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Resumo da mitologia romana

Por Rui Nakamura 10 min de leitura

Em 30 segundos

A mitologia romana não é a grega com outros nomes, embora tenha absorvido muito dela. A religião de Roma nasceu prática e ligada à cidade e à casa: deuses de funções específicas, como Jano, das passagens e começos, Vesta, do fogo sagrado, e os Lares e Penates, protetores do lar e da despensa. Com o contato com os gregos, os romanos passaram a identificar seus deuses com os olímpicos, e Júpiter ganhou as histórias de Zeus, Vênus as de Afrodite. O que é mais propriamente romano são os mitos de origem da cidade: Enéias, que chega de Troia ao Lácio, e seus descendentes Rômulo e Remo, filhos de Marte, amamentados por uma loba e fundadores de Roma, com Rômulo matando o irmão na disputa pela cidade.

Duas camadas da mitologia romana: os deuses de função próprios de Roma e a correspondência com os olímpicos gregos, ao lado da linhagem que vai de Enéias a Rômulo e Remo
Ilustração: resumode.com.br

Quem é quem

Júpiter
Rei dos deuses, senhor do céu e protetor principal de Roma.
Juno
Esposa de Júpiter, protetora das mulheres e do casamento.
Minerva
Deusa da sabedoria e dos ofícios, terceira da tríade do Capitólio.
Marte
Deus da guerra, pai de Rômulo e Remo e ancestral dos romanos.
Vênus
Deusa do amor, mãe de Enéias e ancestral da família de Júlio César.
Jano
Deus de duas faces, das portas e dos começos, sem par grego.
Vesta
Deusa do fogo do lar e do fogo sagrado da cidade.
Enéias
Troiano que chega ao Lácio e dá início à linhagem que levará a Rômulo.
Reia Sílvia
Vestal, filha do rei deposto Numitor, mãe dos gêmeos com Marte.
Rômulo
Fundador e primeiro rei de Roma, depois identificado com o deus Quirino.
Remo
Irmão gêmeo de Rômulo, morto na disputa pela fundação.
Fáustulo
Pastor que encontra os gêmeos e os cria com a esposa.

Duas camadas

Quem estuda mitologia romana encontra duas coisas misturadas, e o primeiro trabalho é separá-las.

A primeira camada é a religião romana antiga. Ela era prática, feita de ritos, festas e obrigações, e muito ligada à família e à cidade. Seus deuses eram numerosos, alguns tão específicos que protegiam uma única etapa da vida ou do trabalho no campo. Muitos quase não tinham histórias: tinham funções.

A segunda camada é a mitologia narrativa, que chegou com o contato com os gregos, primeiro pelas colônias gregas no sul da Itália e depois, de forma intensa, quando Roma passou a dominar o mundo grego. Os romanos identificaram seus deuses com os olímpicos e adotaram as histórias deles.

A mitologia romana que se aprende na escola é o resultado dessa sobreposição.

Os deuses próprios de Roma

Alguns deuses romanos não têm correspondente grego, e são os que melhor mostram o jeito romano de pensar o sagrado.

Jano é o deus das portas, das passagens e dos começos. É representado com duas faces, uma olhando para trás e outra para a frente. Dá nome a janeiro. As portas do seu templo em Roma ficavam abertas em tempo de guerra e fechadas na paz, o que raramente acontecia.

Vesta é a deusa do fogo do lar. Tem equivalente grego, Héstia, e em Roma ganhou importância muito maior. No seu templo, as vestais, sacerdotisas obrigadas à castidade, mantinham aceso o fogo sagrado da cidade. Se ele se apagasse, era sinal de desastre.

Os Lares protegiam a casa e a família, e os Penates, a despensa e os bens. Cada casa tinha um pequeno altar para eles, e as refeições podiam incluir oferendas.

Quirino era um antigo deus do povo romano, mais tarde identificado com Rômulo divinizado. Junto com Júpiter e Marte, formava uma tríade arcaica, anterior à tríade que se tornou principal no Capitólio, a de Júpiter, Juno e Minerva.

Havia ainda deuses de limites, como Término, protetor das fronteiras dos campos, e Saturno, antigo deus agrícola, celebrado na Saturnália, festa de dezembro em que as regras sociais se invertiam por alguns dias.

