Resumo da mitologia celta
Por Rui Nakamura 9 min de leitura
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Mitologia celta é o nome dado aos mitos dos povos de língua celta, mas quase tudo o que se sabe deles vem de duas tradições escritas por monges cristãos na Idade Média: a irlandesa e a galesa. Dos gauleses do continente sobraram só descrições romanas e inscrições. Na Irlanda, o Livro das Invasões conta as levas de povos que ocuparam a ilha, entre eles os Tuatha Dé Danann, o povo divino de deuses como o Dagda, Lug, Brigid e a Morrígan. Eles vencem os fomorianos numa grande batalha, em que Lug mata Balor, e depois são derrotados pelos gaélicos e se recolhem aos montes encantados, origem das fadas. Seguem-se ciclos heroicos, como o de Cú Chulainn e o de Fionn mac Cumhaill. No País de Gales, o Mabinogion reúne as histórias de Rhiannon, Bran e Pryderi.
Quem é quem
- Dagda
- O deus bom, pai e chefe dos Tuatha Dé Danann, dono de um caldeirão que nunca se esvazia.
- Lug
- O deus de todas as artes, que mata Balor e dá nome à festa de Lughnasadh.
- Nuada
- Rei dos Tuatha Dé Danann, que perde o braço e recebe um de prata.
- Balor
- Chefe dos fomorianos, com um olho que mata quem ele olha; avô de Lug.
- Brigid
- Deusa da poesia, da cura e da forja, ligada à festa de Imbolc.
- Morrígan
- Deusa da guerra e do destino, que aparece como corvo no campo de batalha.
- Manannán mac Lir
- Deus do mar e senhor do Outro Mundo.
- Cú Chulainn
- Herói do ciclo de Ulster, de força sobre-humana e vida curta.
- Fionn mac Cumhaill
- Líder dos guerreiros fianna, que ganha a sabedoria ao provar o salmão do conhecimento.
- Rhiannon
- Figura do Outro Mundo no Mabinogion galês, mãe de Pryderi.
Uma mitologia que sobreviveu por escrito, e tarde
Os celtas eram um conjunto de povos com línguas aparentadas que, no auge, ocupavam boa parte da Europa, da Irlanda à Península Ibérica e ao centro do continente. Não formavam um império nem tinham um panteão único. Seus sacerdotes, os druidas, transmitiam o conhecimento de memória e, segundo Júlio César, evitavam registrá-lo por escrito.
Por isso, dos gauleses do continente sobraram apenas descrições de autores romanos, que traduziam os deuses locais para nomes romanos, e algumas inscrições. O que hoje se conta como mitologia celta vem quase todo de duas ilhas onde o latim e Roma pesaram menos: a Irlanda e o País de Gales. Lá, a partir dos séculos VIII a XII, monges cristãos puseram por escrito narrativas antigas. Fizeram isso como cristãos: muitos deuses aparecem como reis do passado, heróis ou seres encantados.
O Livro das Invasões
O Lebor Gabála Érenn, o Livro das Invasões da Irlanda, compilado no século XI, conta a história mítica da ilha como uma sucessão de povos que chegam, governam e são substituídos:
| Leva | O que acontece |
|---|---|
| Partholón | Os primeiros a se estabelecer depois do dilúvio; morrem de uma peste |
| Nemed | Lutam contra os fomorianos e acabam dispersos |
| Fir Bolg | Dividem a ilha em províncias e são vencidos pelos Tuatha Dé Danann |
| Tuatha Dé Danann | O povo divino, mestre das artes e da magia |
| Filhos de Míl | Os gaélicos, antepassados míticos dos irlandeses, que vencem os Tuatha Dé |
Os fomorianos atravessam várias dessas histórias como inimigos: seres monstruosos ligados ao mar e às forças destrutivas.
Os Tuatha Dé Danann
Tuatha Dé Danann significa povo da deusa Danu. Chegam à Irlanda envoltos em névoa, trazendo quatro tesouros de quatro cidades míticas:
- a Lia Fáil, a Pedra do Destino, que grita quando o verdadeiro rei pisa nela;
- a lança de Lug, que garante a vitória;
- a espada de Nuada, da qual ninguém escapa;
- o caldeirão do Dagda, de que ninguém sai sem estar saciado.
