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Resumo De

Resumo de O Príncipe

Por Aline Perez e Otávio Ribeiro 11 min de leitura

A tese em uma frase Quem governa precisa agir conforme a realidade da política, e não conforme o que ela deveria ser.

Em 30 segundos

O Príncipe é um tratado curto escrito em 1513 por um funcionário florentino afastado do cargo, e endereçado a quem governava Florença. A novidade não é defender a crueldade: é separar a análise política da moral. Maquiavel propõe estudar como o poder funciona de fato, e não como deveria funcionar em um mundo ideal, e daí tira conclusões desconfortáveis: um governante que se guia apenas pela virtude perde para quem não se guia. Os dois conceitos centrais são virtù, a capacidade de agir com eficácia diante das circunstâncias, e fortuna, tudo o que não se controla. A frase os fins justificam os meios não está no livro.

Estrutura de O Príncipe em quatro blocos temáticos, com os conceitos de virtù e fortuna e a separação entre análise política e moral
Ilustração: resumode.com.br

O contexto, que explica o livro

Em 1513, a Itália não era um país. Era um conjunto de Estados pequenos, ricos e militarmente fracos: Florença, Veneza, Milão, Nápoles, os Estados Pontifícios. França e Espanha usavam a península como campo de batalha havia duas décadas.

Nicolau Maquiavel tinha servido catorze anos à república de Florença, como secretário responsável por assuntos externos e militares. Viajou em missões diplomáticas, observou de perto governantes como César Bórgia e o rei da França, e organizou uma milícia cidadã.

Em 1512, os Médici voltaram ao poder e a república caiu. Maquiavel foi demitido, acusado de conspiração, preso e torturado. Solto, foi confinado a uma pequena propriedade rural.

Foi ali que escreveu O Príncipe, em poucos meses, e o dedicou a Lourenço de Médici. A intenção era explícita: demonstrar competência e conseguir um cargo. Não funcionou.

Esse contexto importa. O livro não é uma meditação serena sobre política: é um documento escrito por alguém desempregado, com experiência prática incomum, tentando ser útil a quem podia contratá-lo.

A tese: separar o que é do que deveria ser

Havia um gênero consolidado na época, o dos espelhos de príncipes: tratados que descreviam as virtudes de um bom governante, geralmente justiça, generosidade e piedade.

Maquiavel rompe com isso em uma passagem que é o coração do livro: ele diz que vai ao que efetivamente acontece, e não à imaginação do que deveria acontecer, porque quem abandona o que se faz pelo que se deveria fazer aprende a se arruinar, não a se preservar.

Essa é a verdadeira novidade, e ela não é moral, é metodológica. Ele propõe estudar política como se estuda um fenômeno: observando o que produz resultado.

A conclusão desconfortável vem por consequência. Se muitos não são bons, o governante que insiste em ser bom em todas as circunstâncias será destruído por eles. Logo, precisa saber não ser bom, e usar essa capacidade conforme a necessidade.

Repare na formulação: saber não ser bom, e não ser mau. A diferença é o que separa o argumento da caricatura.

Como o livro está organizado

Vinte e seis capítulos curtos, em quatro blocos.

Tipos de principado, capítulos 1 a 11. Classifica os Estados conforme a origem: hereditários, novos, mistos, conquistados por armas próprias, por armas alheias, por crime ou por escolha dos cidadãos. Cada tipo apresenta problemas diferentes de manutenção. Um principado hereditário se conserva quase sozinho; um principado novo é o caso difícil, e é dele que o livro trata de verdade.

Assuntos militares, capítulos 12 a 14. Aqui Maquiavel é mais enfático do que em qualquer outra parte. Condena mercenários e tropas auxiliares, porque quem luta por dinheiro não tem motivo para morrer e quem luta emprestado obedece a outro. Defende exército próprio, formado por cidadãos. E afirma que a única arte que interessa a um governante é a da guerra, incluindo estudar terreno e história militar em tempo de paz.

