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Resumo das leis de Mendel

Por Nara Siqueira 9 min de leitura

Em 30 segundos

A primeira lei de Mendel diz que cada característica é determinada por um par de fatores, hoje chamados de alelos, e que esse par se separa na formação dos gametas: cada gameta recebe apenas um deles. É por isso que o cruzamento entre dois heterozigotos Aa produz descendentes na proporção de três para um no fenótipo e um para dois para um no genótipo. A segunda lei diz que pares de fatores referentes a características diferentes se separam de forma independente uns dos outros, o que gera a proporção 9:3:3:1 no cruzamento entre dois di-híbridos. Essa segunda lei só é válida quando os genes estão em cromossomos diferentes.

Quadro de Punnett do cruzamento entre dois heterozigotos, mostrando a proporção de três para um no fenótipo e um para dois para um no genótipo
Ilustração: resumode.com.br

O vocabulário que precisa estar firme

Quase todo erro de genética básica é erro de vocabulário. Vale fixar antes de qualquer conta.

  • Gene: trecho do DNA responsável por uma característica.
  • Alelo: cada uma das versões possíveis de um gene. Em um organismo diploide há dois alelos para cada gene, um herdado de cada progenitor.
  • Genótipo: a combinação de alelos que o indivíduo carrega, como AA, Aa ou aa.
  • Fenótipo: a característica que se manifesta, resultado do genótipo em interação com o ambiente.
  • Homozigoto: os dois alelos iguais, AA ou aa.
  • Heterozigoto: os dois alelos diferentes, Aa.
  • Dominante: o alelo que se manifesta no fenótipo do heterozigoto.
  • Recessivo: o alelo que só se manifesta quando em dose dupla.

Por que a ervilha

Mendel trabalhou com ervilha por razões práticas que valem ser conhecidas, porque explicam a qualidade dos resultados:

  • a planta se autofecunda naturalmente, o que permite obter linhagens puras;
  • é possível fazer polinização cruzada controlada, removendo as anteras;
  • o ciclo de vida é curto e a descendência é numerosa, o que dá base estatística;
  • as características escolhidas, como cor e textura da semente, apresentam apenas duas formas bem distinguíveis, sem gradação.

Ele acompanhou sete características e analisou milhares de plantas ao longo de cerca de oito anos. O trabalho foi publicado em 1866 e permaneceu praticamente ignorado até ser redescoberto em 1900.

Primeira lei: segregação dos fatores

Enunciado: cada característica é determinada por um par de fatores que se separa durante a formação dos gametas, de modo que cada gameta recebe apenas um fator do par.

O experimento típico:

  1. Cruzam-se duas linhagens puras que diferem em uma característica, por exemplo semente amarela, VV, com semente verde, vv. Essa é a geração parental.
  2. Toda a geração F1 apresenta semente amarela, com genótipo Vv. A característica verde desapareceu.
  3. Autofecundando a F1, a geração F2 apresenta amarelas e verdes na proporção aproximada de três para um. A característica verde reapareceu.

A conclusão de Mendel foi que o fator verde não havia desaparecido em F1: estava presente, apenas encoberto. Isso derrubou a ideia então dominante de herança por mistura, segundo a qual as características dos pais se diluiriam nos filhos como tintas misturadas.

O quadro de Punnett

Cruzando Vv com Vv, cada progenitor produz gametas V e v em igual proporção:

V v
V VV Vv
v Vv vv
  • Fenótipo: 3 amarelas para 1 verde;
  • Genótipo: 1 VV para 2 Vv para 1 vv.

Repare que três genótipos diferentes produzem apenas dois fenótipos. É essa assimetria que exige o cruzamento teste.

O cruzamento teste

Uma planta de semente amarela pode ser VV ou Vv, e o fenótipo não distingue as duas. Para descobrir, cruza-se com um homozigoto recessivo, vv.

  • Se a planta for VV, toda a descendência será Vv, ou seja, 100% amarela.
  • Se a planta for Vv, a descendência será metade Vv e metade vv, ou seja, aproximadamente metade amarela e metade verde.

O aparecimento de um único descendente verde já basta para provar que a planta era heterozigota.

Segunda lei: segregação independente

Enunciado: os pares de fatores referentes a características diferentes separam-se de forma independente uns dos outros na formação dos gametas.

Mendel cruzou linhagens puras que diferiam em duas características ao mesmo tempo, por exemplo semente amarela e lisa, VVRR, com semente verde e rugosa, vvrr. A F1 foi toda amarela e lisa, VvRr. Autofecundando a F1, a F2 apresentou quatro fenótipos na proporção aproximada de:

  • 9 amarelas e lisas;
  • 3 amarelas e rugosas;
  • 3 verdes e lisas;
  • 1 verde e rugosa.

