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Resumo das leis da termodinâmica

Por Tomás Rezende 10 min de leitura

Em 30 segundos

A termodinâmica estuda as trocas de calor e trabalho e o que elas fazem com a energia de um sistema. A lei zero diz que dois corpos em equilíbrio térmico com um terceiro estão em equilíbrio entre si, e é ela que justifica o termômetro. A primeira lei é a conservação de energia: a variação da energia interna de um gás é igual ao calor recebido menos o trabalho que ele realiza, ΔU = Q − W. A segunda lei impõe um limite: o calor não passa espontaneamente do frio para o quente, e nenhuma máquina térmica transforma todo o calor recebido em trabalho. Parte sempre é rejeitada para uma fonte fria. O rendimento máximo possível é o da máquina de Carnot, que depende só das temperaturas das fontes, medidas em kelvin.

A máquina térmica entre fonte quente e fonte fria, com calor recebido, trabalho realizado e calor rejeitado, ao lado da primeira lei e das quatro transformações
Ilustração: resumode.com.br

Do que trata a termodinâmica

A termodinâmica nasceu, em grande parte, de uma pergunta prática do século XIX: como tirar o máximo de trabalho de uma máquina a vapor? A resposta levou a leis que valem para qualquer sistema em que haja calor, trabalho e energia, de motores de carro a geladeiras e ao próprio corpo humano.

O caso mais estudado no ensino médio é o de um gás preso num recipiente com êmbolo, que pode receber calor, se expandir e realizar trabalho.

Três grandezas que não podem ser confundidas

Grandeza O que é
Temperatura Medida do grau de agitação das partículas
Energia interna (U) A energia total das partículas do sistema; num gás ideal, depende só da temperatura
Calor (Q) Energia transferida por diferença de temperatura
Trabalho (W) Energia transferida por força e deslocamento, como o gás empurrando um êmbolo

Calor e trabalho são formas de transferir energia. Não se “tem” calor; tem-se energia interna.

Lei zero

Se A está em equilíbrio térmico com C, e B está em equilíbrio térmico com C, então A e B estão em equilíbrio térmico entre si.

Parece óbvia, e é por isso que foi formulada depois das outras e ganhou o número zero. É o que justifica o uso do termômetro: ele entra em equilíbrio com o corpo e passa a indicar a mesma temperatura.

Primeira lei: conservação de energia

ΔU = Q − W

A variação da energia interna do gás é igual ao calor que ele recebe menos o trabalho que ele realiza.

Convenção de sinais

Positivo Negativo
Q O gás recebe calor O gás cede calor
W O gás realiza trabalho, se expande O gás recebe trabalho, é comprimido
ΔU A temperatura aumenta A temperatura diminui

Alguns livros usam a convenção inversa para o trabalho. A prova sempre deixa claro qual está usando; vale conferir antes de aplicar.

As quatro transformações

Transformação O que fica constante Consequência na primeira lei
Isotérmica Temperatura ΔU = 0, então Q = W
Isobárica Pressão W = p · ΔV
Isocórica Volume W = 0, então ΔU = Q
Adiabática Não há troca de calor Q = 0, então ΔU = −W

A adiabática explica fenômenos comuns: o ar que sai rápido de um spray esfria porque se expande sem tempo de trocar calor, e a bomba de encher pneu esquenta porque o ar é comprimido rapidamente.

Máquinas térmicas

Uma máquina térmica opera em ciclos entre duas fontes:

  1. recebe calor Q₁ de uma fonte quente;
  2. converte parte dele em trabalho W;
  3. rejeita o restante, Q₂, para uma fonte fria.

Pela conservação de energia, Q₁ = W + Q₂.

O rendimento mede quanto do calor recebido vira trabalho:

η = W / Q₁ = 1 − Q₂ / Q₁

Um motor que recebe 1.000 J e rejeita 700 J realiza 300 J de trabalho e tem rendimento de 30%.

Segunda lei

A segunda lei tem dois enunciados clássicos, equivalentes:

  • Clausius: o calor não passa espontaneamente de um corpo mais frio para um corpo mais quente.
  • Kelvin-Planck: é impossível construir uma máquina térmica que, operando em ciclo, transforme integralmente em trabalho o calor recebido.

A consequência prática é que nenhuma máquina tem rendimento de 100%. Sempre há calor rejeitado.

Refrigeradores

Uma geladeira funciona como máquina térmica ao contrário: retira calor da fonte fria, o interior, e o rejeita para a fonte quente, o ambiente. Pelo enunciado de Clausius, isso só é possível com gasto de trabalho, fornecido pelo compressor.

Entropia

A segunda lei também pode ser expressa com a ideia de entropia, uma medida da dispersão da energia. Em um sistema isolado, os processos espontâneos acontecem no sentido de aumentar a entropia. Por isso um café quente esfria no ambiente e nunca esquenta sozinho tirando calor do ar.