A conduta do governante, capítulos 15 a 23. É a parte mais citada, e onde estão as passagens que geraram a fama do livro. Trata de generosidade e parcimônia, de crueldade e clemência, de manter ou não a palavra, de evitar o desprezo e o ódio, de escolher conselheiros e de fugir de bajuladores.

A Itália, capítulos 24 a 26. Fecha com uma exortação inesperadamente apaixonada para que alguém liberte a Itália dos estrangeiros. O tom muda completamente, e essa mudança é um dos argumentos de quem lê o livro como obra patriótica e não como manual cínico.

Os conceitos centrais

Virtù

Não é virtude moral. É a capacidade de agir com eficácia diante das circunstâncias: energia, decisão, capacidade de leitura da situação, coragem para agir na hora certa.

Um governante com virtù percebe o que o momento exige e faz, mesmo quando o que o momento exige é desagradável.

Fortuna

Tudo o que não se controla: o acaso, a conjuntura, os acontecimentos externos.

Maquiavel usa duas imagens. A fortuna é como um rio que transborda e destrói tudo quando não há diques, e por isso o momento de construir diques é antes da cheia. E arbitra cerca de metade das nossas ações, deixando a outra metade para nós.

A relação entre os dois conceitos é a estrutura do livro: virtù existe para enfrentar fortuna. Quem só teve sorte e não tem capacidade perde o que ganhou na primeira mudança de vento.

A raposa e o leão

O governante precisa ser as duas coisas: leão para espantar os lobos, raposa para reconhecer as armadilhas. Só força não basta, só astúcia não basta.

É nessa passagem que aparece a discussão sobre manter a palavra. O argumento é que um governante deve cumprir o que promete, mas que, quando cumprir se torna ruinoso e as razões que levaram à promessa desapareceram, não é obrigado a se arruinar por coerência. E acrescenta a parte que costuma ser esquecida: é preciso ser um grande dissimulador, porque as pessoas são simples e acreditam no que veem.

Amado ou temido

O capítulo mais citado e o mais mal lido.

A pergunta é formulada assim: já que é difícil ter as duas coisas, é mais seguro ser temido ou amado? A resposta é ser temido, e a razão é prática: o amor depende da vontade dos outros e se desfaz quando é inconveniente; o medo depende do governante e se sustenta.

Mas o capítulo tem uma condição que muda tudo: temido sem ser odiado. E o livro explica como se torna odiado: tomando os bens e as mulheres dos súditos. A observação seguinte é quase cômica de tão seca: as pessoas esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda do patrimônio.

Um governante odiado não está seguro. Está condenado a conspirações.

O que a fama do livro escondeu

Os Discursos. Maquiavel escreveu, na mesma época, os Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, uma obra bem maior e de conteúdo republicano, em que defende que a república é superior ao principado, que o conflito entre grupos sociais pode fortalecer um Estado e que povos armados e participantes são mais estáveis.

Quem lê apenas O Príncipe recebe metade de um pensamento. As duas obras juntas mostram um autor cuja preferência política era republicana e que escreveu um tratado técnico sobre o caso particular do principado novo.

A hipótese da sátira. Alguns leitores, desde o século XVIII, propuseram que O Príncipe seria uma denúncia disfarçada, que exporia os métodos dos tiranos para alertar os cidadãos. A hipótese é minoritária, mas circula, e vale conhecê-la.

Por que ainda se lê

Porque a separação que Maquiavel propôs continua incômoda e continua operante. A pergunta que ele deixou não é se um governante deve ser bom, é o que acontece quando quem age bem enfrenta quem não age.

O livro não responde isso com conforto. Essa é a razão de ele ter sido condenado, proibido e lido sem parar por quinhentos anos.

