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Resumo de Aristóteles: as quatro causas, potência e ato, e a virtude como hábito

Por Otávio Ribeiro 11 min de leitura

Em 30 segundos

Aristóteles estudou vinte anos com Platão e rompeu com ele num ponto decisivo: aquilo que faz uma coisa ser o que é não está num mundo separado, está dentro da própria coisa. Daí vem o resto da sua filosofia. Para explicar qualquer ser, ele pergunta por quatro causas: de que é feito, que forma tem, o que o produziu e para que existe. Para explicar mudança, distingue o que a coisa já é do que ela ainda pode vir a ser, potência e ato. Na ética, sustenta que virtude não se recebe pronta nem se aprende só ouvindo: forma-se pela repetição, como hábito, e costuma estar num meio-termo entre dois excessos. E define o ser humano como um animal que só se realiza vivendo na cidade.

As quatro causas aplicadas a um mesmo objeto, a passagem de potência a ato numa linha, e a virtude situada entre o excesso e a falta
Ilustração: resumode.com.br

Vinte anos na Academia, e uma discordância

Aristóteles nasceu em Estagira e foi para Atenas ainda jovem, onde estudou cerca de vinte anos com Platão. Depois foi preceptor de Alexandre, na Macedônia, e voltou para fundar sua própria escola, o Liceu.

A discordância com o mestre é o melhor ponto de entrada para tudo o que ele escreveu.

Platão explica o mundo sensível por participação: as coisas que vemos são cópias imperfeitas de formas que existem em outro plano. Aristóteles considera essa saída um gasto inútil. Se a forma de cavalo explica por que aquele animal é um cavalo, ela precisa estar ali, organizando aquela carne e aqueles ossos. Não há um mundo das ideias; há matéria informada.

Daí uma inversão de método que vale para toda a obra: em vez de partir do conceito puro, partir da observação do que existe. Aristóteles classificou animais, comparou constituições de cidades, catalogou tipos de argumento e formas de tragédia.

As quatro causas

Para Aristóteles, conhecer alguma coisa é conhecer suas causas, e são quatro. A palavra causa, aqui, significa algo mais amplo que hoje: é toda resposta legítima à pergunta por quê.

Causa Pergunta que responde Numa estátua de bronze
Material De que é feita? O bronze
Formal Que forma tem? A figura que o bronze recebeu
Eficiente O que a produziu? O escultor e seu trabalho
Final Para que existe? Homenagear alguém, ornamentar a praça

Uma explicação completa usa as quatro. Reduzir tudo à causa material, dizendo que a estátua é apenas bronze, explica menos do que o exemplo pede. A causa final é a que a ciência moderna deixou de usar para fenômenos naturais, e é também a que continua indispensável para entender ação humana.

Potência e ato

O problema herdado era antigo: como é possível a mudança? Se uma coisa vira outra, ou ela já era aquilo, e então nada mudou, ou não era, e então algo veio do nada.

A resposta de Aristóteles resolve o impasse com uma distinção simples.

  • Ato: o que o ser já é agora. A semente é, em ato, semente.
  • Potência: o que ele pode vir a ser. A mesma semente é, em potência, árvore.

Mudar é passar da potência ao ato. A árvore não veio do nada: já estava na semente como possibilidade real, e não como possibilidade qualquer, porque de uma semente de laranja não sai um pé de café.

Esse par explica o crescimento de um ser vivo, o aprendizado de quem estuda e o trabalho de quem transforma matéria-prima em produto.

O silogismo, e a diferença entre validade e verdade

Aristóteles é o fundador da lógica formal. Sua contribuição decisiva foi perceber que a correção de um raciocínio depende da forma, não do assunto.

Todo ser humano é mortal. Sócrates é ser humano. Logo, Sócrates é mortal.

Troque ser humano, mortal e Sócrates por qualquer outra coisa e a estrutura continua funcionando. É por isso que se pode estudar o raciocínio em separado do conteúdo.

Disso decorre uma distinção que a prova adora cobrar: um argumento é válido quando a conclusão decorre necessariamente das premissas, e é sólido quando, além de válido, tem premissas verdadeiras. Validade sozinha não garante conclusão verdadeira.

Ética: a virtude se adquire fazendo

A Ética a Nicômaco começa perguntando qual é o bem que se busca por si mesmo, e não como meio para outra coisa. A resposta é a eudaimonia, a vida realizada, que Aristóteles define como atividade da alma conforme a virtude, ao longo de uma vida inteira.

O ponto mais útil da obra é como a virtude se adquire. Ele separa dois tipos:

  • Virtudes dianoéticas, do pensamento, que se aprendem por ensino e exigem tempo e experiência. A principal é a prudência, a capacidade de deliberar bem sobre o que fazer em cada caso.
  • Virtudes éticas, do caráter, que se formam pelo hábito. Ninguém se torna corajoso ouvindo uma aula sobre coragem: torna-se corajoso praticando atos corajosos até que agir assim vire disposição.

A consequência prática é forte. O caráter não é dado de nascença nem decidido num momento de inspiração; é construído por repetição, e é por isso que a educação começa cedo.

O meio-termo

Cada virtude ética fica entre dois vícios, um por excesso e outro por falta.

Falta Virtude Excesso
Covardia Coragem Temeridade
Insensibilidade Temperança Intemperança
Avareza Generosidade Prodigalidade
Modéstia excessiva Sinceridade sobre o próprio valor Vaidade

Duas ressalvas impedem a leitura preguiçosa dessa tabela.