A tabela de equivalências

Com a influência grega, formou-se uma correspondência que vale conhecer:

Romano Grego Domínio
Júpiter Zeus céu, rei dos deuses
Juno Hera casamento, rainha dos deuses
Netuno Poseidon mar
Plutão Hades mundo dos mortos
Minerva Atena sabedoria e ofícios
Marte Ares guerra
Vênus Afrodite amor e beleza
Apolo Apolo artes, profecia, luz
Diana Ártemis caça e lua
Mercúrio Hermes mensageiro, comércio
Vulcano Hefesto fogo e forja
Ceres Deméter agricultura e colheitas
Baco Dioniso vinho
Vesta Héstia fogo do lar

A equivalência é útil e engana se for levada ao pé da letra. Deuses identificados tinham pesos diferentes nas duas culturas. O melhor exemplo é Marte: pouco estimado entre os gregos na figura de Ares, em Roma era o pai do fundador, protetor do povo e ligado também à agricultura. Outro é Vênus, que os romanos honravam como mãe de Enéias e, portanto, ancestral da família de Júlio César.

Apolo manteve o nome grego, sinal de que foi adotado já pronto.

De Troia ao Lácio

Os romanos quiseram ter uma origem à altura do império que construíram, e encontraram-na em Troia.

Enéias, filho de Vênus, escapa da cidade destruída e, depois de longa viagem, chega ao Lácio, na Itália. Casa-se com Lavínia, filha do rei local, e funda Lavínio. Seu filho, Ascânio, funda Alba Longa. É essa a história que Virgílio transforma em poema na Eneida.

A linhagem de reis de Alba Longa segue por muitas gerações até chegar a dois irmãos, Numitor e Amúlio. Amúlio toma o trono do irmão e, para evitar herdeiros, obriga a filha de Numitor, Reia Sílvia, a se tornar vestal.

Rômulo e Remo

Reia Sílvia engravida, e diz que o pai é o deus Marte. Nascem gêmeos, Rômulo e Remo. Amúlio manda jogá-los no rio Tibre. O cesto em que estão fica preso na margem, e uma loba os encontra e os amamenta.

Pouco depois, o pastor Fáustulo encontra os meninos e os cria com sua esposa, Aca Larência. Eles crescem entre pastores. Já adultos, descobrem a própria origem, derrubam Amúlio e devolvem o trono ao avô.

Decidem então fundar uma cidade própria, no lugar onde foram salvos, e discordam sobre o ponto exato e sobre quem teria a primazia. Consultam os presságios observando o voo das aves, e cada um interpreta o resultado a seu favor. Na versão mais conhecida, Rômulo traça o limite da cidade, Remo salta sobre ele em zombaria e Rômulo o mata.

Os romanos calcularam a data dessa fundação em 753 antes de Cristo.

A cidade nova

A lenda continua com episódios que explicam a formação do povo romano. Para povoar a cidade, Rômulo abre um asilo para fugitivos. Faltando mulheres, os romanos promovem uma festa e raptam as filhas dos sabinos, povo vizinho. Segue-se uma guerra, interrompida quando as próprias sabinas, já esposas e mães, se colocam entre os dois exércitos. Os dois povos passam a viver juntos.

No fim da vida, Rômulo desaparece durante uma tempestade, e passa a ser honrado como o deus Quirino.

De onde vêm essas histórias

As principais fontes escritas são romanas e relativamente tardias. Virgílio, na Eneida, conta a chegada de Enéias. Tito Lívio, na sua história de Roma, narra a fundação e os primeiros reis. Ovídio, nas Metamorfoses e nos Fastos, reúne mitos e explica festas do calendário.

Todos escreveram por volta da época de Augusto, quando Roma já era um império e tinha interesse em uma origem grandiosa. Isso não torna as lendas falsas como tradição, e ajuda a entender por que elas enfatizam tanto dever, disciplina e destino.

Um povo em busca da própria origem

A mitologia romana se entende melhor como a história de um povo que queria saber de onde veio. Os deuses gregos deram as narrativas; Roma deu o culto doméstico, os deuses de função e, sobretudo, os mitos de fundação, que ligam a cidade a Troia, a Vênus e a Marte, e que continuam aparecendo em nomes de meses, planetas e símbolos até hoje.

