Ir direto para o conteúdo
Resumo De

Resumo da mitologia egípcia

Por Rui Nakamura 12 min de leitura

Em 30 segundos

A mitologia egípcia não é um sistema fechado: é o acúmulo de mais de três mil anos de tradições locais que foram se somando, e por isso convivem vários relatos diferentes sobre a criação do mundo. O que dá unidade ao conjunto é Maat, o princípio de ordem, verdade e equilíbrio que precisa ser sustentado contra o caos. O mito central é o de Osíris: assassinado pelo irmão Seth, remontado por Ísis, ele se torna senhor do mundo dos mortos, enquanto o filho Hórus disputa e recupera o trono dos vivos. Esse mito sustenta ao mesmo tempo a legitimidade do faraó, a prática da mumificação e a esperança de vida após a morte.

O mito de Osíris em quatro etapas e a cerimônia da pesagem do coração contra a pena de Maat, com Anúbis, Tot e Ammut
Ilustração: resumode.com.br

Quem é quem

Atum
Deus criador que surge das águas primordiais e dá início aos outros deuses.
Deus do sol, que atravessa o céu de dia e o mundo inferior à noite.
Geb e Nut
A terra e o céu, pais de Osíris, Ísis, Set e Néftis.
Osíris
Rei assassinado por Set que se torna senhor do mundo dos mortos.
Ísis
Esposa de Osíris, grande maga, que reúne o corpo do marido e protege o filho.
Hórus
Filho de Osíris e Ísis, que disputa o trono com Set e representa o faraó vivo.
Set
Deus da desordem e do deserto, assassino de Osíris.
Anúbis
Deus do embalsamamento e guia dos mortos até o julgamento.
Tot
Deus da escrita e da sabedoria, que registra o resultado do julgamento.
Maat
A ordem e a verdade; sua pena é o contrapeso do coração na balança.

Por que essa mitologia parece confusa

A primeira coisa a entender é que a mitologia egípcia não foi construída como sistema. Ela é o acúmulo de tradições de cidades diferentes ao longo de mais de três mil anos, um período mais longo do que separa a Roma de Augusto do mundo de hoje.

Nesse tempo, divindades locais ganharam ou perderam importância conforme a política, deuses foram fundidos uns aos outros, e relatos incompatíveis passaram a conviver sem que ninguém sentisse necessidade de escolher.

Isso é diferente da lógica que usamos. Para o pensamento egípcio, várias explicações simultâneas de um mesmo fenômeno não se anulavam: cada uma iluminava um aspecto. Quem procura coerência de manual sai frustrado; quem aceita a sobreposição entende.

Maat: o que dá unidade ao conjunto

Se existe um conceito que atravessa tudo, é Maat: ordem, verdade, justiça, equilíbrio. Maat é ao mesmo tempo uma deusa, representada com uma pena de avestruz na cabeça, e um princípio de funcionamento do cosmos.

O mundo não é naturalmente ordenado. O caos, chamado Isfet, está sempre pressionando as bordas. Manter Maat exige esforço contínuo: dos deuses, do faraó e de cada pessoa.

É daí que vem a função política do faraó. Ele não era apenas governante: era o responsável por manter a ordem cósmica, e a legitimidade do seu poder dependia disso. E é daí que vem também o critério do julgamento após a morte, como se verá adiante.

As criações do mundo

Três relatos principais, de três centros religiosos.

Heliópolis. Do oceano primordial Nun emerge Atum, que cria a si mesmo. Dele nascem Chu, o ar, e Tefnut, a umidade. Do casal vêm Geb, a terra, e Nut, o céu. Geb e Nut geram Osíris, Ísis, Seth e Néftis. Esse conjunto forma a Enéade, as nove divindades, e é a versão mais difundida.

Detalhe que chama atenção: no Egito, a terra é masculina e o céu é feminino, o inverso do padrão grego. Nut é representada arqueada sobre Geb, sustentada por Chu, e engole o sol todas as noites para dar à luz de manhã.

Hermópolis. Oito divindades primordiais em quatro casais, a Ogdóade, representam as qualidades do caos antes da criação: águas ocultas, escuridão, infinitude e o que ainda não tem forma.

Mênfis. Ptah cria pelo pensamento e pela palavra: concebe no coração e realiza pela língua. É o relato mais abstrato dos três, e o mais citado como antecedente distante de outras teologias da criação pela palavra.

