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Resumo De

Resumo de O Cortiço

Por Beatriz Amaral 9 min de leitura

Em 30 segundos

João Romão é um português avarento que enriquece explorando quem mora ao seu redor. Com o dinheiro roubado de Bertoleza, mulher escravizada que vive com ele acreditando estar livre, constrói um cortiço que cresce sem parar. Em volta dele giram Jerônimo, trabalhador disciplinado que se desfaz ao se envolver com a mulata Rita Baiana, e a família do sobrado vizinho, que despreza o cortiço e ao mesmo tempo depende dele. O protagonista real do livro não é nenhuma dessas pessoas: é o cortiço, tratado como um organismo vivo que come, cresce e transforma quem entra.

Corte do cortiço mostrando a vendinha de João Romão, as casinhas e o sobrado dos Miranda, com o dinheiro subindo de um lado ao outro
Ilustração: resumode.com.br

O enredo, em ordem

João Romão chega ao Rio de Janeiro como empregado de uma venda e, aos poucos, toma o lugar do patrão. Vive com Bertoleza, mulher escravizada que trabalha de sol a sol na venda acreditando que ele comprou sua alforria. Ele guarda o dinheiro dela, não compra coisa alguma e usa o que economiza para adquirir terreno, material e pedra.

Com esse capital, levanta a primeira fileira de casinhas. O cortiço dá lucro imediato e não para mais de crescer. Ao lado, no sobrado, mora o português Miranda, comerciante que subiu casando com Estela e que odeia o vizinho por motivos que misturam concorrência e vergonha social.

No cortiço vivem, entre muitos outros, a lavadeira Leandra, a portuguesa Piedade, o casal de trabalhadores Jerônimo e Piedade, a mulata Rita Baiana, o capoeira Firmo, a menina Pombinha e sua mãe Dona Isabel.

O núcleo dramático mais forte é o de Jerônimo. Português metódico, poupador, que come pouco e trabalha muito, ele se encanta por Rita Baiana. Muda de comida, de bebida, de ritmo e de língua. Abandona a família, mata Firmo, vai preso e sai destruído. Piedade, abandonada, afunda no alcoolismo.

Em paralelo, Pombinha, a menina culta do cortiço, é a única que consegue sair dali, mas o caminho que a leva para fora é a prostituição em outro ambiente social.

O desfecho pertence a João Romão. Rico, disputando espaço com o vizinho, ele planeja casar com Zulmira, filha de Miranda, e precisa se livrar de Bertoleza. Denuncia-a como escrava fugida. Quando os homens vêm buscá-la, ela se mata com uma faca de cozinha. No mesmo dia, ele recebe a comenda que consagra sua respeitabilidade.

Como o Naturalismo funciona aqui

O Naturalismo parte de uma aposta: se o comportamento humano obedece a leis, então o romance pode funcionar como laboratório. O escritor cria um ambiente, coloca dentro dele pessoas com determinada origem e temperamento, e observa o que acontece.

É isso que o livro faz com Jerônimo. Ele entra no cortiço com um conjunto de hábitos, e o ambiente atua sobre ele como um reagente: o calor, a comida, a música, o corpo de Rita. Ao final do experimento, o homem é outro. A conclusão implícita é a tese naturalista: não foi ele quem escolheu, foi o meio que o refez.

Três elementos aparecem em todas as questões sobre o tema:

  • meio: o lugar onde a pessoa vive determina o que ela se torna;
  • raça, no sentido que o século XIX dava à palavra, hoje cientificamente descartado;
  • momento: as circunstâncias históricas em que ela está inserida.

Vale ler o determinismo racial do romance como documento de época, não como explicação. A prova costuma pedir o reconhecimento da teoria, não a adesão a ela.

O cortiço como corpo

As páginas mais citadas do livro são as que descrevem o cortiço acordando. Não há protagonista nelas. Há um movimento coletivo: portas que se abrem em série, água correndo, roupa batendo na pedra, vozes que se cruzam, vapor subindo. O narrador trata esse conjunto como um único ser que espreguiça e começa o dia.

Quando o cortiço cresce, o verbo usado é o de crescimento orgânico. Quando pega fogo e é reconstruído maior e mais caro, a reconstrução é narrada como cicatrização. No fim, transformado em Avenida São Romão, ele é outro organismo, mais limpo e mais caro, que expulsou seus antigos moradores.

Essa escolha de foco é a razão pela qual se diz que o espaço é o protagonista. As pessoas passam; o cortiço fica e se multiplica.