O ciclo de Carnot

Sadi Carnot descreveu, no início do século XIX, o ciclo ideal de maior rendimento possível entre duas temperaturas. Ele é formado por duas transformações isotérmicas e duas adiabáticas, sem atrito nem perdas.

O rendimento de Carnot depende apenas das temperaturas das fontes, em kelvin:

η = 1 − T₂ / T₁

Exemplo: fonte quente a 327 °C, ou 600 K, e fonte fria a 27 °C, ou 300 K. O rendimento máximo é 1 − 300/600 = 50%.

Nenhuma máquina real, operando entre essas temperaturas, pode superar esse valor. Máquinas reais ficam abaixo, por causa de atrito e perdas.

Termodinâmica e história

A máquina a vapor foi o motor da Revolução Industrial, e a necessidade de melhorá-la impulsionou o estudo do calor. As leis da termodinâmica são, assim, um caso claro de ciência que nasceu de um problema técnico e acabou revelando princípios gerais da natureza.

Como cair bem numa prova de termodinâmica

Escreva ΔU = Q − W e confira os sinais. A maioria dos erros vem da convenção trocada.

Descubra o que zera. Em cada transformação, uma grandeza se anula e simplifica a conta.

Converta para kelvin no Carnot. Sem conversão, o rendimento sai errado.

O que costuma cair

  1. A diferença entre calor, temperatura e energia interna.
  2. A primeira lei, ΔU = Q − W, com a convenção de sinais para calor e trabalho.
  3. As transformações isotérmica, isobárica, isocórica e adiabática e o que zera em cada uma.
  4. O funcionamento da máquina térmica, o cálculo do rendimento e o limite de Carnot.
  5. A segunda lei em seus enunciados sobre calor e sobre máquinas, e a ideia de entropia.

Onde quase todo mundo erra

Um corpo quente tem muito calor guardado

Temperatura mede o grau de agitação das partículas de um corpo. Calor é energia em trânsito, que flui de um corpo mais quente para outro mais frio por causa da diferença de temperatura. Um corpo não tem calor guardado; tem energia interna. Calor só existe enquanto está sendo transferido.

Uma máquina bem construída pode ter rendimento de 100%

A segunda lei proíbe. Toda máquina térmica que opera em ciclo precisa rejeitar parte do calor para uma fonte fria. Nem a máquina ideal de Carnot, sem atrito nem perdas, chega a 100%: seu rendimento é 1 − T₂/T₁, que só seria 1 se a fonte fria estivesse no zero absoluto, o que não é possível atingir.

No cálculo do rendimento de Carnot, dá para usar graus Celsius

A fórmula exige temperaturas absolutas, em kelvin. Com fontes a 327 °C e 27 °C, o rendimento não é 1 − 27/327. Convertendo, as temperaturas são 600 K e 300 K, e o rendimento máximo é 1 − 300/600, ou 50%. Esquecer a conversão produz resultados completamente errados.

Na expansão isotérmica, o gás não recebe calor porque a temperatura não muda

Temperatura constante significa energia interna constante, ΔU = 0. Pela primeira lei, então, Q = W: todo o calor recebido é convertido em trabalho de expansão. O gás recebe calor, sim, e justamente por isso consegue se expandir sem esfriar.

A geladeira produz frio

A geladeira retira calor do interior, a fonte fria, e o rejeita para o ambiente, a fonte quente, pela grade de trás. Para isso, precisa receber trabalho do compressor, que consome energia elétrica. É exatamente o que a segunda lei prevê: o calor só vai do frio para o quente com gasto de trabalho.

Cards de revisão

6 perguntas

O que diz a lei zero da termodinâmica?
Se dois corpos estão em equilíbrio térmico com um terceiro, estão em equilíbrio térmico entre si.
Como se escreve a primeira lei?
ΔU = Q − W: a variação da energia interna é o calor recebido menos o trabalho realizado pelo gás.
O que é uma transformação adiabática?
Uma transformação sem troca de calor com o ambiente, Q = 0. Toda a variação de energia interna vem do trabalho.
Em qual transformação o trabalho é nulo?
Na isocórica, ou isovolumétrica, em que o volume não varia.
Como se calcula o rendimento de uma máquina térmica?
Dividindo o trabalho realizado pelo calor recebido da fonte quente: η = W / Q₁, que também é 1 − Q₂/Q₁.
O que é entropia, de forma simples?
Uma medida da dispersão da energia de um sistema. Em sistemas isolados, a entropia tende a aumentar.

Tomás Rezende

Resumos de matemática, física e química

Escreve os resumos das ciências exatas, sempre explicando o sentido de cada fórmula antes da conta. Resolve cada exemplo do zero antes de escrever sobre ele e anota em que ponto a conta costuma travar. É ali que entra a armadilha de cada resumo.

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