Os principais deuses:
- Dagda, o deus bom, pai e chefe, com uma clava que mata de um lado e ressuscita do outro, além do caldeirão e de uma harpa mágica;
- Lug, o samildánach, o que domina todas as artes; a festa de Lughnasadh leva o nome dele;
- Brigid, deusa da poesia, da cura e da forja;
- a Morrígan, deusa da guerra e do destino, que aparece como corvo;
- Nuada, o rei; Dian Cécht, o médico; Ogma, a quem se atribui a escrita ogâmica;
- Manannán mac Lir, senhor do mar e do Outro Mundo.
As duas batalhas de Mag Tuired
Na primeira batalha de Mag Tuired, os Tuatha Dé vencem os Fir Bolg, mas o rei Nuada perde o braço. Pela lei, um rei com defeito no corpo não pode reinar. O médico Dian Cécht faz para ele um braço de prata, e o trono passa a Bres, filho de pai fomoriano, que governa mal, cobra tributos pesados e é avarento com a hospitalidade. Um poeta o satiriza, e ele cai.
Na segunda batalha de Mag Tuired, os Tuatha Dé enfrentam os fomorianos. Lug chega à corte e só é admitido porque domina todas as artes ao mesmo tempo. No combate, enfrenta Balor, o chefe fomoriano, que tem um olho capaz de matar um exército quando aberto. Balor é avô de Lug. Quando a pálpebra se ergue, Lug acerta o olho com uma pedra de funda, e o olho, atravessado para trás, fulmina os próprios fomorianos.
A retirada para os montes
Os Tuatha Dé Danann são vencidos pelos filhos de Míl, os gaélicos. Pelo acordo, os vencedores ficam com a superfície da Irlanda, e os Tuatha Dé se recolhem aos sídhe, os montes e túmulos antigos, de onde passam a viver num mundo paralelo. Esse povo dos montes, os aos sí, é a origem de grande parte do folclore irlandês das fadas.
Os ciclos irlandeses
Os estudiosos dividem as narrativas irlandesas em quatro ciclos:
- Ciclo Mitológico: os Tuatha Dé Danann, as invasões e as batalhas.
- Ciclo de Ulster: o rei Conchobar, a rainha Medb de Connacht e o herói Cú Chulainn. O texto central é o Táin Bó Cúailnge, o Ataque ao Gado de Cooley, em que Cú Chulainn, ainda jovem, defende sozinho a província de Ulster contra o exército de Medb. Ele escolhe uma vida curta e gloriosa em vez de uma longa e obscura.
- Ciclo Feniano: Fionn mac Cumhaill e os guerreiros fianna. Ainda menino, Fionn queima o polegar ao assar o salmão do conhecimento e, ao levá-lo à boca, recebe toda a sabedoria. Seu filho Oisín vai para Tír na nÓg, a terra da juventude, e volta séculos depois.
- Ciclo dos Reis: reis semilendários da Irlanda.
O Mabinogion galês
No País de Gales, a tradição sobreviveu numa coleção de narrativas medievais chamada Mabinogion, preservada em manuscritos do século XIV. O núcleo são os Quatro Ramos do Mabinogi: as histórias de Pwyll, que troca de lugar com Arawn, rei do Outro Mundo, Annwn; de Rhiannon, mulher do Outro Mundo acusada injustamente de matar o filho, Pryderi; de Bran, o gigante, e sua irmã Branwen; e de Math e do mago Gwydion. A coleção traz também algumas das mais antigas histórias de Artur.
O calendário
Quatro festas marcavam o ano celta irlandês: Samhain (início de novembro), quando o mundo dos vivos e o Outro Mundo se tocavam; Imbolc (início de fevereiro), ligada a Brigid; Beltane (início de maio), com fogueiras; e Lughnasadh (início de agosto), a festa de Lug e da colheita. Samhain costuma ser apontado como uma das raízes do Halloween, embora a festa moderna tenha muitas outras camadas.