Dois modelos de ascensão social

O romance coloca lado a lado duas formas de subir na vida no Brasil do fim do Império:

João Romão Miranda
Origem do capital acumulação, furto e exploração do aluguel dote da esposa
Relação com o trabalho trabalha como um animal e não gasta nada vive de comércio já estabelecido
Preço pago o crime contra Bertoleza o casamento humilhante que precisa manter
Símbolo final a comenda o título de barão

O paralelo é intencional: nenhum dos dois construiu sua posição por mérito, e ambos precisam de uma ficção de respeitabilidade para sustentá-la.

Bertoleza e o incômodo do final

O último capítulo costuma provocar reações fortes, e com razão. Bertoleza é quem financia tudo, e é a única que não recebe nada. Ela trabalha, economiza, entrega o dinheiro e, no momento em que se torna um obstáculo social, é devolvida à escravidão por quem prometeu libertá-la.

O livro é de 1890, dois anos depois da abolição. Colocar essa cena como desfecho é dizer que a fortuna recém-construída da elite urbana tinha nome, rosto e origem. O romance não faz discurso sobre isso. Apenas mostra a comenda chegando enquanto o corpo ainda está no chão.

O que costuma cair

  1. O cortiço como personagem coletivo e a descrição do lugar como corpo que acorda, respira, sua e se multiplica.
  2. O determinismo naturalista: meio, raça e momento explicam o comportamento das personagens, que agem por instinto mais do que por escolha.
  3. A trajetória de Jerônimo como demonstração da tese: o português ordeiro é dissolvido pelo ambiente tropical e pelo desejo.
  4. A ascensão de João Romão pela acumulação, pelo roubo e pela exploração, e o contraste com o sobrado dos Miranda.
  5. O destino de Bertoleza e a denúncia, ao mesmo tempo brutal e incômoda, da escravidão às vésperas e depois da abolição.

Onde quase todo mundo erra

Chamar O Cortiço de romance realista

Realismo e Naturalismo compartilham a recusa da idealização romântica, mas não são a mesma coisa. O Naturalismo acrescenta a pretensão científica: o comportamento humano é explicado por leis de hereditariedade e de meio, e o romance funciona como experimento. Machado analisa consciências; Aluísio Azevedo descreve organismos.

Ler as caracterizações raciais do livro como verdades do autor aceitas hoje

O romance aplica teorias raciais do século XIX que a ciência abandonou. A leitura correta identifica esse determinismo como marca de época e objeto de análise, em vez de repeti-lo como explicação válida. A prova costuma pedir justamente que o candidato reconheça a teoria por trás da descrição.

João Romão é um exemplo de quem venceu pelo próprio esforço

A ascensão dele depende de furto de material, de usurpação de terreno alheio, de exploração de aluguel e do roubo direto das economias de Bertoleza, a quem ele entrega de volta ao cativeiro para limpar o caminho até um casamento vantajoso. O livro constrói a riqueza dele como crime continuado.

Achar que o cortiço é apenas o cenário onde a história se passa

As descrições coletivas ocupam capítulos inteiros sem foco em nenhum indivíduo, e o crescimento do cortiço é narrado como crescimento de um ser vivo. Reconhecer o espaço como protagonista é o ponto de virada entre uma leitura de enredo e uma leitura de obra.

Cards de revisão

6 perguntas

Quem é João Romão e como ele enriquece?
Um vendeiro português que enriquece por acumulação, furto de material, exploração de aluguel e roubo das economias de Bertoleza.
Qual é a função de Jerônimo no romance?
Demonstrar a tese determinista: um trabalhador disciplinado que se desorganiza sob a influência do meio e do desejo por Rita Baiana.
Por que se diz que o cortiço é o protagonista?
Porque ele é descrito como organismo que nasce, cresce, se alimenta e transforma seus moradores, com capítulos dedicados ao coletivo e não a indivíduos.
O que diferencia Naturalismo de Realismo?
O Naturalismo acrescenta a explicação científica do comportamento por meio, raça e momento, e trata o romance como experimento. O Realismo se concentra na análise psicológica e social.
Qual é o destino de Bertoleza?
Depois de financiar a ascensão de João Romão, ela é denunciada por ele como escrava fugida e tira a própria vida diante dos que vêm buscá-la.
O que o sobrado dos Miranda representa?
A burguesia que despreza o cortiço mas convive com ele, e cuja respeitabilidade também foi comprada, no caso com o dote da esposa.

Beatriz Amaral

Coordenação editorial e resumos de literatura e língua portuguesa

Coordena a linha editorial do site e escreve os resumos de obras literárias. Lê a obra inteira antes de escrever, monta o esqueleto da narrativa em um diagrama e só depois redige. Se o diagrama não fecha, o resumo ainda não está pronto.

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