Resumo de figuras de linguagem
Por Beatriz Amaral 11 min de leitura
Em 30 segundos
Figura de linguagem é qualquer construção que produz um efeito além do sentido literal das palavras: aproximar ideias, exagerar, suavizar, contradizer, imitar um som. As gramáticas costumam separá-las em quatro grupos. Nas figuras de palavra, um termo ganha outro sentido, como na metáfora e na metonímia. Nas de construção, o que muda é a organização da frase, como na elipse e na anáfora. Nas de pensamento, o jogo acontece entre as ideias, como na antítese, no paradoxo, na ironia e na hipérbole. Nas de som, o efeito é sonoro, como na aliteração e na onomatopeia. A prova quase nunca pede só o nome: pede o efeito que a figura cria naquele texto, e as confusões mais comuns são entre pares parecidos.
O que é uma figura de linguagem
Toda língua tem um uso literal e um uso figurado. No literal, as palavras dizem exatamente o que o dicionário registra. No figurado, elas produzem um efeito que vai além disso: aproximam coisas distantes, exageram, suavizam, contradizem, imitam um som.
Figura de linguagem é o nome para esse segundo uso quando ele é reconhecível e se repete como recurso. Não é exclusividade de poema. Aparece na conversa, na propaganda, na manchete, na charge e na música, e é justamente por isso que a prova gosta dela: permite testar leitura em qualquer tipo de texto.
Um ponto de partida que evita metade dos erros: a pergunta da prova quase nunca é qual o nome da figura. É qual o efeito que ela produz ali. O nome ajuda a organizar a resposta, mas é o efeito que decide a alternativa certa.
Os quatro grupos
As gramáticas escolares costumam organizar as figuras em quatro famílias. A classificação varia um pouco entre autores, e algumas figuras aparecem em grupos diferentes conforme o livro. O que não varia é o critério de cada família.
| Grupo | Onde está o efeito | Exemplos principais |
|---|---|---|
| Figuras de palavra | Um termo ganha sentido diferente do literal | metáfora, comparação, metonímia, catacrese, sinestesia, perífrase |
| Figuras de construção | A organização da frase foge do padrão | elipse, zeugma, pleonasmo, anáfora, polissíndeto, assíndeto, inversão |
| Figuras de pensamento | O jogo acontece entre as ideias | antítese, paradoxo, ironia, hipérbole, eufemismo, gradação, personificação |
| Figuras de som | O efeito é sonoro | aliteração, assonância, onomatopeia, paronomásia |
Figuras de palavra
Metáfora. Aproxima dois termos por semelhança, sem conectivo. Aquela criança é uma pimenta. Ninguém acha que a criança é um tempero; o que se transfere é uma qualidade.
Comparação. A mesma aproximação, mas anunciada: aquela criança é como uma pimenta. O conectivo pode ser como, tal qual, feito, assim como, parece.
Metonímia. Troca um termo por outro com o qual ele mantém relação real. Os casos mais cobrados:
- autor pela obra: estou lendo Clarice;
- marca pelo produto: passa o durex;
- continente pelo conteúdo: comeu dois pratos;
- parte pelo todo: não tinha um teto para morar;
- concreto pelo abstrato: ele tem um grande coração.
Catacrese. Uma metáfora que se desgastou a ponto de virar o nome comum da coisa, porque não havia outro: pé da mesa, dente de alho, asa da xícara, embarcar no ônibus.
Sinestesia. Mistura sensações de sentidos diferentes: um grito áspero, um perfume doce, uma cor quente.
Perífrase. Nomeia algo por uma característica marcante: a Cidade Maravilhosa para o Rio de Janeiro. Quando a característica substitui o nome de uma pessoa, costuma-se chamar de antonomásia: o Poeta dos Escravos para Castro Alves.
Figuras de construção
Elipse. Omissão de um termo que o contexto permite recuperar: na sala, apenas duas cadeiras. O verbo haver ficou subentendido.
Zeugma. Tipo específico de elipse, em que se omite um termo que já apareceu antes: ele gosta de cinema; ela, de teatro.
Pleonasmo. Repetição de uma ideia já expressa. Literário quando dá ênfase, vicioso quando é só descuido.
Anáfora. Repetição de palavra no início de versos ou frases seguidas. É uma das figuras mais comuns em música e discurso político, porque cria ritmo e insistência.
Polissíndeto e assíndeto. O primeiro repete a conjunção: e corre, e grita, e chora, e cai. O efeito é de acúmulo e lentidão. O segundo elimina as conjunções: corre, grita, chora, cai. O efeito é de rapidez.
Inversão. Alteração da ordem direta da frase. O verso de abertura do Hino Nacional é o exemplo clássico: a ordem direta seria as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.
Figuras de pensamento
Antítese. Ideias opostas próximas, sem se anular: nasce o sol, e não dura mais que um dia.
Paradoxo. Ideias opostas afirmadas da mesma coisa ao mesmo tempo, o que só se resolve no plano figurado. Os versos de Camões sobre o amor, ferida que dói e não se sente, são o exemplo mais cobrado.
Ironia. Dizer uma coisa para significar o contrário, com o contexto revelando a inversão.
Hipérbole. Exagero intencional: já te disse isso um milhão de vezes.
Eufemismo. Suavização de algo desagradável: ele nos deixou no lugar de ele morreu.
Gradação. Sequência de termos em intensidade crescente ou decrescente: um passo, um salto, um voo.
Personificação ou prosopopeia. Atribui características humanas a seres não humanos: o vento sussurrava na janela.