A primeira é que o meio-termo é relativo a quem age e à circunstância. Não existe uma quantidade fixa de coragem correta para todo mundo.

A segunda é que nem tudo tem meio-termo. Algumas ações e paixões já trazem o defeito no nome, e nesses casos não se procura a medida certa, procura-se não fazer.

Política: o animal que vive na cidade

Para Aristóteles, a cidade nasce por necessidade, da família para a aldeia e da aldeia para a pólis, mas existe por uma finalidade maior: permitir a vida boa, e não apenas a sobrevivência.

Daí a definição mais citada: o ser humano é um animal político, isto é, um ser que só realiza sua natureza convivendo numa comunidade organizada. Quem consegue viver fora dela, diz ele, ou é mais que humano ou é menos.

Na análise das formas de governo, ele classifica por dois critérios cruzados: quantos governam e se governam no interesse comum ou no próprio.

Quem governa No interesse comum No interesse próprio
Um Monarquia Tirania
Poucos Aristocracia Oligarquia
Muitos Governo constitucional Democracia, no sentido que ele critica

Vale notar que a palavra democracia aparece ali com sentido diferente do atual, referindo-se ao governo da maioria em benefício apenas dela. A forma que ele prefere é a mista, apoiada numa camada intermediária ampla, porque é a menos sujeita a oscilações extremas.

O que a prova costuma pedir

Saiba dizer onde ele se afasta de Platão. É a pergunta mais frequente, e a resposta cabe em uma frase: a forma está na coisa.

Aplique as quatro causas a um exemplo. A questão costuma dar um objeto e pedir a identificação de uma delas.

Ligue virtude a hábito. Se a alternativa disser que a virtude é inata ou que se aprende apenas por instrução, ela está fora.

O que costuma cair

  1. A ruptura com Platão: a forma não habita um mundo à parte, está no ser concreto.
  2. As quatro causas, com exemplo de cada uma, que é o formato clássico da questão.
  3. Potência e ato como explicação do movimento e da mudança.
  4. A diferença entre validade e verdade no silogismo.
  5. A virtude ética como hábito adquirido e a doutrina do meio-termo, com seus limites.
  6. A definição do ser humano como animal político e o que ela implica sobre a cidade.

Onde quase todo mundo erra

Aristóteles foi aluno de Platão, então continuou a mesma filosofia

A continuidade existe no vocabulário e para por aí. Platão coloca as formas num plano inteligível, do qual as coisas sensíveis são cópias imperfeitas. Aristóteles responde que isso duplica o problema em vez de resolvê-lo: se a forma explica a coisa, ela precisa estar na coisa. Um cavalo é cavalo pela forma que organiza aquela matéria ali, não por participar de um Cavalo existente em outro lugar.

O meio-termo é ficar na média, sem exagerar para nenhum lado

O meio-termo não é o ponto médio de uma escala, é o ponto certo para aquela pessoa naquela situação, e pode estar bem perto de um dos extremos. Coragem diante de um incêndio não é metade da coragem diante de uma discussão. E há ações que não admitem meio-termo nenhum, porque são más em si mesmas: não existe a dose correta de assassinato.

Eudaimonia é a felicidade, no sentido de estar se sentindo bem

Eudaimonia é uma vida inteira bem realizada, e não um estado de ânimo passageiro. É a atividade da alma conforme a virtude, ao longo do tempo. Por isso Aristóteles diz que uma andorinha só não faz verão: um dia bom não torna alguém feliz nesse sentido, do mesmo modo que um dia ruim não desfaz uma vida bem vivida.

Se o raciocínio é válido, a conclusão é verdadeira

Validade e verdade são coisas diferentes, e o silogismo serve justamente para separá-las. A forma pode estar perfeita e a conclusão ser falsa, se uma das premissas for falsa. Todo metal é líquido; o ferro é metal; logo o ferro é líquido. O encadeamento está correto, e a conclusão é absurda porque a primeira premissa é falsa.

A causa final quer dizer que a natureza pensa e planeja

Causa final é a finalidade para a qual algo tende, e em Aristóteles ela não exige deliberação. O olho existe para ver e a semente tende a virar árvore sem que alguém tenha decidido isso em cada caso. A física moderna abandonou esse tipo de explicação para os fenômenos naturais, o que não impede que ela continue valendo para explicar ação humana, onde o fim é de fato pretendido.

Cards de revisão

7 perguntas

Qual é o desacordo central entre Aristóteles e Platão?
Para Platão as formas existem num plano separado; para Aristóteles a forma está na própria coisa concreta, unida à matéria.
Quais são as quatro causas?
Material, de que é feito; formal, que forma tem; eficiente, o que o produziu; e final, para que existe.
O que é potência e o que é ato?
Potência é o que um ser pode vir a ser; ato é o que ele já é. A mudança é a passagem de uma à outra.
O que é um silogismo?
Um raciocínio com duas premissas e uma conclusão que decorre necessariamente delas, se a forma estiver correta.
Como se adquire uma virtude ética?
Pelo hábito, repetindo as ações correspondentes até que agir assim se torne disposição estável.
Qual é a diferença entre virtude ética e virtude dianoética?
A ética vem do costume e diz respeito ao caráter; a dianoética vem do ensino e diz respeito ao pensamento, como a prudência e a sabedoria.
O que significa dizer que o ser humano é um animal político?
Que sua natureza só se realiza na convivência organizada da cidade, que existe antes do indivíduo no sentido de ser condição para ele.

Otávio Ribeiro

Resumos de história e ciências humanas

Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.

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