Resumo de crase
Por Beatriz Amaral 10 min de leitura
Em 30 segundos
Crase é a fusão de duas vogais a numa só, marcada na escrita pelo acento grave. Na maior parte dos casos, junta a preposição a, exigida por uma palavra anterior, com o artigo feminino a, que acompanha a palavra seguinte: quem vai vai a algum lugar, e a escola pede artigo, então vou à escola. Por isso a crase só aparece antes de palavra feminina que aceite artigo. O teste mais seguro é trocar o feminino por um masculino: se aparecer ao, havia crase; se aparecer só a ou o, não havia. Há casos obrigatórios, como as horas e locuções como às vezes e à noite, casos proibidos, como antes de verbo e de palavra masculina, e alguns facultativos, como antes de pronome possessivo feminino.
O que a crase é, de verdade
A dificuldade com a crase costuma nascer de uma ideia errada: a de que se trata de um acento que se coloca porque soa bem. Não é. A crase é o resultado de uma soma.
a (preposição) + a (artigo) = à
A preposição a é exigida por uma palavra que vem antes. O artigo a acompanha a palavra feminina que vem depois. Quando as duas se encontram, a língua funde as duas vogais numa só, e a escrita marca essa fusão com o acento grave.
- Quem vai, vai a algum lugar. A escola é feminina e pede artigo: a escola.
- Resultado: vou à escola.
Entendida assim, a crase deixa de ser um palpite. Basta verificar se as duas peças estão presentes.
As duas perguntas
Antes de colocar o acento, responda:
- A palavra anterior exige a preposição a? Verbos como ir, chegar, entregar, obedecer, referir-se; nomes como amor, obediência, referência.
- A palavra seguinte é feminina e aceita o artigo a?
Se as duas respostas forem sim, há crase. Se uma for não, não há.
Os testes que resolvem na hora
Troca pelo masculino
Substitua a palavra feminina por uma masculina parecida e veja o que aparece antes dela:
| Com feminino | Com masculino | Conclusão |
|---|---|---|
| Fui à feira | Fui ao mercado | Há crase |
| Vi a diretora | Vi o diretor | Não há crase |
| Obedeça às regras | Obedeça aos regulamentos | Há crase |
| Começou a chover | Começou a estudar | Não há, é verbo |
Se aparecer ao, havia preposição e artigo, e o feminino leva crase.
Ir e voltar, para nomes de lugar
Alguns nomes de lugar aceitam artigo e outros não. O teste é trocar o verbo:
- Volto da Bahia → vou à Bahia.
- Volto de Salvador → vou a Salvador.
- Volto da Itália → vou à Itália.
- Volto de Lisboa → vou a Lisboa.
Quando o nome de lugar sem artigo recebe uma característica, o artigo aparece e a crase também: vou à Lisboa antiga.
Casos obrigatórios
Horas exatas. A reunião começa às nove; saiu à uma hora. O teste: começa ao meio-dia.
Locuções adverbiais femininas. Às vezes, à noite, à tarde, às pressas, à vontade, às claras, à direita, à esquerda.
Locuções prepositivas. À procura de, à beira de, à custa de, à frente de, à espera de.
Locuções conjuntivas. À medida que, à proporção que.
Expressão à moda de, mesmo subentendida. Bife à milanesa, arroz à grega, um gol à Pelé.
Com os demonstrativos aquele, aquela, aquilo. Quando a palavra anterior pede preposição: refiro-me àquele livro, dei atenção àquilo. Troque por este: refiro-me a este livro.
Com a qual e as quais. A escola à qual me referi.
Casos proibidos
Antes de palavra masculina. Andar a pé, andar a cavalo, pagar a prazo.
Antes de verbo. Começou a chover; estou disposto a ajudar.
Antes da maioria dos pronomes. Pronomes pessoais, de tratamento e indefinidos: entreguei a ela, dirijo-me a Vossa Senhoria, disse isso a qualquer pessoa. Os pronomes senhora e senhorita aceitam artigo e podem receber crase.
Entre palavras repetidas. Cara a cara, gota a gota, frente a frente.
Com a no singular antes de palavra no plural. Refiro-me a pessoas desconhecidas. Aqui o a é só preposição.
Antes do artigo indefinido uma, exceto nas horas. Fui a uma festa.
Casos facultativos
Nesses casos, as duas formas estão corretas, porque o artigo é opcional antes da palavra seguinte:
- Pronome possessivo feminino no singular: fui a minha casa ou fui à minha casa.