Figuras de som
Aliteração. Repetição de consoantes, muitas vezes imitando o que se descreve. Versos com muitos sons de s e z costumam sugerir vento ou sussurro.
Assonância. Repetição de vogais, geralmente para criar musicalidade ou atmosfera.
Onomatopeia. Palavra que imita um som: tique-taque, zum-zum, cocoricó.
Paronomásia. Aproximação de palavras de som parecido e sentido diferente: quem casa quer casa.
Os pares que a prova mais confunde
Quase toda questão difícil de figura de linguagem explora uma dessas duplas. Vale fixar o critério de cada uma.
| Par | Critério que separa |
|---|---|
| Metáfora e comparação | Existe conectivo comparativo? Se sim, comparação |
| Metáfora e metonímia | A relação é de semelhança ou de proximidade real? |
| Antítese e paradoxo | Os opostos convivem ou são afirmados da mesma coisa? |
| Ironia e eufemismo | Inverte o sentido ou só suaviza? |
| Hipérbole e gradação | Um exagero pontual ou uma escala de intensidade? |
| Elipse e zeugma | O termo omitido já apareceu antes na frase? |
Como responder uma questão sobre figuras
Primeiro, leia o trecho inteiro. Ironia e eufemismo, em particular, só se reconhecem pelo contexto. A mesma frase pode ser literal numa situação e irônica em outra.
Depois, pergunte o que o autor ganhou com aquela escolha. Ênfase, humor, crítica, musicalidade, delicadeza. A alternativa correta costuma descrever esse ganho.
Só então confirme o nome. Com o efeito identificado, a classificação costuma sair sozinha, e as alternativas que trocam pares parecidos ficam fáceis de descartar.
O que costuma cair
- A diferença entre metáfora e comparação, que está na presença ou ausência do termo comparativo.
- A diferença entre metáfora e metonímia: semelhança contra relação de proximidade real.
- A diferença entre antítese e paradoxo: ideias opostas lado a lado contra ideias opostas afirmadas ao mesmo tempo.
- O reconhecimento de ironia, hipérbole e eufemismo pelo efeito que produzem no contexto.
- A identificação do efeito de sentido da figura dentro do texto, e não apenas do seu nome.
Onde quase todo mundo erra
Toda comparação entre duas coisas é metáfora
Quando a comparação vem com um termo que a anuncia, como, feito, tal qual, parece, é comparação. Seus olhos são como estrelas é comparação. Seus olhos são estrelas é metáfora, porque a aproximação é feita sem aviso e um termo passa a significar o outro. A pergunta a fazer é simples: há um conectivo comparando? Se há, não é metáfora.
Antítese e paradoxo são a mesma coisa
As duas trabalham com opostos, e a diferença é lógica. Na antítese, as ideias contrárias aparecem lado a lado sem se anular, como em amor e ódio convivem na mesma casa. No paradoxo, os contrários são afirmados da mesma coisa ao mesmo tempo, o que parece impossível: é dor que desatina sem doer. Se a frase soa como uma contradição que só faz sentido figuradamente, é paradoxo.
Na frase estou lendo Machado de Assis há uma metáfora
Aqui não há semelhança nenhuma entre o livro e o autor, há uma relação real: o autor produziu a obra. Trocar um termo por outro com o qual ele tem ligação concreta, como autor e obra, marca e produto, recipiente e conteúdo, parte e todo, é metonímia. Tomei um copo de água é metonímia pelo mesmo motivo. Metáfora exige semelhança; metonímia exige vizinhança.
Pleonasmo é sempre erro de português
Existe o pleonasmo vicioso, que só repete por descuido, como subir para cima, e existe o pleonasmo literário, usado de propósito para dar ênfase, como vi com meus próprios olhos. A redundância é a mesma; o que muda é a intenção e o efeito. Em questão de prova sobre poema ou canção, o pleonasmo quase sempre é o de ênfase.
Ironia é falar mal de alguém com ar de deboche
Ironia é dizer uma coisa para significar o contrário, contando que o contexto revele a inversão. Não precisa ser agressiva nem engraçada. Que belo dia para esquecer o guarda-chuva, dito debaixo de temporal, é ironia sem ofensa a ninguém. Quando a inversão serve para ferir, a gramática costuma chamar de sarcasmo, que é um uso da ironia, não um sinônimo dela.
Cards de revisão
6 perguntas
- Qual é a diferença entre metáfora e comparação?
- A comparação usa um conectivo explícito, como como ou tal qual. A metáfora aproxima os termos sem esse conectivo.
- O que é metonímia?
- A substituição de um termo por outro com o qual ele tem relação real de proximidade, como autor pela obra, marca pelo produto ou continente pelo conteúdo.
- O que é catacrese?
- Uma metáfora tão incorporada ao uso que ninguém mais percebe como figura, como pé da mesa, braço da cadeira ou céu da boca.
- O que é anáfora?
- A repetição de uma palavra ou expressão no início de versos, frases ou orações seguidas, para dar ritmo e ênfase.
- Qual é a diferença entre aliteração e assonância?
- Aliteração repete sons de consoantes; assonância repete sons de vogais.
- O que é eufemismo?
- A suavização de uma ideia desagradável por uma expressão mais branda, como partiu desta para melhor no lugar de morreu.
Beatriz Amaral
Coordenação editorial e resumos de literatura e língua portuguesa
Coordena a linha editorial do site e escreve os resumos de obras literárias. Lê a obra inteira antes de escrever, monta o esqueleto da narrativa em um diagrama e só depois redige. Se o diagrama não fecha, o resumo ainda não está pronto.