Um indivíduo VvRr produz quatro tipos de gameta em igual proporção: VR, Vr, vR e vr. O cruzamento de quatro tipos de gameta por quatro tipos gera dezesseis combinações, das quais resultam as proporções acima.

O ponto conceitual é que o alelo de cor que vai para um gameta não influencia qual alelo de textura vai junto. Isso corresponde, no nível celular, à orientação independente de cada par de cromossomos homólogos na metáfase I da meiose.

O limite da segunda lei

Mendel teve sorte: as sete características que estudou se comportavam de forma independente. Hoje se sabe que a segunda lei só vale quando os genes estão em cromossomos diferentes, ou tão distantes no mesmo cromossomo que a permutação os separe com frequência.

Genes próximos no mesmo cromossomo tendem a migrar juntos para o mesmo gameta. Esse fenômeno, chamado de ligação gênica, produz proporções que fogem de 9:3:3:1 e exige outro tipo de análise. A frequência de recombinação entre dois genes ligados é, inclusive, usada para estimar a distância entre eles no cromossomo.

Sobre a natureza estatística das proporções

As razões 3:1 e 9:3:3:1 são probabilidades, não garantias. Cada fecundação é um evento independente, como jogar uma moeda.

Em uma amostra pequena, o desvio pode ser grande: quatro filhotes de um cruzamento Aa por Aa podem sair todos com o fenótipo dominante sem que isso contrarie a lei. Foi justamente por trabalhar com milhares de plantas que Mendel conseguiu enxergar as razões com nitidez, numa época em que ninguém aplicava estatística a problemas de hereditariedade.

O que costuma cair

  1. O enunciado das duas leis e a diferença entre segregação dos fatores e segregação independente.
  2. O uso do quadro de Punnett para chegar às proporções 3:1 no fenótipo e 1:2:1 no genótipo.
  3. A distinção entre genótipo e fenótipo, e entre homozigoto e heterozigoto.
  4. O cruzamento teste, usado para descobrir se um indivíduo de fenótipo dominante é homozigoto ou heterozigoto.
  5. O limite da segunda lei: genes ligados no mesmo cromossomo não se separam de forma independente.

Onde quase todo mundo erra

Alelo dominante é o mais comum na população

Dominância descreve apenas a relação entre dois alelos dentro de um indivíduo heterozigoto: qual deles se manifesta no fenótipo. Nada diz sobre frequência populacional nem sobre vantagem. Existem características recessivas muito comuns e características dominantes raríssimas.

Aplicar a segunda lei a qualquer par de características

A segregação independente vale quando os genes estão em cromossomos diferentes, ou muito distantes no mesmo cromossomo. Genes próximos no mesmo cromossomo tendem a ser herdados juntos, fenômeno chamado de ligação gênica, e produzem proporções diferentes de 9:3:3:1.

Confundir a proporção do genótipo com a do fenótipo

No cruzamento Aa por Aa, a proporção fenotípica é de três dominantes para um recessivo, mas a genotípica é de um AA para dois Aa para um aa. Duas combinações genotípicas diferentes produzem o mesmo fenótipo, e a questão costuma pedir exatamente essa distinção.

Em quatro descendentes, um sempre terá o fenótipo recessivo

As proporções mendelianas são estatísticas e se aproximam do esperado à medida que o número de descendentes cresce. Em um cruzamento com quatro filhotes, é perfeitamente possível que nenhum apresente o fenótipo recessivo. Mendel precisou de milhares de plantas para observar as razões com clareza.

Cards de revisão

6 perguntas

O que diz a primeira lei de Mendel?
Cada característica é determinada por um par de fatores que se separa na formação dos gametas, de modo que cada gameta recebe apenas um deles.
Qual proporção fenotípica resulta do cruzamento Aa por Aa?
Três indivíduos com fenótipo dominante para um com fenótipo recessivo.
Qual proporção genotípica resulta do cruzamento Aa por Aa?
Um AA para dois Aa para um aa.
O que diz a segunda lei de Mendel?
Que pares de fatores de características diferentes se separam de forma independente uns dos outros durante a formação dos gametas.
Para que serve o cruzamento teste?
Para descobrir se um indivíduo de fenótipo dominante é homozigoto ou heterozigoto, cruzando-o com um homozigoto recessivo.
Quando a segunda lei de Mendel não se aplica?
Quando os genes estão próximos no mesmo cromossomo, situação chamada de ligação gênica, em que eles tendem a ser herdados juntos.

Nara Siqueira

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