O essencial para não se perder

  1. A diferença entre a religião romana antiga, de cultos e funções, e a mitologia narrativa herdada dos gregos.
  2. A tabela de equivalências entre deuses romanos e gregos, e os deuses que não têm par grego.
  3. O culto doméstico: Lares, Penates, Vesta e o papel das vestais.
  4. A lenda de Rômulo e Remo, da loba à morte de Remo.
  5. A ligação entre Enéias e Rômulo, que une a origem troiana e a fundação da cidade.
  6. O peso maior de Marte em Roma do que o de Ares entre os gregos.

Confusões que se espalharam

Mitologia romana é só a grega com os nomes trocados

A troca de nomes aconteceu, e ela é o fim de uma história, não o começo. Os romanos tinham deuses e cultos próprios, muitos deles sem narrativa, ligados a funções: portas, fronteiras, colheitas, o fogo da casa. Ao entrar em contato com a cultura grega, identificaram esses deuses com os olímpicos e importaram as histórias. Jano, Quirino, os Lares e os Penates continuaram sem equivalente.

Marte é exatamente o mesmo deus que Ares

Os dois são deuses da guerra e foram identificados, e o lugar de cada um nas duas culturas é muito diferente. Entre os gregos, Ares era um deus pouco estimado, associado à violência cega. Em Roma, Marte era pai de Rômulo, portanto ancestral do povo, tinha ligação antiga com a agricultura e dava nome ao mês de março, com o qual o ano romano começava originalmente.

A loba criou Rômulo e Remo até se tornarem adultos

Na lenda, a loba amamenta os gêmeos abandonados à beira do Tibre. Pouco depois, eles são encontrados pelo pastor Fáustulo, que os leva para casa e os cria com a esposa, Aca Larência. Os meninos crescem entre pastores, sem saber da origem, e só adultos descobrem que são netos do rei deposto de Alba Longa.

Plutão é o nome romano original do deus dos mortos

Plutão vem de um nome grego, Plouton, que já era usado como outro modo de chamar Hades. Os romanos tinham suas próprias figuras ligadas ao mundo dos mortos, como Dis Pater e Orco, e adotaram Plutão pela influência grega. É um bom exemplo de como a equivalência foi construída em camadas.

Os deuses romanos eram adorados principalmente por meio de mitos e histórias

O centro da religião romana era o rito, não a narrativa. O que importava era cumprir corretamente sacrifícios, orações e festas, em nome da família e da cidade, para manter a boa relação com os deuses. Muitos deles quase não tinham histórias. As narrativas mais elaboradas chegaram com a literatura inspirada nos gregos.

Teste sua memória

7 perguntas

Qual é o equivalente romano de Zeus, Hera e Atena?
Júpiter, Juno e Minerva, a tríade honrada no templo principal do Capitólio.
Quem é Jano?
Deus de duas faces, das portas, passagens e começos, sem equivalente grego. Dá nome ao mês de janeiro.
O que faziam as vestais?
Sacerdotisas de Vesta, obrigadas à castidade, encarregadas de manter aceso o fogo sagrado da cidade.
Quem são os pais de Rômulo e Remo?
Reia Sílvia, uma vestal, e o deus Marte.
Por que Rômulo mata Remo?
Na versão mais conhecida, depois de uma disputa sobre onde e por quem a cidade seria fundada, Remo salta em zombaria o muro que o irmão acabara de traçar.
Qual é a data tradicional da fundação de Roma?
753 antes de Cristo, calculada pelos próprios romanos séculos depois.
O que foi o rapto das sabinas?
O episódio em que os romanos, sem mulheres na cidade nova, raptam as filhas dos sabinos durante uma festa, o que leva a uma guerra encerrada pela intervenção delas.

Rui Nakamura

Resumos de mitologia e de narrativas longas

Escreve os resumos da estante Universos, mapeando panteões e histórias grandes demais para caber na memória. Monta a árvore genealógica e a linha do tempo antes de escrever uma linha. Se as duas não fecham, o resumo ainda não está pronto.

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