Como não se perder
Separe três coisas: as fontes (irlandesas e galesas, escritas por monges), o povo divino (Tuatha Dé Danann e suas batalhas) e os heróis (Cú Chulainn e Fionn). Para comparar com outro panteão que também sobreviveu graças a escritores cristãos medievais, leia a mitologia nórdica; para um panteão com fontes da própria Antiguidade, a mitologia grega.
O essencial para não se perder
- As fontes: manuscritos irlandeses e galeses escritos por monges cristãos, séculos depois da conversão, e a ausência de textos dos próprios druidas.
- O Livro das Invasões e as levas míticas da Irlanda: Partholón, Nemed, Fir Bolg, Tuatha Dé Danann e os filhos de Míl.
- Os Tuatha Dé Danann e seus quatro tesouros: a Pedra do Destino, a lança de Lug, a espada de Nuada e o caldeirão do Dagda.
- A segunda batalha de Mag Tuired, em que Lug mata o próprio avô, Balor do olho maligno.
- Os ciclos irlandeses: Mitológico, de Ulster (Cú Chulainn), Feniano (Fionn mac Cumhaill) e dos Reis.
- As quatro festas do calendário: Samhain, Imbolc, Beltane e Lughnasadh.
Confusões que se espalharam
Existe uma mitologia celta única, comum a todos os celtas
Os povos celtas iam da Irlanda à atual Turquia e não tinham um panteão unificado. O que chamamos de mitologia celta é, na prática, a tradição irlandesa e a galesa, registradas na Idade Média, mais fragmentos sobre os gauleses. Muitos deuses têm nomes parecidos entre regiões, como Lug e o galês Lleu, mas histórias diferentes.
Os mitos celtas foram escritos pelos druidas
Os druidas transmitiam o saber de forma oral e, segundo Júlio César, evitavam escrevê-lo. Os textos que temos foram copiados por monges cristãos, séculos depois da conversão. Por isso os deuses aparecem muitas vezes como reis antigos, heróis ou seres encantados, e não como divindades.
Stonehenge foi construído pelos druidas celtas
Stonehenge foi erguido entre cerca de 3000 e 2000 a.C., muito antes da chegada da cultura celta às ilhas britânicas. A ligação com os druidas é uma invenção dos séculos XVII e XVIII.
As fadas do folclore não têm nada a ver com a mitologia celta
Na tradição irlandesa, depois de vencidos pelos gaélicos, os Tuatha Dé Danann se recolhem aos sídhe, os montes encantados, e passam a viver num mundo paralelo. Desse povo dos montes vem boa parte do folclore das fadas da Irlanda.
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7 perguntas
- De onde vem quase tudo o que se sabe da mitologia celta?
- De manuscritos medievais irlandeses e galeses, escritos por monges cristãos.
- Quem são os Tuatha Dé Danann?
- O povo divino da tradição irlandesa, o povo da deusa Danu, que governa a Irlanda antes dos gaélicos.
- Quem são os fomorianos?
- Seres hostis e monstruosos, inimigos dos Tuatha Dé Danann, liderados por Balor.
- Como Lug vence Balor?
- Com uma pedra de funda lançada no olho maligno do avô, na segunda batalha de Mag Tuired.
- Por que Nuada tem um braço de prata?
- Perdeu o braço na primeira batalha de Mag Tuired, e o médico Dian Cécht fez um de prata; um rei com defeito não podia reinar.
- Quem é Cú Chulainn?
- O grande herói do ciclo de Ulster, que defende sozinho a província no Ataque ao Gado de Cooley.
- O que é o Mabinogion?
- A coleção de narrativas galesas medievais, com os Quatro Ramos do Mabinogi, onde aparecem Rhiannon, Bran e Pryderi.
Rui Nakamura
Resumos de mitologia e de narrativas longas
Escreve os resumos da estante Universos, mapeando panteões e histórias grandes demais para caber na memória. Monta a árvore genealógica e a linha do tempo antes de escrever uma linha. Se as duas não fecham, o resumo ainda não está pronto.