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Resumo De

Resumo de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

Por Beatriz Amaral 10 min de leitura

Em 30 segundos

A Hora da Estrela conta duas histórias ao mesmo tempo. Uma é a de Macabéa, alagoana de dezenove anos que vive no Rio de Janeiro, datilógrafa que mal sabe escrever, órfã criada por uma tia severa, pobre de dinheiro, de palavras e de consciência da própria infelicidade. Ela namora Olímpico, metalúrgico ambicioso que a despreza e a troca pela colega Glória. Por sugestão de Glória, vai a uma cartomante, que lhe promete um futuro com um estrangeiro rico. Ao sair, é atropelada por um carro de luxo e morre na rua. A outra história é a de Rodrigo S.M., o escritor que narra, hesita, se culpa e discute a própria dificuldade de dar voz a uma pessoa tão distante dele. O romance é tanto sobre Macabéa quanto sobre o ato de narrá-la.

As duas linhas do romance em paralelo, a vida de Macabéa do trabalho ao namoro, à cartomante e ao atropelamento, e acima a voz do narrador Rodrigo S.M. comentando e hesitando ao longo de toda a história
Ilustração: resumode.com.br

Um livro que começa por quem escreve

A Hora da Estrela abre de um jeito que desorienta quem espera uma história direta. Antes de Macabéa aparecer, fala por muitas páginas o narrador, Rodrigo S.M., um escritor que explica por que vai contar essa história, admite que não sabe bem como fazê-lo e confessa que precisa se sentir mais pobre para escrever sobre ela.

Há ainda uma dedicatória do autor, e logo abaixo, entre parênteses, a indicação de que se trata, na verdade, de Clarice Lispector. E há uma lista de títulos possíveis para o livro, entre os quais está o que ficou.

Tudo isso anuncia a forma do romance: são duas histórias correndo juntas. A de uma moça que quase não tem voz e a de um homem que tenta dar voz a ela e não sabe se tem direito.

Macabéa

Macabéa tem dezenove anos, é alagoana e vive no Rio de Janeiro. Ficou órfã cedo e foi criada por uma tia beata, que a castigava com cascudos na cabeça. Mudou-se para o Rio, onde divide um quarto com outras moças, todas chamadas Maria, que trabalham numa loja.

Ela é datilógrafa, e mal sabe escrever: comete erros, suja o papel. O chefe pensa em demiti-la e, quando ela pede desculpas com humildade, desiste.

A vida dela é feita de muito pouco. Come cachorro-quente, gosta de coca-cola e ouve a Rádio Relógio, que dá a hora certa e pequenas informações soltas. Dessas informações ela tira perguntas sobre palavras e fatos que não entende. O narrador repete que ela não sabia que era infeliz: não tinha com o que comparar.

A pobreza de Macabéa não é só de dinheiro. É também de linguagem. Ela não tem palavras para o que vive, e por isso não consegue reclamar, pedir ou mesmo perceber o que lhe falta.

Olímpico

Um dia, Macabéa conhece Olímpico de Jesus, paraibano, operário metalúrgico. O namoro é quase todo feito de passeios sem gasto, em que ela faz perguntas vindas do rádio e ele responde com impaciência e desprezo.

Olímpico é o oposto dela em ambição. Quer subir, sonha em ser deputado, gosta de se imaginar importante. O narrador conta que ele carregava do sertão um passado violento.

Ele acaba trocando Macabéa por Glória, colega de trabalho dela, carioca, filha de açougueiro, que lhe parece mais promissora. Macabéa reage quase sem reagir.

Glória e a cartomante

Glória sente algum remorso e, tentando compensar, empresta dinheiro a Macabéa e recomenda que ela vá a uma cartomante, Madama Carlota.

Madama Carlota recebe Macabéa com uma simpatia exagerada, fala da própria vida passada e lê as cartas. Primeiro diz que a vida da moça foi horrível. Depois anuncia uma virada: tudo vai mudar, e ela vai conhecer um estrangeiro loiro e rico, com quem vai se casar.

Pela primeira vez, Macabéa tem um futuro. Sai da casa da cartomante diferente, grávida de futuro, nas palavras do narrador.

A hora da estrela

Ao atravessar a rua, Macabéa é atropelada por uma Mercedes amarela. O carro vai embora. Ela fica caída na calçada, e algumas pessoas se juntam em volta sem ajudar.

O narrador prolonga essa cena, e é aqui que o título se explica. Macabéa, que nunca foi olhada por ninguém, é finalmente o centro das atenções. A morte é a hora da estrela, o único momento de destaque de uma vida inteira sem nenhum.

O narrador também reage. Diz que Macabéa o matou, e que ele precisa ir para casa e se lembrar de que é tempo de morangos. A morte da personagem e o fim da escrita acontecem juntos.

O narrador e a culpa

Rodrigo S.M. é tão importante quanto Macabéa. Ele interrompe a história para dizer que escreve porque não tem mais nada a fazer, que precisa escrever sobre ela, que não gosta dela e gosta, que não sabe se deve continuar.

Essa presença constante cria um incômodo produtivo. O leitor vê não só Macabéa, mas o olhar de quem a descreve, um homem de classe média, culto, que ao mesmo tempo se compadece e a trata de cima. O livro pergunta, sem responder, se é possível narrar a pobreza sem transformá-la em espetáculo.

É por isso que a metalinguagem, a escrita que fala de si mesma, não é enfeite. Ela é o conteúdo.