- Nome próprio de mulher: entreguei o convite a Mariana ou à Mariana.
- Depois de até: fui até a esquina ou até à esquina.
Em prova, quando a questão pede a alternativa com erro, os casos facultativos quase nunca são a resposta.
Três casos que confundem
Casa. No sentido de lar, sem especificação, não leva artigo: voltei a casa cedo. Com especificação, leva: fui à casa dos meus avós.
Terra. Em oposição a bordo, para quem está no mar ou no ar, não leva: os marinheiros desceram a terra. Como planeta ou como terra natal especificada, leva: a nave voltou à Terra.
Distância. Quando a distância é determinada, costuma-se usar crase: fiquei à distância de dois metros. Quando não é determinada, não: observava a distância.
Como cair bem numa questão de crase
Pense em soma, não em som. Pergunte se há preposição antes e artigo depois.
Use a troca pelo masculino. Resolve a maioria dos casos em segundos.
Decore só as exceções. Horas, locuções femininas, à moda de, e os facultativos. O resto sai do raciocínio.
O que costuma cair
- A crase como encontro de preposição e artigo, e não como um acento que se escolhe pelo ouvido.
- O teste da troca pelo masculino e o teste do voltar de para nomes de lugar.
- Os casos obrigatórios: horas, locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas femininas.
- Os casos proibidos: antes de palavra masculina, de verbo, de pronome pessoal e entre palavras repetidas.
- Os casos facultativos: pronome possessivo feminino, nome próprio de mulher e depois de até.
Onde quase todo mundo erra
Crase é um tipo de acento, como o agudo
Crase é o fenômeno, a fusão de duas vogais iguais. O sinal que a indica é o acento grave. Dizer que a palavra leva crase é uma simplificação aceitável na conversa, mas a prova costuma diferenciar o nome do fenômeno do nome do sinal. E o acento grave, no português atual, praticamente só serve para isso.
Antes de palavra feminina sempre tem crase
Precisa haver as duas coisas: uma palavra anterior que exija a preposição a e uma palavra feminina que aceite artigo. Em vi a professora, o verbo ver não pede preposição, então há só o artigo. Em entreguei o livro à professora, entregar pede a, e aí sim há crase. Troque por o professor: vi o professor, entreguei ao professor.
Vou a Bahia e vou à Roma estão certos
Nomes de lugar variam: alguns aceitam artigo, outros não. O teste é trocar ir por voltar. Quem volta da Bahia vai à Bahia; quem volta de Roma vai a Roma. Se aparecer da, há crase; se aparecer de, não há. Se o nome de lugar vier acompanhado de característica, a crase volta: vou à Roma dos césares.
Antes de uma nunca tem crase
Antes do artigo indefinido uma, de fato, não há crase: fui a uma reunião. A exceção é a indicação de horas, em que uma é numeral e a expressão pede crase: a reunião começa à uma hora. O teste da troca também funciona aqui: começa ao meio-dia, começa às duas.
Refiro-me às pessoas e refiro-me à pessoas são a mesma coisa
Quando o a vem no singular antes de uma palavra no plural, ele é só preposição, sem artigo, e não há crase: refiro-me a pessoas que chegaram cedo. Se houver artigo no plural, a crase vem no plural também: refiro-me às pessoas que chegaram cedo. O que nunca existe é à antes de plural sem o s.
Cards de revisão
6 perguntas
- O que é crase?
- A fusão de duas vogais a numa só, geralmente a preposição a com o artigo feminino a, indicada pelo acento grave.
- Qual é o teste mais usado para saber se há crase?
- Trocar a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se aparecer ao, há crase; se aparecer só a ou o, não há.
- Como decidir a crase antes de nome de lugar?
- Troque ir por voltar. Se o certo for voltar da, há crase; se for voltar de, não há.
- Por que se escreve às 8 horas?
- Porque na indicação de horas exatas a crase é obrigatória: a preposição se funde com o artigo que acompanha o numeral.
- Há crase antes de verbo?
- Não. Verbos não aceitam artigo, então não há o que fundir: começou a chover, está disposto a ajudar.
- Quando a crase é facultativa?
- Antes de pronome possessivo feminino no singular, antes de nome próprio de mulher e depois da preposição até.
Beatriz Amaral
Coordenação editorial e resumos de literatura e língua portuguesa
Coordena a linha editorial do site e escreve os resumos de obras literárias. Lê a obra inteira antes de escrever, monta o esqueleto da narrativa em um diagrama e só depois redige. Se o diagrama não fecha, o resumo ainda não está pronto.