O mito de Osíris

É o mito mais completo do Egito antigo e o único que sobreviveu em narrativa contínua, embora a versão seguida mais de perto venha de Plutarco, autor grego muito posterior. As fontes egípcias trazem os episódios de forma fragmentada.

O reinado. Osíris governa o Egito, ensina agricultura, leis e culto. É um rei civilizador.

O assassinato. Seth, irmão, o mata. Em uma versão, prende-o em um sarcófago sob medida durante um banquete e o lança ao Nilo; em outra, esquarteja o corpo em catorze pedaços e os espalha pelo Egito.

A recomposição. Ísis, esposa e irmã, percorre o país recolhendo os pedaços com ajuda de Néftis. Falta uma parte, engolida por um peixe. Ísis reconstitui o corpo, envolve-o em faixas, e é este o gesto que funda a mumificação. Com magia, concebe de Osíris um filho: Hórus.

A disputa. Hórus cresce escondido nos pântanos e depois reivindica o trono. O conflito com Seth dura oitenta anos, com batalhas, julgamentos diante do tribunal divino e episódios em que Hórus perde um olho e Seth é ferido. Ao final, o tribunal reconhece Hórus como herdeiro legítimo.

O desfecho. Osíris não retorna à vida comum: torna-se soberano do Duat, o mundo dos mortos. Hórus governa os vivos.

Por que esse mito sustenta tudo

Ele resolve três problemas de uma vez:

  1. Legitimidade política. O faraó vivo é Hórus, herdeiro legítimo que restaura a ordem. O faraó morto é Osíris. A sucessão real repete o mito a cada geração.
  2. Justificativa da mumificação. Osíris só renasce porque o corpo foi recomposto. Preservar o corpo passa a ser condição da vida no além.
  3. Esperança individual. Com o tempo, o destino de Osíris deixa de ser privilégio do faraó e se estende a qualquer pessoa que cumprisse os ritos. É uma democratização gradual do além, visível na passagem dos Textos das Pirâmides, restritos à realeza, para os Textos dos Sarcófagos e depois para o chamado Livro dos Mortos.

Quem é quem

Divindade Função Como é representada
Sol, criação, realeza divina homem com cabeça de falcão e disco solar
Osíris Soberano dos mortos, renascimento múmia de pele verde, com cajado e mangual
Ísis Magia, maternidade, proteção mulher com trono na cabeça, às vezes alada
Hórus Realeza, céu, herdeiro legítimo homem com cabeça de falcão
Seth Desordem, deserto, tempestade animal não identificado, focinho curvo
Anúbis Mumificação, necrópoles, julgamento homem com cabeça de canídeo negro
Tot Escrita, cálculo, registro homem com cabeça de íbis
Hathor Amor, música, alegria, maternidade mulher com chifres de vaca e disco solar
Nut Céu mulher arqueada sobre a terra
Ptah Criação, artesãos homem envolto, com cetro
Sekhmet Guerra, cura, fúria solar mulher com cabeça de leoa
Bastet Proteção do lar, gatos mulher com cabeça de gata

Seth merece uma observação: ele não é um equivalente do diabo. Além de assassino de Osíris, é quem viaja na barca solar e defende Rá da serpente Apófis durante a travessia noturna. A desordem, no pensamento egípcio, também tem função.

A travessia e o julgamento

Ao morrer, a pessoa entra no Duat, atravessa regiões perigosas e precisa conhecer fórmulas e nomes corretos para passar. É para isso que servem os textos depositados no túmulo.

O ponto culminante é a pesagem do coração, cena representada em incontáveis papiros:

  • Anúbis conduz o morto e ajusta a balança;
  • em um prato, o coração, tido como sede da consciência e da memória. Por isso era o único órgão deixado no corpo durante a mumificação;
  • no outro, a pena de Maat;
  • o morto recita a chamada confissão negativa, declarando o que não fez: não matei, não roubei, não menti;
  • Tot registra o resultado por escrito;
  • se o coração pesa mais que a pena, Ammut, criatura com cabeça de crocodilo, tronco de leão e traseiro de hipopótamo, o devora. É a segunda morte, e definitiva;
  • aprovado, o morto é apresentado a Osíris e admitido no campo de juncos, onde a vida continua.

Repare em algo importante: não há inferno de tormento eterno. A punição é o desaparecimento. O que se teme não é o sofrimento sem fim, é deixar de existir.