As ideias que ficam

  1. O contexto de 1513: Itália fragmentada, invasões estrangeiras e Maquiavel afastado do governo de Florença.
  2. A separação entre política e moral como a verdadeira novidade do livro.
  3. Os conceitos de virtù e fortuna e a relação entre os dois.
  4. A discussão sobre ser amado ou temido, e a conclusão efetiva do capítulo.
  5. A existência dos Discursos sobre Tito Lívio, obra republicana do mesmo autor, que muda a leitura do conjunto.

O que o livro não diz

Citar a frase os fins justificam os meios como se fosse de Maquiavel

Ela não aparece em O Príncipe nem em nenhuma outra obra dele. É uma síntese posterior, feita por críticos, que condensa e deforma o argumento. O que o texto diz é mais estreito: em política, o resultado é o critério pelo qual a ação será julgada, o que é uma observação sobre como as coisas funcionam, não uma autorização geral.

Usar maquiavélico como sinônimo de perverso

O adjetivo virou insulto no século XVI, sobretudo em polêmicas religiosas, e se descolou da obra. Maquiavel não recomenda crueldade por gosto: ele distingue crueldade bem usada, rápida e limitada, de crueldade mal usada, que se prolonga e acumula inimigos, e considera a segunda um erro técnico.

Maquiavel era inimigo da república

Ele escreveu os Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, um elogio extenso do governo republicano, e serviu a república de Florença por catorze anos. O Príncipe trata de um caso específico, o de fundar ou manter um principado novo, e não expressa a preferência política do autor.

Ler o livro como manual de gestão de empresas

A leitura corporativa é popular e quase sempre desloca o texto. O problema tratado é a manutenção do poder em Estados sem instituições estáveis, sob ameaça de invasão e conspiração. Transportar conselhos sobre fortalezas, mercenários e principados conquistados para a rotina de um escritório produz analogia frouxa, não método.

Supor que o livro foi publicado e lido no tempo do autor

Ele circulou em manuscrito, mas só foi impresso em 1532, cinco anos depois da morte de Maquiavel. A dedicatória a Lourenço de Médici, com quem ele tentava recuperar um cargo, não surtiu o efeito pretendido.

Livros que conversam com este

  • A Arte da Guerra Sun Tzu

    Cálculo frio diante do adversário, séculos antes e em outra tradição.

  • O Contrato Social Jean-Jacques Rousseau

    A pergunta oposta: não como se conserva o poder, mas o que o torna legítimo.

  • Leviatã Thomas Hobbes

    A origem do Estado e da obediência a partir do medo da guerra de todos contra todos.

Cards para fixar

6 perguntas

Quando e por que O Príncipe foi escrito?
Em 1513, por Maquiavel afastado do governo de Florença, dedicado a Lourenço de Médici, com a intenção declarada de demonstrar competência e recuperar um cargo.
Qual é a verdadeira novidade do livro?
Separar a análise política da moral: estudar como o poder funciona de fato, em vez de descrever como um governante ideal deveria agir.
O que são virtù e fortuna?
Virtù é a capacidade de agir com eficácia diante das circunstâncias. Fortuna é tudo o que não se controla. A virtù existe para enfrentar a fortuna.
É melhor ser amado ou temido?
Melhor as duas coisas, mas se for preciso escolher, ser temido, porque o medo depende do governante e o amor depende dos outros. Com uma ressalva: nunca ser odiado.
Por que Maquiavel critica os mercenários?
Porque quem luta por dinheiro não tem motivo para morrer. Ele defende exército próprio, formado por cidadãos com interesse no resultado.
A frase os fins justificam os meios está no livro?
Não. É uma síntese posterior feita por críticos, e não aparece em nenhuma obra de Maquiavel.

Aline Perez

Resumos de livros de não ficção

Escreve os resumos da estante Livros, extraindo a ideia central de obras que costumam ser mais citadas do que lidas. Escreve primeiro o que o livro afirma, depois o que ele não afirma e virou senso comum mesmo assim. A segunda lista costuma ser a mais longa.

Otávio Ribeiro

Resumos de história e ciências humanas

Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.

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