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Resumo da mitologia celta

Por Rui Nakamura 9 min de leitura

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Em 30 segundos

Mitologia celta é o nome dado aos mitos dos povos de língua celta, mas quase tudo o que se sabe deles vem de duas tradições escritas por monges cristãos na Idade Média: a irlandesa e a galesa. Dos gauleses do continente sobraram só descrições romanas e inscrições. Na Irlanda, o Livro das Invasões conta as levas de povos que ocuparam a ilha, entre eles os Tuatha Dé Danann, o povo divino de deuses como o Dagda, Lug, Brigid e a Morrígan. Eles vencem os fomorianos numa grande batalha, em que Lug mata Balor, e depois são derrotados pelos gaélicos e se recolhem aos montes encantados, origem das fadas. Seguem-se ciclos heroicos, como o de Cú Chulainn e o de Fionn mac Cumhaill. No País de Gales, o Mabinogion reúne as histórias de Rhiannon, Bran e Pryderi.

As levas míticas que ocupam a Irlanda no Livro das Invasões, dos primeiros colonos aos Tuatha Dé Danann e aos filhos de Míl, e os quatro ciclos irlandeses
Imagem: resumode.com.br

Quem é quem

Dagda
O deus bom, pai e chefe dos Tuatha Dé Danann, dono de um caldeirão que nunca se esvazia.
Lug
O deus de todas as artes, que mata Balor e dá nome à festa de Lughnasadh.
Nuada
Rei dos Tuatha Dé Danann, que perde o braço e recebe um de prata.
Balor
Chefe dos fomorianos, com um olho que mata quem ele olha; avô de Lug.
Brigid
Deusa da poesia, da cura e da forja, ligada à festa de Imbolc.
Morrígan
Deusa da guerra e do destino, que aparece como corvo no campo de batalha.
Manannán mac Lir
Deus do mar e senhor do Outro Mundo.
Cú Chulainn
Herói do ciclo de Ulster, de força sobre-humana e vida curta.
Fionn mac Cumhaill
Líder dos guerreiros fianna, que ganha a sabedoria ao provar o salmão do conhecimento.
Rhiannon
Figura do Outro Mundo no Mabinogion galês, mãe de Pryderi.

Uma mitologia que sobreviveu por escrito, e tarde

Os celtas eram um conjunto de povos com línguas aparentadas que, no auge, ocupavam boa parte da Europa, da Irlanda à Península Ibérica e ao centro do continente. Não formavam um império nem tinham um panteão único. Seus sacerdotes, os druidas, transmitiam o conhecimento de memória e, segundo Júlio César, evitavam registrá-lo por escrito.

Por isso, dos gauleses do continente sobraram apenas descrições de autores romanos, que traduziam os deuses locais para nomes romanos, e algumas inscrições. O que hoje se conta como mitologia celta vem quase todo de duas ilhas onde o latim e Roma pesaram menos: a Irlanda e o País de Gales. Lá, a partir dos séculos VIII a XII, monges cristãos puseram por escrito narrativas antigas. Fizeram isso como cristãos: muitos deuses aparecem como reis do passado, heróis ou seres encantados.

O Livro das Invasões

O Lebor Gabála Érenn, o Livro das Invasões da Irlanda, compilado no século XI, conta a história mítica da ilha como uma sucessão de povos que chegam, governam e são substituídos:

Leva O que acontece
Partholón Os primeiros a se estabelecer depois do dilúvio; morrem de uma peste
Nemed Lutam contra os fomorianos e acabam dispersos
Fir Bolg Dividem a ilha em províncias e são vencidos pelos Tuatha Dé Danann
Tuatha Dé Danann O povo divino, mestre das artes e da magia
Filhos de Míl Os gaélicos, antepassados míticos dos irlandeses, que vencem os Tuatha Dé

Os fomorianos atravessam várias dessas histórias como inimigos: seres monstruosos ligados ao mar e às forças destrutivas.

