Resumo de Memórias Póstumas de Brás Cubas
Por Beatriz Amaral 9 min de leitura
Em 30 segundos
Brás Cubas escreve as próprias memórias depois de morto. Essa condição libera o narrador de qualquer compromisso com a boa imagem: ele conta, sem filtro e com ironia, uma vida inteira de privilégio, oportunidades desperdiçadas e vaidade. Nasce rico, é mimado, inventa um remédio que não funciona, tem um caso longo com Virgília, mulher casada, flerta com a política, com a filosofia e com a caridade, e não termina nada. No último capítulo, faz o balanço: o único saldo positivo da sua existência foi não ter tido filhos, e portanto não ter passado adiante a herança da nossa miséria.
A inversão que abre o livro
O romance começa pelo fim. Nos primeiros capítulos, Brás Cubas narra o próprio velório, com onze amigos presentes, e explica a escolha: se tivesse escrito em vida, teria precisado poupar gente. Morto, não precisa mais.
Essa inversão não é um truque decorativo. Ela resolve, de uma vez, o maior problema de qualquer memória escrita por alguém interessado na própria imagem. Um autobiógrafo vivo está sempre se defendendo. Um narrador que já morreu não tem reputação a preservar, herança a garantir nem inimigo a poupar. Daí o tom do livro inteiro: solto, irônico, capaz de rir da própria falência.
O livro se dedica “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”. A dedicatória avisa, antes do primeiro capítulo, que ali não haverá reverência a nada.
O que acontece na vida narrada
Brás Cubas nasce em 1805, em família rica do Rio de Janeiro. É filho único, criado com mimo e sem limite, e o livro registra com precisão as consequências: uma criança que aprende cedo que pode tudo, e um adulto que nunca precisou concluir nada.
Os episódios principais:
- Marcela, a cortesã que o consome financeiramente na juventude e que, na formulação do próprio narrador, o amou durante certo tempo e certa quantia de dinheiro;
- Coimbra, onde se forma em direito sem esforço, sustentado pela família;
- Virgília, o grande caso da vida adulta. Eles se aproximam, ela é encaminhada a um casamento mais vantajoso com Lobo Neves, e o romance continua clandestino por anos, com a cumplicidade involuntária de Dona Plácida, empregada pobre que serve de cobertura;
- a política, em que Brás consegue uma cadeira de deputado e faz um discurso memorável sobre o tamanho da barretina da Guarda Nacional;
- o emplasto, um remédio que ele pretende inventar para curar a melancolia humana e, de quebra, tornar seu nome imortal. Morre sem terminá-lo, de uma pneumonia contraída justamente enquanto pensava nele.
Nenhum desses fios se resolve. Todos servem para mostrar a mesma coisa por ângulos diferentes.
A forma: por que os capítulos são assim
São mais de 160 capítulos em um livro curto. Alguns têm meia página. Um deles, “Do velho diálogo de Adão e Eva”, é feito quase só de pontuação. Outro se chama “O capítulo dos chapéus”. Vários interrompem a história para discutir se a história deve ser interrompida.
Essa forma cumpre três funções:
- imita a memória real, que salta, esquece e volta, em vez de correr em linha reta;
- impede a identificação sentimental, porque o leitor nunca é deixado mergulhar na cena antes de o narrador aparecer e comentar;
- espelha a vida narrada, feita de começos sem fim.
Machado também usa o recurso de conversar com o leitor, ora acusando-o de pressa, ora agradecendo sua paciência. Esse leitor interpelado não é decoração: ele é chamado para julgar, e às vezes para se reconhecer.
Quincas Borba e o Humanitismo
Quincas Borba é um antigo colega de escola que Brás reencontra na miséria e depois rico. Ele apresenta uma filosofia própria, o Humanitismo, segundo a qual existe um princípio único que anima tudo, e os indivíduos são apenas manifestações passageiras desse princípio.
A consequência prática da doutrina aparece no exemplo mais conhecido: duas tribos famintas, uma batata que só alimenta uma delas, uma guerra. Para o Humanitismo, a guerra não é uma tragédia, é o meio pelo qual o princípio maior seleciona quem sobrevive. Ao vencedor, as batatas.
É uma paródia. No século XIX circulavam com prestígio o positivismo, o evolucionismo aplicado à sociedade e várias doutrinas que explicavam a desigualdade como lei natural. O Humanitismo leva esse raciocínio ao limite para mostrar o que ele autoriza: qualquer crueldade, desde que praticada pelo lado que ganhou.
