Resumo da mitologia egípcia
Por Rui Nakamura 12 min de leitura
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A mitologia egípcia não é um sistema fechado: é o acúmulo de mais de três mil anos de tradições locais que foram se somando, e por isso convivem vários relatos diferentes sobre a criação do mundo. O que dá unidade ao conjunto é Maat, o princípio de ordem, verdade e equilíbrio que precisa ser sustentado contra o caos. O mito central é o de Osíris: assassinado pelo irmão Seth, remontado por Ísis, ele se torna senhor do mundo dos mortos, enquanto o filho Hórus disputa e recupera o trono dos vivos. Esse mito sustenta ao mesmo tempo a legitimidade do faraó, a prática da mumificação e a esperança de vida após a morte.
Quem é quem
- Atum
- Deus criador que surge das águas primordiais e dá início aos outros deuses.
- Rá
- Deus do sol, que atravessa o céu de dia e o mundo inferior à noite.
- Geb e Nut
- A terra e o céu, pais de Osíris, Ísis, Set e Néftis.
- Osíris
- Rei assassinado por Set que se torna senhor do mundo dos mortos.
- Ísis
- Esposa de Osíris, grande maga, que reúne o corpo do marido e protege o filho.
- Hórus
- Filho de Osíris e Ísis, que disputa o trono com Set e representa o faraó vivo.
- Set
- Deus da desordem e do deserto, assassino de Osíris.
- Anúbis
- Deus do embalsamamento e guia dos mortos até o julgamento.
- Tot
- Deus da escrita e da sabedoria, que registra o resultado do julgamento.
- Maat
- A ordem e a verdade; sua pena é o contrapeso do coração na balança.
Por que essa mitologia parece confusa
A primeira coisa a entender é que a mitologia egípcia não foi construída como sistema. Ela é o acúmulo de tradições de cidades diferentes ao longo de mais de três mil anos, um período mais longo do que separa a Roma de Augusto do mundo de hoje.
Nesse tempo, divindades locais ganharam ou perderam importância conforme a política, deuses foram fundidos uns aos outros, e relatos incompatíveis passaram a conviver sem que ninguém sentisse necessidade de escolher.
Isso é diferente da lógica que usamos. Para o pensamento egípcio, várias explicações simultâneas de um mesmo fenômeno não se anulavam: cada uma iluminava um aspecto. Quem procura coerência de manual sai frustrado; quem aceita a sobreposição entende.
Maat: o que dá unidade ao conjunto
Se existe um conceito que atravessa tudo, é Maat: ordem, verdade, justiça, equilíbrio. Maat é ao mesmo tempo uma deusa, representada com uma pena de avestruz na cabeça, e um princípio de funcionamento do cosmos.
O mundo não é naturalmente ordenado. O caos, chamado Isfet, está sempre pressionando as bordas. Manter Maat exige esforço contínuo: dos deuses, do faraó e de cada pessoa.
É daí que vem a função política do faraó. Ele não era apenas governante: era o responsável por manter a ordem cósmica, e a legitimidade do seu poder dependia disso. E é daí que vem também o critério do julgamento após a morte, como se verá adiante.
As criações do mundo
Três relatos principais, de três centros religiosos.
Heliópolis. Do oceano primordial Nun emerge Atum, que cria a si mesmo. Dele nascem Chu, o ar, e Tefnut, a umidade. Do casal vêm Geb, a terra, e Nut, o céu. Geb e Nut geram Osíris, Ísis, Seth e Néftis. Esse conjunto forma a Enéade, as nove divindades, e é a versão mais difundida.
Detalhe que chama atenção: no Egito, a terra é masculina e o céu é feminino, o inverso do padrão grego. Nut é representada arqueada sobre Geb, sustentada por Chu, e engole o sol todas as noites para dar à luz de manhã.
Hermópolis. Oito divindades primordiais em quatro casais, a Ogdóade, representam as qualidades do caos antes da criação: águas ocultas, escuridão, infinitude e o que ainda não tem forma.
Mênfis. Ptah cria pelo pensamento e pela palavra: concebe no coração e realiza pela língua. É o relato mais abstrato dos três, e o mais citado como antecedente distante de outras teologias da criação pela palavra.
O mito de Osíris
É o mito mais completo do Egito antigo e o único que sobreviveu em narrativa contínua, embora a versão seguida mais de perto venha de Plutarco, autor grego muito posterior. As fontes egípcias trazem os episódios de forma fragmentada.
