Resumo de Homo Deus, de Yuval Noah Harari
Por Aline Perez e Otávio Ribeiro 8 min de leitura
A tese em uma frase Depois de controlar a fome, a peste e a guerra, a humanidade vai buscar imortalidade, felicidade e poderes divinos, e esse projeto pode acabar entregando o controle aos algoritmos e desmontar o humanismo que o motivou.
Em 30 segundos
Homo Deus continua Sapiens olhando para o futuro. Harari argumenta que a humanidade quase venceu os três flagelos de sempre, fome, peste e guerra: hoje morre mais gente por comer demais do que por falta de comida. A nova agenda seria vencer a morte, alcançar a felicidade permanente e ganhar poderes antes atribuídos aos deuses, com biotecnologia e inteligência artificial. O livro explica que a era moderna se apoia numa religião sem deuses, o humanismo, que põe os sentimentos humanos como fonte de sentido. Mas a ciência trata os organismos como algoritmos, e algoritmos podem nos conhecer melhor que nós mesmos. Daí nasce o dataísmo, a crença de que o universo é fluxo de dados. Harari apresenta cenários possíveis, não profecias.
A continuação de Sapiens
Yuval Noah Harari publicou Homo Deus em 2015, depois do sucesso de Sapiens. Se Sapiens conta como um macaco sem importância chegou a dominar o planeta, Homo Deus pergunta o que esse animal vai querer agora. O subtítulo é uma breve história do amanhã.
O livro tem três partes: como o Homo sapiens conquistou o mundo, como deu sentido a ele e como pode perder o controle sobre ele.
A velha agenda: fome, peste e guerra
Durante milênios, a humanidade enfrentou os mesmos três inimigos. A fome matava em massa quando a colheita falhava. A peste dizimava cidades sem que ninguém entendesse por quê. A guerra era parte normal da política.
Harari argumenta que, no começo do século XXI, os três deixaram de ser forças da natureza e viraram problemas administráveis. Pelos dados que ele usa, hoje morre mais gente por obesidade do que por fome, mais gente de velhice do que de doenças infecciosas, e mais gente por suicídio do que somados os mortos por soldados, terroristas e criminosos. Quando a fome e a guerra acontecem, são resultado de decisões e falhas humanas, não de um destino inevitável.
A nova agenda: imortalidade, felicidade e divindade
Resolvidos os velhos problemas, o que a humanidade fará? Harari aposta em três projetos:
| Projeto | O que significa |
|---|---|
| Imortalidade | Tratar a morte como problema técnico a ser resolvido, ou ao menos adiado indefinidamente |
| Felicidade | Buscar bem-estar permanente, inclusive mexendo na bioquímica do cérebro |
| Divindade | Ganhar poderes de criação e controle, pela engenharia genética, pela fusão com máquinas ou por seres inorgânicos |
O resultado seria a passagem do Homo sapiens para o Homo Deus: humanos atualizados, com capacidades que antes se atribuíam aos deuses. Harari lembra que esse progresso provavelmente não será distribuído por igual: os mais ricos poderiam comprar vantagens biológicas, criando desigualdades maiores que todas as anteriores.
Como os humanos conquistaram o mundo
A primeira parte retoma uma ideia de Sapiens: o que distingue os humanos não é a inteligência individual, mas a capacidade de cooperar em grande escala com estranhos. Isso só é possível graças a ficções compartilhadas, realidades que existem porque muitas pessoas acreditam nelas: deuses, nações, dinheiro, empresas, direitos.
Harari também discute a relação com os outros animais. A agricultura e a pecuária industrial trataram bilhões de seres capazes de sentir como máquinas de produção. A pergunta inquietante do livro é: e se uma nova espécie superior tratar os humanos como os humanos tratam os animais?
O humanismo, a religião moderna
A segunda parte explica como a era moderna encontrou sentido sem deuses. Harari descreve o pacto moderno: abrimos mão da ideia de que o universo tem um plano para nós e, em troca, ganhamos poder. Crescimento econômico, ciência e tecnologia passaram a ser o caminho.
O que preencheu o vazio foi o humanismo, que Harari trata como uma religião. Para ele, a fonte de sentido passa a ser a experiência humana: o eleitor sabe o que é melhor, o consumidor tem sempre razão, a beleza está nos olhos de quem vê, se é bom para você, faça. A fórmula humanista seria: conhecimento = experiências × sensibilidade.
O humanismo se dividiu em três correntes que disputaram o século XX:
- liberal: cada indivíduo tem uma voz interior única que deve ser ouvida;
- socialista: os sentimentos dos outros importam tanto quanto os meus, e a coletividade organiza isso;
- evolucionista: os conflitos selecionam os mais aptos, ideia que levou ao nazismo.
O liberalismo venceu. Mas Harari pergunta se ele sobreviverá ao que vem.
O indivíduo sob suspeita
A terceira parte reúne descobertas das ciências da vida que corroem as bases do liberalismo. Se as escolhas resultam de processos bioquímicos, o livre-arbítrio fica difícil de sustentar. Se o cérebro abriga um eu que vive a experiência e um eu que narra a história depois, como mostram pesquisas citadas em Rápido e Devagar, qual deles decide?
