite da metafísica tradicional. Quando a razão tenta conhecer o que está além de toda experiência possível, como Deus, a alma imortal e o mundo como totalidade, ela cai em ilusões e em antinomias, pares de afirmações opostas que podem ser igualmente defendidas, como a de que o mundo teve começo no tempo e a de que não teve.
Kant não diz que Deus e a alma não existem. Diz que não é pela razão teórica que se pode provar nem refutar isso. Essas ideias voltam, com outro papel, na ética.
A ética: dever e boa vontade
Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de 1785, e na Crítica da Razão Prática, Kant procura o princípio da moral.
O ponto de partida é que a única coisa boa sem restrição é a boa vontade. Inteligência, coragem e riqueza podem servir ao mal. A boa vontade vale por si, mesmo que não alcance o que pretendia.
Daí a distinção central:
- agir conforme o dever: fazer o que é certo por outro motivo, como interesse ou inclinação;
- agir por dever: fazer o que é certo porque é dever.
Só a segunda tem valor moral. O exemplo clássico é o do comerciante que não engana os fregueses, inclusive as crianças, porque isso seria ruim para os negócios. Ele age corretamente, e sua ação não é moral no sentido kantiano.
Imperativo hipotético e categórico
Kant chama de imperativo uma ordem da razão.
O imperativo hipotético manda algo como meio para outro fim: se quer passar na prova, estude. Vale só para quem quer aquele fim.
O imperativo categórico manda de forma incondicional. É a forma da lei moral, e Kant o apresenta em fórmulas. As mais cobradas são:
- Lei universal: age apenas segundo uma máxima que possas querer que se torne lei universal.
- Humanidade: age de modo a tratar a humanidade, na tua pessoa e na de qualquer outro, sempre como fim e nunca apenas como meio.
- Autonomia: a vontade de todo ser racional é legisladora universal. A lei moral não vem de fora; a razão a dá a si mesma.
O teste da primeira fórmula funciona assim. Alguém precisa de dinheiro e pensa em pedir emprestado prometendo pagar, sabendo que não vai. A máxima seria: quando precisar, farei promessas falsas. Universalizada, ela se destrói: se todos fizessem isso, ninguém acreditaria em promessas, e a promessa falsa nem funcionaria.
A segunda fórmula está na base da ideia moderna de dignidade humana: as coisas têm preço e podem ser trocadas; as pessoas têm dignidade e não podem ser tratadas como mero instrumento. Essa noção atravessa, até hoje, o vocabulário dos direitos humanos.
O que é esclarecimento
Num texto curto de 1784, Kant responde à pergunta o que é esclarecimento. Esclarecimento é a saída do ser humano da menoridade pela qual ele próprio é responsável. Menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem a direção de outro.
A culpa não está na falta de inteligência, e sim na falta de coragem e decisão. É cômodo ter um livro que pensa por nós, um guia que decide por nós, alguém que resolve nossa dieta. O lema do esclarecimento é ousa saber: tem coragem de usar o teu próprio entendimento.
Kant distingue ainda o uso público da razão, o de quem escreve e argumenta diante do público como estudioso, e que deve ser livre, do uso privado, o de quem ocupa um cargo e deve cumprir sua função.
As três perguntas de Kant
Kant mudou a pergunta da filosofia. Em vez de perguntar como são as coisas em si, perguntou como é possível conhecê-las e quais são os limites desse conhecimento. Na ética, fundou a moral na autonomia da razão e na dignidade da pessoa, e não em consequências, costumes ou mandamentos externos.
Ele mesmo resumiu seu projeto em perguntas que ainda organizam bem o estudo: o que posso saber, o que devo fazer e o que me é permitido esperar.
O que costuma cair
- O criticismo como síntese entre racionalismo e empirismo, e o papel de Hume em despertar Kant.
- Os tipos de juízo: analítico, sintético a posteriori e sintético a priori, com exemplos.
- A revolução copernicana do conhecimento e as formas a priori da sensibilidade, espaço e tempo.