O reinado. Osíris governa o Egito, ensina agricultura, leis e culto. É um rei civilizador.
O assassinato. Seth, irmão, o mata. Em uma versão, prende-o em um sarcófago sob medida durante um banquete e o lança ao Nilo; em outra, esquarteja o corpo em catorze pedaços e os espalha pelo Egito.
A recomposição. Ísis, esposa e irmã, percorre o país recolhendo os pedaços com ajuda de Néftis. Falta uma parte, engolida por um peixe. Ísis reconstitui o corpo, envolve-o em faixas, e é este o gesto que funda a mumificação. Com magia, concebe de Osíris um filho: Hórus.
A disputa. Hórus cresce escondido nos pântanos e depois reivindica o trono. O conflito com Seth dura oitenta anos, com batalhas, julgamentos diante do tribunal divino e episódios em que Hórus perde um olho e Seth é ferido. Ao final, o tribunal reconhece Hórus como herdeiro legítimo.
O desfecho. Osíris não retorna à vida comum: torna-se soberano do Duat, o mundo dos mortos. Hórus governa os vivos.
Por que esse mito sustenta tudo
Ele resolve três problemas de uma vez:
- Legitimidade política. O faraó vivo é Hórus, herdeiro legítimo que restaura a ordem. O faraó morto é Osíris. A sucessão real repete o mito a cada geração.
- Justificativa da mumificação. Osíris só renasce porque o corpo foi recomposto. Preservar o corpo passa a ser condição da vida no além.
- Esperança individual. Com o tempo, o destino de Osíris deixa de ser privilégio do faraó e se estende a qualquer pessoa que cumprisse os ritos. É uma democratização gradual do além, visível na passagem dos Textos das Pirâmides, restritos à realeza, para os Textos dos Sarcófagos e depois para o chamado Livro dos Mortos.
Quem é quem
| Divindade | Função | Como é representada |
|---|---|---|
| Rá | Sol, criação, realeza divina | homem com cabeça de falcão e disco solar |
| Osíris | Soberano dos mortos, renascimento | múmia de pele verde, com cajado e mangual |
| Ísis | Magia, maternidade, proteção | mulher com trono na cabeça, às vezes alada |
| Hórus | Realeza, céu, herdeiro legítimo | homem com cabeça de falcão |
| Seth | Desordem, deserto, tempestade | animal não identificado, focinho curvo |
| Anúbis | Mumificação, necrópoles, julgamento | homem com cabeça de canídeo negro |
| Tot | Escrita, cálculo, registro | homem com cabeça de íbis |
| Hathor | Amor, música, alegria, maternidade | mulher com chifres de vaca e disco solar |
| Nut | Céu | mulher arqueada sobre a terra |
| Ptah | Criação, artesãos | homem envolto, com cetro |
| Sekhmet | Guerra, cura, fúria solar | mulher com cabeça de leoa |
| Bastet | Proteção do lar, gatos | mulher com cabeça de gata |
Seth merece uma observação: ele não é um equivalente do diabo. Além de assassino de Osíris, é quem viaja na barca solar e defende Rá da serpente Apófis durante a travessia noturna. A desordem, no pensamento egípcio, também tem função.
A travessia e o julgamento
Ao morrer, a pessoa entra no Duat, atravessa regiões perigosas e precisa conhecer fórmulas e nomes corretos para passar. É para isso que servem os textos depositados no túmulo.
O ponto culminante é a pesagem do coração, cena representada em incontáveis papiros:
- Anúbis conduz o morto e ajusta a balança;
- em um prato, o coração, tido como sede da consciência e da memória. Por isso era o único órgão deixado no corpo durante a mumificação;
- no outro, a pena de Maat;
- o morto recita a chamada confissão negativa, declarando o que não fez: não matei, não roubei, não menti;
- Tot registra o resultado por escrito;
- se o coração pesa mais que a pena, Ammut, criatura com cabeça de crocodilo, tronco de leão e traseiro de hipopótamo, o devora. É a segunda morte, e definitiva;
- aprovado, o morto é apresentado a Osíris e admitido no campo de juncos, onde a vida continua.
Repare em algo importante: não há inferno de tormento eterno. A punição é o desaparecimento. O que se teme não é o sofrimento sem fim, é deixar de existir.