Os Tuatha Dé Danann

Tuatha Dé Danann significa povo da deusa Danu. Chegam à Irlanda envoltos em névoa, trazendo quatro tesouros de quatro cidades míticas:

  • a Lia Fáil, a Pedra do Destino, que grita quando o verdadeiro rei pisa nela;
  • a lança de Lug, que garante a vitória;
  • a espada de Nuada, da qual ninguém escapa;
  • o caldeirão do Dagda, de que ninguém sai sem estar saciado.

Os principais deuses:

  • Dagda, o deus bom, pai e chefe, com uma clava que mata de um lado e ressuscita do outro, além do caldeirão e de uma harpa mágica;
  • Lug, o samildánach, o que domina todas as artes; a festa de Lughnasadh leva o nome dele;
  • Brigid, deusa da poesia, da cura e da forja;
  • a Morrígan, deusa da guerra e do destino, que aparece como corvo;
  • Nuada, o rei; Dian Cécht, o médico; Ogma, a quem se atribui a escrita ogâmica;
  • Manannán mac Lir, senhor do mar e do Outro Mundo.

As duas batalhas de Mag Tuired

Na primeira batalha de Mag Tuired, os Tuatha Dé vencem os Fir Bolg, mas o rei Nuada perde o braço. Pela lei, um rei com defeito no corpo não pode reinar. O médico Dian Cécht faz para ele um braço de prata, e o trono passa a Bres, filho de pai fomoriano, que governa mal, cobra tributos pesados e é avarento com a hospitalidade. Um poeta o satiriza, e ele cai.

Na segunda batalha de Mag Tuired, os Tuatha Dé enfrentam os fomorianos. Lug chega à corte e só é admitido porque domina todas as artes ao mesmo tempo. No combate, enfrenta Balor, o chefe fomoriano, que tem um olho capaz de matar um exército quando aberto. Balor é avô de Lug. Quando a pálpebra se ergue, Lug acerta o olho com uma pedra de funda, e o olho, atravessado para trás, fulmina os próprios fomorianos.

A retirada para os montes

Os Tuatha Dé Danann são vencidos pelos filhos de Míl, os gaélicos. Pelo acordo, os vencedores ficam com a superfície da Irlanda, e os Tuatha Dé se recolhem aos sídhe, os montes e túmulos antigos, de onde passam a viver num mundo paralelo. Esse povo dos montes, os aos sí, é a origem de grande parte do folclore irlandês das fadas.

Os ciclos irlandeses

Os estudiosos dividem as narrativas irlandesas em quatro ciclos:

  1. Ciclo Mitológico: os Tuatha Dé Danann, as invasões e as batalhas.
  2. Ciclo de Ulster: o rei Conchobar, a rainha Medb de Connacht e o herói Cú Chulainn. O texto central é o Táin Bó Cúailnge, o Ataque ao Gado de Cooley, em que Cú Chulainn, ainda jovem, defende sozinho a província de Ulster contra o exército de Medb. Ele escolhe uma vida curta e gloriosa em vez de uma longa e obscura.
  3. Ciclo Feniano: Fionn mac Cumhaill e os guerreiros fianna. Ainda menino, Fionn queima o polegar ao assar o salmão do conhecimento e, ao levá-lo à boca, recebe toda a sabedoria. Seu filho Oisín vai para Tír na nÓg, a terra da juventude, e volta séculos depois.
  4. Ciclo dos Reis: reis semilendários da Irlanda.

O Mabinogion galês

No País de Gales, a tradição sobreviveu numa coleção de narrativas medievais chamada Mabinogion, preservada em manuscritos do século XIV. O núcleo são os Quatro Ramos do Mabinogi: as histórias de Pwyll, que troca de lugar com Arawn, rei do Outro Mundo, Annwn; de Rhiannon, mulher do Outro Mundo acusada injustamente de matar o filho, Pryderi; de Bran, o gigante, e sua irmã Branwen; e de Math e do mago Gwydion. A coleção traz também algumas das mais antigas histórias de Artur.

O calendário

Quatro festas marcavam o ano celta irlandês: Samhain (início de novembro), quando o mundo dos vivos e o Outro Mundo se tocavam; Imbolc (início de fevereiro), ligada a Brigid; Beltane (início de maio), com fogueiras; e Lughnasadh (início de agosto), a festa de Lug e da colheita. Samhain costuma ser apontado como uma das raízes do Halloween, embora a festa moderna tenha muitas outras camadas.