O lugar do livro na literatura brasileira

A Hora da Estrela é muitas vezes comparado aos romances do Nordeste da década de 1930, e a comparação ajuda a ver a diferença.

Regionalismo de 1930 A Hora da Estrela
Cenário sertão, engenho, cidade do interior a grande cidade, para onde a personagem migrou
Foco o meio e as relações sociais a consciência de quem narra e a opacidade da personagem
Narrador em geral, narrador que observa de fora narrador que se expõe e se questiona
Linguagem econômica e documental fragmentária, reflexiva, cheia de digressões

Clarice Lispector é conhecida pela prosa introspectiva, voltada para a experiência interior e para momentos de revelação. Neste último livro, essa marca encontra uma questão social de frente, e o resultado é um romance curto, estranho e muito cobrado em vestibulares.

Sobre a autora

Clarice Lispector nasceu em 1920, na Ucrânia, e chegou ainda bebê ao Brasil com a família. Cresceu no Nordeste, primeiro em Maceió e depois no Recife, antes de se mudar para o Rio de Janeiro.

Estreou com Perto do Coração Selvagem, em 1943. A Hora da Estrela saiu em 1977, pouco antes de sua morte. A infância nordestina ajuda a entender por que a última personagem dela vem de Alagoas.

Uma moça que ninguém vê

A Hora da Estrela é um livro sobre uma moça que ninguém vê e sobre a dificuldade de vê-la direito. A história de Macabéa é simples e triste. O que a torna inesquecível é o narrador que não consegue contá-la sem se perguntar o que está fazendo, e que obriga o leitor a se fazer a mesma pergunta.

O que costuma cair

  1. O narrador Rodrigo S.M., figura criada pela autora, e o peso da metalinguagem no livro.
  2. Macabéa como personagem da migração nordestina e da exclusão na grande cidade.
  3. A relação entre a pobreza material e a pobreza de linguagem da protagonista.
  4. O papel de Olímpico, Glória e Madama Carlota no destino de Macabéa.
  5. O desfecho e o sentido do título, com a morte como único momento de destaque.
  6. A diferença entre este romance e o regionalismo de 1930, apesar do tema social.

Onde quase todo mundo erra

Quem narra o livro é Clarice Lispector

O narrador é Rodrigo S.M., um escritor inventado, que fala em primeira pessoa, comenta a própria escrita e se inclui na história. Clarice aparece apenas numa dedicatória assinada, em que se apresenta, entre parênteses, como autora de fato. Separar autora e narrador é decisivo, porque grande parte do sentido do livro está no desconforto de um homem culto tentando narrar uma moça pobre.

É um romance regionalista, parecido com Vidas Secas

O tema toca a migração nordestina e a pobreza, e o tratamento é outro. A ação é urbana, e o centro do livro não é o meio que determina a personagem, e sim a crise de quem narra: como escrever sobre alguém sem se apropriar dela, e se a literatura serve para alguma coisa diante disso. É um romance que discute a si mesmo enquanto conta a história.

Macabéa sofre porque é ignorante

O livro mostra uma moça privada de quase tudo, inclusive de palavras para entender o que vive, e insiste que ela não sabia que era infeliz. Ela tem momentos de prazer próprio, como ouvir o rádio e olhar o mundo. O incômodo que o livro provoca vem de ver como os outros a tratam, e de o narrador, e o leitor, também a olharem de cima.

No fim, a previsão da cartomante se cumpre

A cartomante promete a Macabéa um noivo estrangeiro, rico e loiro. Logo depois de sair, feliz pela primeira vez com o futuro, ela é atropelada por uma Mercedes amarela e morre na calçada. Muitos leitores veem no carro de luxo uma resposta cruel à profecia: o mundo rico e distante chega até ela, e chega para matá-la.

É o primeiro romance de Clarice Lispector

O primeiro foi Perto do Coração Selvagem, de 1943. A Hora da Estrela é o último livro que ela publicou em vida, em 1977, pouco antes de morrer. Essa posição ajuda a entender por que o romance é lido como reflexão final sobre escrever.

Cards de revisão

7 perguntas

Quem é Macabéa?
Alagoana de dezenove anos, órfã, datilógrafa no Rio de Janeiro, pobre e quase sem consciência da própria situação.
Quem é Rodrigo S.M.?
O escritor que narra a história, inventado pela autora, que comenta o tempo todo a própria dificuldade de escrever.
Quem é Olímpico de Jesus?
Namorado de Macabéa, paraibano, metalúrgico, ambicioso e desdenhoso, que sonha ser deputado.
Com quem Olímpico troca Macabéa?
Com Glória, colega de trabalho dela, carioca e filha de açougueiro, que lhe parece um partido melhor.
O que Macabéa ouve no rádio?
A Rádio Relógio, que dá a hora certa e fragmentos de informação, dos quais ela tira perguntas que ninguém responde.
O que a cartomante promete?
Que a vida dela vai mudar e que ela vai se casar com um estrangeiro loiro e rico.
Como Macabéa morre?
Atropelada por uma Mercedes amarela logo depois de sair da casa da cartomante.

Beatriz Amaral

Coordenação editorial e resumos de literatura e língua portuguesa

Coordena a linha editorial do site e escreve os resumos de obras literárias. Lê a obra inteira antes de escrever, monta o esqueleto da narrativa em um diagrama e só depois redige. Se o diagrama não fecha, o resumo ainda não está pronto.

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