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Resumo De

Resumo de O Gene Egoísta

Por Aline Perez e Nara Siqueira 10 min de leitura

A tese em uma frase A seleção natural favorece os genes que conseguem deixar cópias de si, e isso explica até comportamentos altruístas.

Em 30 segundos

Dawkins propõe olhar a evolução do ponto de vista do gene. Os seres vivos seriam máquinas de sobrevivência construídas pelos genes, que são os verdadeiros replicadores: as unidades que passam de geração em geração. Genes que produzem corpos e comportamentos capazes de deixar mais cópias desses mesmos genes se espalham; os outros desaparecem. O egoísmo do título é uma metáfora para esse efeito, não uma intenção, porque genes não querem nada. Com essa lente, o livro explica comportamentos que pareciam contradizer a seleção natural, como o altruísmo, pela ajuda a parentes que compartilham genes e pela cooperação recíproca. No último capítulo da edição original, Dawkins cria a palavra meme para as unidades de cultura que também se copiam.

Genes como replicadores atravessando gerações dentro de organismos que funcionam como veículos, com as explicações do altruísmo e o meme como replicador cultural
Ilustração: resumode.com.br

Uma troca de ponto de vista

O Gene Egoísta não apresenta uma teoria nova da evolução. Apresenta um novo ângulo para olhar a teoria de Darwin, reunindo trabalhos de biólogos das décadas de 1960 e 1970, como William Hamilton, Robert Trivers e John Maynard Smith.

A pergunta que organiza o livro é: quem é o beneficiário da seleção natural? A resposta intuitiva seria o indivíduo, ou a espécie. Dawkins argumenta que a unidade mais útil para entender o processo é o gene.

O argumento é simples de enunciar. Corpos morrem, e cada filho recebe só uma parte dos genes de cada pai. O que atravessa as gerações são os genes, copiados de corpo em corpo. Então, a longo prazo, tornam-se comuns os genes que, pelos efeitos que produzem, conseguem deixar mais cópias de si mesmos.

Replicadores e veículos

O livro começa pela origem da vida, imaginando os primeiros replicadores: moléculas capazes de produzir cópias de si mesmas num caldo químico primitivo. As cópias nem sempre saíam perfeitas, e as variantes mais estáveis, mais rápidas ou mais precisas passaram a predominar.

Com o tempo, replicadores que se cercavam de estruturas protetoras tiveram vantagem. Dessa história nascem os organismos, que Dawkins chama de máquinas de sobrevivência ou veículos: estruturas construídas pelos genes e que os carregam.

Replicador Veículo
Faz cópias de si mesmo É construído a partir das instruções dos replicadores
Pode durar indefinidamente em cópias Tem vida limitada
Na biologia, o gene O organismo

Egoísmo, no sentido do livro

O título é deliberadamente provocador, e Dawkins explica o sentido logo cedo.

Um gene é chamado de egoísta porque os genes que se espalham são aqueles cujos efeitos favorecem a própria replicação, mesmo que à custa de outros. Não há vontade, cálculo ou consciência. É uma metáfora para descrever um resultado estatístico ao longo de muitas gerações.

O autor usa com frequência frases como o gene quer ou o gene tenta, e avisa que são atalhos. Toda frase desse tipo pode ser traduzida para uma versão sem intenção: genes com tal efeito tendem a ficar mais frequentes.

O mais importante: gene egoísta não significa organismo egoísta. Em muitas situações, a forma mais eficiente de um gene se espalhar é produzir indivíduos que cooperam.

Como o altruísmo se explica

O altruísmo era um problema para a teoria da evolução: por que um animal arriscaria a vida por outro? O livro reúne três respostas.

Seleção de parentesco

Parentes próximos compartilham parte dos mesmos genes. Irmãos têm, em média, metade dos genes em comum por herança recente; primos, bem menos.

Um gene que leva um indivíduo a ajudar parentes pode se espalhar, desde que o benefício para os parentes, ponderado pelo grau de parentesco, supere o custo para quem ajuda. Essa é a ideia formalizada por William Hamilton.

Isso explica, por exemplo, por que em algumas espécies de insetos sociais operárias estéreis trabalham a vida inteira pela colônia.

Altruísmo recíproco

Entre indivíduos que se encontram repetidas vezes, ajudar hoje pode render ajuda amanhã. Comportamentos de troca podem ser favorecidos, desde que haja formas de reconhecer e punir quem só recebe e nunca retribui.

Estratégias evolutivamente estáveis

Dawkins apresenta a ideia de John Maynard Smith com o exemplo dos gaviões e pombos, que não são as aves, e sim duas estratégias de comportamento em disputas:

  • gavião: luta sempre até vencer ou se ferir;
  • pombo: ameaça, mas recua se o outro atacar.

Numa população só de pombos, um gavião se sai muito bem. Numa população só de gaviões, todos se ferem, e um pombo evita o prejuízo. O resultado tende a uma mistura estável. Uma estratégia evolutivamente estável é aquela que, adotada pela maioria, não pode ser superada por uma alternativa que surja.

Conflitos dentro da família

Com a lente do gene, o livro explica tensões que pareciam estranhas:

  • pais e filhos: um filho tende a pedir mais investimento do que é vantajoso para os pais darem, porque os pais também investem nos outros filhos;
  • entre os sexos: machos e fêmeas de muitas espécies investem de forma desigual na prole, o que produz estratégias diferentes de corte e cuidado.

Nenhum desses conflitos é consciente. São padrões previstos pelo modelo e observados na natureza.

Memes

No capítulo 11 da edição original, Dawkins propõe que a cultura humana tem seus próprios replicadores. Chama-os de memes, palavra criada por aproximação com gene e com a ideia de imitação.