Como não se perder

Separe três coisas: as fontes (irlandesas e galesas, escritas por monges), o povo divino (Tuatha Dé Danann e suas batalhas) e os heróis (Cú Chulainn e Fionn). Para comparar com outro panteão que também sobreviveu graças a escritores cristãos medievais, leia a mitologia nórdica; para um panteão com fontes da própria Antiguidade, a mitologia grega.

O essencial para não se perder

  1. As fontes: manuscritos irlandeses e galeses escritos por monges cristãos, séculos depois da conversão, e a ausência de textos dos próprios druidas.
  2. O Livro das Invasões e as levas míticas da Irlanda: Partholón, Nemed, Fir Bolg, Tuatha Dé Danann e os filhos de Míl.
  3. Os Tuatha Dé Danann e seus quatro tesouros: a Pedra do Destino, a lança de Lug, a espada de Nuada e o caldeirão do Dagda.
  4. A segunda batalha de Mag Tuired, em que Lug mata o próprio avô, Balor do olho maligno.
  5. Os ciclos irlandeses: Mitológico, de Ulster (Cú Chulainn), Feniano (Fionn mac Cumhaill) e dos Reis.
  6. As quatro festas do calendário: Samhain, Imbolc, Beltane e Lughnasadh.

Confusões que se espalharam

Existe uma mitologia celta única, comum a todos os celtas

Os povos celtas iam da Irlanda à atual Turquia e não tinham um panteão unificado. O que chamamos de mitologia celta é, na prática, a tradição irlandesa e a galesa, registradas na Idade Média, mais fragmentos sobre os gauleses. Muitos deuses têm nomes parecidos entre regiões, como Lug e o galês Lleu, mas histórias diferentes.

Os mitos celtas foram escritos pelos druidas

Os druidas transmitiam o saber de forma oral e, segundo Júlio César, evitavam escrevê-lo. Os textos que temos foram copiados por monges cristãos, séculos depois da conversão. Por isso os deuses aparecem muitas vezes como reis antigos, heróis ou seres encantados, e não como divindades.

Stonehenge foi construído pelos druidas celtas

Stonehenge foi erguido entre cerca de 3000 e 2000 a.C., muito antes da chegada da cultura celta às ilhas britânicas. A ligação com os druidas é uma invenção dos séculos XVII e XVIII.

As fadas do folclore não têm nada a ver com a mitologia celta

Na tradição irlandesa, depois de vencidos pelos gaélicos, os Tuatha Dé Danann se recolhem aos sídhe, os montes encantados, e passam a viver num mundo paralelo. Desse povo dos montes vem boa parte do folclore das fadas da Irlanda.

Teste sua memória

7 perguntas

De onde vem quase tudo o que se sabe da mitologia celta?
De manuscritos medievais irlandeses e galeses, escritos por monges cristãos.
Quem são os Tuatha Dé Danann?
O povo divino da tradição irlandesa, o povo da deusa Danu, que governa a Irlanda antes dos gaélicos.
Quem são os fomorianos?
Seres hostis e monstruosos, inimigos dos Tuatha Dé Danann, liderados por Balor.
Como Lug vence Balor?
Com uma pedra de funda lançada no olho maligno do avô, na segunda batalha de Mag Tuired.
Por que Nuada tem um braço de prata?
Perdeu o braço na primeira batalha de Mag Tuired, e o médico Dian Cécht fez um de prata; um rei com defeito não podia reinar.
Quem é Cú Chulainn?
O grande herói do ciclo de Ulster, que defende sozinho a província no Ataque ao Gado de Cooley.
O que é o Mabinogion?
A coleção de narrativas galesas medievais, com os Quatro Ramos do Mabinogi, onde aparecem Rhiannon, Bran e Pryderi.
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Rui Nakamura

Resumos de mitologia e de narrativas longas

Escreve os resumos da estante Universos, mapeando panteões e histórias grandes demais para caber na memória. Monta a árvore genealógica e a linha do tempo antes de escrever uma linha. Se as duas não fecham, o resumo ainda não está pronto.

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