A pessoa dividida em partes
Um último conceito, que explica por que tanto esforço com o corpo. Para os egípcios, a pessoa não era uma unidade simples, e sim um conjunto de componentes que a morte separava e o rito precisava manter ligados:
- o ka, a força vital, que continua precisando de alimento e por isso recebe oferendas;
- o ba, a individualidade, representada como pássaro de cabeça humana, que sai do túmulo e retorna;
- o corpo, que precisa ser preservado e reconhecível para que o ba encontre o caminho de volta;
- o nome, que precisa continuar sendo pronunciado, razão pela qual apagar o nome de alguém dos monumentos era a punição mais severa que se podia aplicar.
Preservar o corpo, repetir o nome e alimentar o ka não eram superstição avulsa. Eram as três operações necessárias para que uma pessoa continuasse existindo.
O essencial para não se perder
- O princípio de Maat como eixo religioso, moral e político, e a função do faraó em mantê-lo.
- O mito de Osíris na sequência completa, do assassinato à disputa entre Hórus e Seth pelo trono.
- A cerimônia da pesagem do coração contra a pena de Maat, com Anúbis, Tot e Ammut.
- Os atributos dos deuses mais cobrados: Rá, Osíris, Ísis, Hórus, Seth, Anúbis, Tot, Hathor e Nut.
- A existência de mais de um mito de criação, ligados a cidades diferentes, sem que um anule o outro.
Confusões que se espalharam
Anúbis é o deus da morte
Anúbis cuida da mumificação, protege as necrópoles e conduz a cerimônia da pesagem do coração. Quem governa o mundo dos mortos é Osíris. Anúbis é o encarregado do processo, não o soberano do reino, e essa separação de papéis é frequentemente cobrada.
O Livro dos Mortos é um livro só, com capítulos fixos
O nome moderno cobre um conjunto variável de fórmulas mágicas escritas em papiro e depositadas junto ao morto, e cada exemplar era montado conforme o que a família encomendava e podia pagar. Não existe um texto oficial com capítulos fixos, e o título egípcio significa algo como fórmulas para sair à luz do dia.
Existe um relato egípcio oficial da criação do mundo
Existem pelo menos três grandes relatos, associados a centros religiosos diferentes: o de Heliópolis, com Atum; o de Hermópolis, com oito divindades primordiais; e o de Mênfis, com Ptah criando pelo pensamento e pela palavra. Eles coexistiram sem que ninguém precisasse escolher, porque a lógica egípcia admitia explicações simultâneas.
A mumificação servia para conservar o corpo, e só
O objetivo era manter o corpo reconhecível para que os componentes da pessoa, entre eles o ka e o ba, pudessem reencontrá-lo e a existência continuasse. É consequência direta do mito de Osíris, cujo corpo precisou ser recomposto por Ísis para que ele pudesse renascer no além.
Confundir Rá e Amon como se fossem sempre a mesma divindade
Rá é o deus solar de Heliópolis, antigo e central. Amon era uma divindade de Tebas que ganhou importância política e foi fundida a Rá na forma Amon-Rá durante o Império Novo. A fusão é histórica e datável, não uma identidade original.
Teste sua memória
6 perguntas
- O que é Maat?
- O princípio de ordem, verdade, justiça e equilíbrio cósmico. Manter Maat contra o caos é a função central do faraó e o critério do julgamento dos mortos.
- Como é o mito de Osíris, em resumo?
- Seth mata e esquarteja o irmão Osíris. Ísis reúne os pedaços e concebe Hórus. Osíris passa a governar os mortos, e Hórus disputa e recupera o trono dos vivos.
- O que acontece na pesagem do coração?
- O coração do morto é posto numa balança contra a pena de Maat. Anúbis conduz, Tot registra o resultado, e quem não passa é devorado por Ammut.
- Qual é a diferença entre Osíris e Anúbis?
- Osíris governa o mundo dos mortos. Anúbis cuida da mumificação, das necrópoles e da condução do julgamento.
- Por que o faraó era associado a Hórus?
- Porque Hórus é o herdeiro legítimo que recupera o trono. O faraó vivo era identificado com Hórus e, ao morrer, passava a ser identificado com Osíris.
- Quantos mitos de criação existem no Egito antigo?
- Vários, ligados a centros religiosos diferentes, como Heliópolis, Hermópolis e Mênfis. Eles coexistiram sem se anular.
Rui Nakamura
Resumos de mitologia e de narrativas longas
Escreve os resumos da estante Universos, mapeando panteões e histórias grandes demais para caber na memória. Monta a árvore genealógica e a linha do tempo antes de escrever uma linha. Se as duas não fecham, o resumo ainda não está pronto.