O que o livro diz sobre o Brasil da época
Sem nunca fazer denúncia direta, o romance registra:
- uma elite que vive de renda, herança e favor, sem produzir nada;
- casamentos decididos por cálculo de posição social;
- a presença de pessoas escravizadas tratada como paisagem natural, inclusive no episódio em que Brás recorda ter usado um menino escravizado como cavalo na infância e o reencontra adulto, agora batendo em outro;
- a caridade como instrumento de vaidade, não de compaixão.
Brás não denuncia nada disso, porque faz parte. É o leitor que vê.
A negativa final
No último capítulo, Brás faz as contas. Não alcançou a celebridade do emplasto, não foi ministro, não foi califa, não conheceu o casamento. Restou-lhe, diz, um pequeno saldo: não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
É a frase mais seca do livro e a mais coerente com ele. Depois de duzentas páginas de ironia, a conclusão não é um arrependimento nem uma redenção. É a constatação de que a única coisa boa de uma vida inútil foi não tê-la multiplicado.
O que costuma cair
- O narrador defunto autor, a inversão que dá ao livro liberdade de tom e o distingue de qualquer autobiografia convencional.
- A abertura do Realismo brasileiro em 1881 e a ruptura com a idealização romântica de amor, família e caráter.
- A estrutura em capítulos curtos, as digressões, os títulos irônicos e a interpelação direta do leitor.
- O Humanitismo de Quincas Borba como paródia das filosofias deterministas que circulavam no século XIX.
- O capítulo final e a chamada negativa: a conclusão de que não deixar descendentes foi o pequeno saldo de uma vida inútil.
Onde quase todo mundo erra
Dizer que o livro é narrado por um fantasma
Machado é preciso na distinção: não é um autor defunto, é um defunto autor. Brás não volta como assombração para contar a história; ele escreve a partir da morte, o que é uma convenção literária deliberada. A diferença importa porque ela é a piada de abertura e a chave do tom.
Ler as opiniões de Brás Cubas como opiniões de Machado de Assis
Brás é um narrador vaidoso, preconceituoso e autoindulgente, e o livro existe para expor isso. Quando ele trata escravizados, mulheres ou pobres com desdém, o texto está mostrando a mentalidade da elite carioca, não subscrevendo a mentalidade dela.
O Humanitismo é a filosofia que o livro defende
O Humanitismo de Quincas Borba é uma sátira. Ao concluir que ao vencedor cabem as batatas e que a dor alheia é apenas parte de um plano superior, a doutrina serve para ridicularizar o darwinismo social e o cientificismo consolador da época.
Procurar um enredo linear com começo, meio e fim
O livro é feito de fragmentos, saltos e interrupções, incluindo um capítulo só de reticências. A desorganização é proposital: ela imita uma vida sem projeto e sem realização, e responde à pergunta sobre a forma tanto quanto o conteúdo responde sobre o tema.
Cards de revisão
6 perguntas
- O que significa a expressão defunto autor?
- Que Brás Cubas escreve depois de morto, e não que um autor vivo narre a morte. A ordem das palavras é a piada e a chave do livro.
- Por que o romance abre o Realismo no Brasil?
- Porque em 1881 rompe com a idealização romântica e traz ironia, análise psicológica e crítica social sem consolo.
- Quem é Virgília e qual o papel dela no enredo?
- A mulher com quem Brás mantém um longo caso. Ela se casa com Lobo Neves por conveniência e revela o cálculo social que move a elite.
- O que é o Humanitismo?
- A filosofia inventada por Quincas Borba, que justifica a desgraça alheia como parte de um princípio maior. Funciona como paródia do cientificismo do século XIX.
- Qual é a conclusão do capítulo final?
- Que o saldo da vida de Brás foi negativo, com um único ganho: não ter tido filhos e não ter transmitido a ninguém a herança da miséria humana.
- Por que o emplasto Brás Cubas é significativo?
- Porque resume o personagem: uma invenção movida por vaidade e desejo de fama, nunca concluída, que só traz sofrimento ao inventor.
Beatriz Amaral
Coordenação editorial e resumos de literatura e língua portuguesa
Coordena a linha editorial do site e escreve os resumos de obras literárias. Lê a obra inteira antes de escrever, monta o esqueleto da narrativa em um diagrama e só depois redige. Se o diagrama não fecha, o resumo ainda não está pronto.