A pessoa dividida em partes

Um último conceito, que explica por que tanto esforço com o corpo. Para os egípcios, a pessoa não era uma unidade simples, e sim um conjunto de componentes que a morte separava e o rito precisava manter ligados:

  • o ka, a força vital, que continua precisando de alimento e por isso recebe oferendas;
  • o ba, a individualidade, representada como pássaro de cabeça humana, que sai do túmulo e retorna;
  • o corpo, que precisa ser preservado e reconhecível para que o ba encontre o caminho de volta;
  • o nome, que precisa continuar sendo pronunciado, razão pela qual apagar o nome de alguém dos monumentos era a punição mais severa que se podia aplicar.

Preservar o corpo, repetir o nome e alimentar o ka não eram superstição avulsa. Eram as três operações necessárias para que uma pessoa continuasse existindo.

O essencial para não se perder

  1. O princípio de Maat como eixo religioso, moral e político, e a função do faraó em mantê-lo.
  2. O mito de Osíris na sequência completa, do assassinato à disputa entre Hórus e Seth pelo trono.
  3. A cerimônia da pesagem do coração contra a pena de Maat, com Anúbis, Tot e Ammut.
  4. Os atributos dos deuses mais cobrados: Rá, Osíris, Ísis, Hórus, Seth, Anúbis, Tot, Hathor e Nut.
  5. A existência de mais de um mito de criação, ligados a cidades diferentes, sem que um anule o outro.

Confusões que se espalharam

Anúbis é o deus da morte

Anúbis cuida da mumificação, protege as necrópoles e conduz a cerimônia da pesagem do coração. Quem governa o mundo dos mortos é Osíris. Anúbis é o encarregado do processo, não o soberano do reino, e essa separação de papéis é frequentemente cobrada.

O Livro dos Mortos é um livro só, com capítulos fixos

O nome moderno cobre um conjunto variável de fórmulas mágicas escritas em papiro e depositadas junto ao morto, e cada exemplar era montado conforme o que a família encomendava e podia pagar. Não existe um texto oficial com capítulos fixos, e o título egípcio significa algo como fórmulas para sair à luz do dia.

Existe um relato egípcio oficial da criação do mundo

Existem pelo menos três grandes relatos, associados a centros religiosos diferentes: o de Heliópolis, com Atum; o de Hermópolis, com oito divindades primordiais; e o de Mênfis, com Ptah criando pelo pensamento e pela palavra. Eles coexistiram sem que ninguém precisasse escolher, porque a lógica egípcia admitia explicações simultâneas.

A mumificação servia para conservar o corpo, e só

O objetivo era manter o corpo reconhecível para que os componentes da pessoa, entre eles o ka e o ba, pudessem reencontrá-lo e a existência continuasse. É consequência direta do mito de Osíris, cujo corpo precisou ser recomposto por Ísis para que ele pudesse renascer no além.

Confundir Rá e Amon como se fossem sempre a mesma divindade

Rá é o deus solar de Heliópolis, antigo e central. Amon era uma divindade de Tebas que ganhou importância política e foi fundida a Rá na forma Amon-Rá durante o Império Novo. A fusão é histórica e datável, não uma identidade original.

Teste sua memória

6 perguntas

O que é Maat?
O princípio de ordem, verdade, justiça e equilíbrio cósmico. Manter Maat contra o caos é a função central do faraó e o critério do julgamento dos mortos.
Como é o mito de Osíris, em resumo?
Seth mata e esquarteja o irmão Osíris. Ísis reúne os pedaços e concebe Hórus. Osíris passa a governar os mortos, e Hórus disputa e recupera o trono dos vivos.
O que acontece na pesagem do coração?
O coração do morto é posto numa balança contra a pena de Maat. Anúbis conduz, Tot registra o resultado, e quem não passa é devorado por Ammut.
Qual é a diferença entre Osíris e Anúbis?
Osíris governa o mundo dos mortos. Anúbis cuida da mumificação, das necrópoles e da condução do julgamento.
Por que o faraó era associado a Hórus?
Porque Hórus é o herdeiro legítimo que recupera o trono. O faraó vivo era identificado com Hórus e, ao morrer, passava a ser identificado com Osíris.
Quantos mitos de criação existem no Egito antigo?
Vários, ligados a centros religiosos diferentes, como Heliópolis, Hermópolis e Mênfis. Eles coexistiram sem se anular.

Rui Nakamura

Resumos de mitologia e de narrativas longas

Escreve os resumos da estante Universos, mapeando panteões e histórias grandes demais para caber na memória. Monta a árvore genealógica e a linha do tempo antes de escrever uma linha. Se as duas não fecham, o resumo ainda não está pronto.

Voltar para Universos