- A distinção entre fenômeno e númeno, e os limites da razão diante de Deus, da alma e do mundo como totalidade.
- A diferença entre agir por dever e agir conforme o dever.
- Imperativo hipotético e imperativo categórico, com as fórmulas da lei universal e da humanidade como fim.
- O esclarecimento como saída da menoridade e o lema ouse saber.
Onde quase todo mundo erra
O imperativo categórico é a regra de ouro: não faça aos outros o que não quer para si
A regra de ouro depende do que cada um deseja para si, e Kant quer justamente uma regra que não dependa de desejo. O teste do imperativo é outro: a máxima da ação pode valer para todos sem se contradizer? Prometer falsamente para conseguir dinheiro não passa, porque, se todos fizessem isso, ninguém acreditaria em promessas e a própria mentira deixaria de funcionar. O próprio Kant criticou a regra de ouro como insuficiente.
Se a ação é correta, ela tem valor moral
Kant separa agir conforme o dever de agir por dever. O comerciante que não engana os clientes porque isso prejudicaria os negócios faz a coisa certa, e sua ação não tem valor moral, porque o motivo é o interesse. O valor moral está na intenção de cumprir o dever porque é dever. A distinção costuma cair exatamente com esse exemplo.
Kant diz que nunca se deve usar ninguém como meio
A fórmula diz para tratar a humanidade sempre como fim e nunca apenas como meio. Usamos os outros como meio o tempo todo, e isso é legítimo: o padeiro é meio para eu ter pão, e eu sou meio para ele ter renda. O que a fórmula proíbe é tratar alguém só como instrumento, ignorando que ele é uma pessoa com dignidade e vontade própria.
Númeno é aquilo que não existe
O númeno, ou coisa em si, é a realidade considerada independentemente de como aparece para nós. Kant não diz que ela não existe; diz que não podemos conhecê-la teoricamente, porque tudo o que conhecemos passa pelas formas da nossa sensibilidade e do nosso entendimento. A afirmação é sobre o limite do conhecimento, não sobre a inexistência das coisas.
Kant era racionalista, porque valorizava a razão acima de tudo
O título da obra principal é uma crítica da razão, no sentido de exame dos seus limites. Kant concorda com os empiristas que não há conhecimento sem experiência e com os racionalistas que a experiência sozinha não basta. E mostra que a razão, quando tenta ir além da experiência para provar a existência de Deus ou a imortalidade da alma, cai em contradições.
Esclarecimento é ter estudado e ter informação
Para Kant, esclarecimento é a saída da menoridade pela qual o próprio indivíduo é responsável, e menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem a direção de outro. Uma pessoa instruída que entrega o próprio julgamento a um livro, a um tutor ou a uma autoridade continua na menoridade. O lema é ter coragem de usar o próprio entendimento.
Cards de revisão
7 perguntas
- O que é um juízo analítico?
- Aquele em que o predicado já está contido no sujeito, como todo triângulo tem três lados. Não amplia o conhecimento.
- O que é um juízo sintético a priori?
- Um juízo que amplia o conhecimento e é universal e necessário, sem depender da experiência, como os da matemática.
- O que é a revolução copernicana de Kant?
- A inversão em que os objetos, tal como os conhecemos, se regulam pelas formas do sujeito, e não o contrário.
- Quais são as formas a priori da sensibilidade?
- O espaço e o tempo, que organizam toda percepção antes de qualquer experiência.
- Qual é a diferença entre imperativo hipotético e categórico?
- O hipotético manda algo como meio para um fim desejado; o categórico manda de forma incondicional, valendo por si.
- O que manda a primeira fórmula do imperativo categórico?
- Age apenas segundo uma máxima que possas querer, ao mesmo tempo, que se torne lei universal.
- O que Kant quis dizer com ouse saber?
- Tenha coragem de usar o próprio entendimento, lema com que ele define o esclarecimento.
Otávio Ribeiro
Resumos de história e ciências humanas
Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.