Um meme é qualquer unidade cultural que se copia de mente em mente: uma melodia, uma expressão, uma técnica, uma crença, uma moda. Assim como os genes, os memes variam, competem por atenção e memória, e alguns se espalham mais do que outros.

O ponto que o capítulo sustenta é que a evolução cultural pode seguir caminhos independentes da evolução genética, e até contrários a ela.

As edições posteriores

Na edição de 1989, Dawkins acrescentou dois capítulos:

  • sobre cooperação, a partir de torneios de computador com estratégias para o dilema do prisioneiro repetido, em que estratégias simples e cooperativas, que retribuem o comportamento do outro, se saíram muito bem;
  • sobre o fenótipo estendido, a ideia de que os efeitos de um gene podem ir além do corpo, como a represa construída pelo castor.

Críticas e debates

O livro gerou discussão desde o lançamento, e algumas críticas persistem:

  • parte dos biólogos defende que a seleção atua em vários níveis ao mesmo tempo, incluindo grupos, e não só nos genes;
  • críticos apontam que a linguagem de intenção, mesmo explicada, facilita leituras deterministas;
  • o conceito de meme é considerado sugestivo, mas difícil de transformar em ciência mensurável.

Nada disso tira do livro seu lugar como uma das obras de divulgação científica mais influentes do século XX.

Como ler o livro hoje

Traduza as metáforas. Toda vez que um gene quiser algo, reescreva a frase como uma tendência estatística.

Separe descrição de valor. Explicar a origem de um comportamento não o justifica nem o condena.

Leia o capítulo dos memes com o contexto de 1976. A palavra ganhou vida própria, e o conceito original é mais amplo e mais interessante.

As ideias que ficam

  1. A distinção entre replicadores, os genes, e veículos, os organismos que eles constroem.
  2. O sentido metafórico de egoísmo e a razão pela qual genes não têm intenção.
  3. A explicação do altruísmo por seleção de parentesco e por altruísmo recíproco.
  4. A ideia de estratégia evolutivamente estável e o exemplo de gaviões e pombos.
  5. A criação do conceito de meme e sua relação com a evolução cultural.

O que o livro não diz

O livro diz que os seres humanos são egoístas por natureza

O egoísmo do título é dos genes, e em sentido figurado. Dawkins mostra justamente que genes egoístas podem produzir organismos cooperativos e altruístas, quando isso aumenta a chance de cópias desses genes sobreviverem. Além disso, ele afirma que os humanos podem se opor às tendências herdadas e ensinar generosidade. O livro descreve um mecanismo, não recomenda uma conduta.

Os genes querem se reproduzir e agem para isso

Genes são sequências químicas; não querem nem planejam nada. A linguagem de intenção é um atalho que o próprio autor explica no início: dizer que um gene quer algo é uma forma curta de dizer que genes com determinado efeito tendem a se tornar mais comuns com o tempo. Tomar a metáfora ao pé da letra é o erro de leitura mais comum.

O livro defende que tudo é determinado pelos genes

O livro trata de como a seleção natural atua, não de que o comportamento de cada pessoa esteja escrito no DNA. Um gene influencia probabilidades e interage com o ambiente. Dawkins rejeita expressamente o determinismo genético e dedica o capítulo sobre memes a mostrar que a cultura humana tem uma dinâmica própria de transmissão.

Altruísmo verdadeiro seria impossível pela teoria

O livro existe em boa parte para explicar como o altruísmo surge. Ajudar parentes próximos pode espalhar os genes que se compartilham com eles, e cooperar com quem retribui pode trazer vantagem ao longo do tempo. Explicar a origem evolutiva de um comportamento não o torna falso nem calculado na cabeça de quem o pratica.

Meme é uma imagem engraçada de internet, e o livro previu isso

Dawkins criou a palavra em 1976 para designar qualquer unidade de cultura que se transmite por imitação: uma melodia, uma ideia, uma moda, uma forma de fazer algo. O uso de meme para imagens humorísticas veio muito depois e é só um caso particular. O conceito original é bem mais amplo e trata de como ideias competem e se espalham.

Livros que conversam com este

  • A Origem das Espécies Charles Darwin

    A teoria da seleção natural que o livro reinterpreta do ponto de vista do gene.

  • O Relojoeiro Cego Richard Dawkins

    Como a seleção natural produz complexidade sem nenhum projeto por trás.

Cards para fixar

6 perguntas

O que é um replicador, no vocabulário do livro?
Uma entidade capaz de fazer cópias de si mesma. Na biologia, o papel é dos genes.
O que Dawkins chama de máquina de sobrevivência?
Os organismos, construídos pelos genes, que funcionam como veículos para a sobrevivência e a transmissão desses genes.
O que é seleção de parentesco?
A tendência de a seleção favorecer comportamentos que ajudam parentes, porque eles carregam cópias de parte dos mesmos genes.
O que é uma estratégia evolutivamente estável?
Uma estratégia de comportamento que, adotada pela maioria de uma população, não pode ser superada por nenhuma estratégia alternativa.
O que o capítulo acrescentado sobre cooperação mostra?
Que, em interações repetidas, estratégias cooperativas que retribuem o comportamento do outro podem vencer estratégias puramente exploradoras.
O que é o fenótipo estendido, tema do capítulo final das edições posteriores?
A ideia de que os efeitos de um gene vão além do corpo, como a represa do castor ou a teia da aranha.

Aline Perez

Resumos de livros de não ficção

Escreve os resumos da estante Livros, extraindo a ideia central de obras que costumam ser mais citadas do que lidas. Escreve primeiro o que o livro afirma, depois o que ele não afirma e virou senso comum mesmo assim. A segunda lista costuma ser a mais longa.

Nara Siqueira

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