E se os organismos são, no fundo, algoritmos, processos de cálculo, então algoritmos externos alimentados por dados podem acabar conhecendo cada pessoa melhor do que ela mesma. Quando isso acontecer, faz sentido continuar confiando no eleitor, no consumidor e no sentimento individual?
Harari imagina o surgimento de uma classe inútil: pessoas sem valor econômico num mundo em que máquinas fazem melhor quase todo trabalho. O problema não seria só o desemprego, mas a perda de sentido.
Dataísmo
As duas possíveis religiões do futuro, segundo Harari, são o tecno-humanismo, que quer usar a tecnologia para melhorar os humanos, e o dataísmo, mais radical. O dataísmo vê o universo como um fluxo de dados e mede o valor de qualquer coisa pela contribuição que ela dá ao processamento de dados. Nesse quadro, a humanidade seria apenas um sistema de processamento que pode ser superado por outro mais eficiente.
Não é profecia
Harari fecha avisando que não está prevendo o futuro: está mostrando possibilidades para que possamos escolher outras. O livro termina com três perguntas: os organismos são mesmo só algoritmos? O que vale mais, inteligência ou consciência? O que acontecerá com a sociedade quando algoritmos sem consciência nos conhecerem melhor que nós mesmos?
A visão dos seres vivos como portadores de informação tem raiz na biologia de O Gene Egoísta.
As ideias que ficam
- A tese de que fome, peste e guerra deixaram de ser forças incontroláveis e viraram problemas administráveis.
- A nova agenda humana: imortalidade, felicidade e divindade, isto é, a transformação do Homo sapiens em Homo Deus.
- O humanismo como religião moderna, em três versões: liberal, socialista e evolucionista.
- O pacto moderno: abrir mão de um sentido dado de fora em troca de poder e crescimento.
- A ideia de que organismos são algoritmos e a ameaça que isso representa para o livre-arbítrio e o liberalismo.
- O dataísmo como possível sucessor do humanismo, e a advertência de que o livro traça cenários, não previsões.
O que o livro não diz
Harari prevê que os humanos vão virar deuses
Ele descreve possibilidades e diz explicitamente que não está fazendo profecias. O objetivo de pensar esses cenários é ampliar as escolhas do presente: imaginar o futuro para poder mudá-lo, não para aceitá-lo.
Homo Deus diz que fome, guerra e doenças acabaram
O argumento é que deixaram de ser destinos inevitáveis e viraram problemas que, quando acontecem, resultam de falhas humanas e políticas. Ainda há fome e guerra, mas como exceção que se pode combater, e não como regra da natureza.
O livro defende o dataísmo
Harari descreve o dataísmo como uma tendência que já organiza a ciência e a economia e mostra por que ela ameaça o humanismo. A leitura dele é crítica: termina perguntando o que acontecerá com a sociedade, a política e a vida quando algoritmos nos conhecerem melhor que nós mesmos.
Homo Deus é sobre tecnologia, não sobre história
Dois terços do livro são história: como os humanos conquistaram o planeta, como as ficções compartilhadas organizam a cooperação e como o humanismo substituiu as religiões tradicionais. A tecnologia aparece como a força que pode encerrar esse ciclo.
Livros que conversam com este
-
Sapiens Yuval Noah Harari
Sapiens conta como chegamos aqui; Homo Deus pergunta para onde vamos com o mesmo método.
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Rápido e Devagar Daniel Kahneman
Harari usa a distinção de Kahneman entre o eu que vive e o eu que narra para questionar o indivíduo.
-
O Gene Egoísta Richard Dawkins
A visão dos organismos como máquinas a serviço de informação está na base do dataísmo.
Cards para fixar
7 perguntas
- Quais são os três flagelos que, segundo Harari, a humanidade quase venceu?
- A fome, a peste e a guerra.
- Qual é a nova agenda humana proposta no livro?
- Imortalidade, felicidade e divindade, isto é, poderes antes atribuídos aos deuses.
- O que é o humanismo para Harari?
- Uma religião sem deuses que coloca os sentimentos e as escolhas humanas como fonte de sentido e autoridade.
- Quais são as três versões do humanismo?
- O humanismo liberal, o socialista e o evolucionista.
- O que é o dataísmo?
- A crença de que o universo é um fluxo de dados e de que o valor de cada coisa está na sua contribuição ao processamento de dados.
- O que Harari chama de classe inútil?
- Pessoas sem função econômica num mundo em que algoritmos fazem melhor o trabalho que elas faziam.
- Homo Deus faz previsões sobre o futuro?
- Não. Harari diz que apresenta possibilidades, para que possamos escolher diferente.
Aline Perez
Resumos de livros de não ficção
Escreve os resumos da estante Livros, extraindo a ideia central de obras que costumam ser mais citadas do que lidas. Escreve primeiro o que o livro afirma, depois o que ele não afirma e virou senso comum mesmo assim. A segunda lista costuma ser a mais longa.
Otávio Ribeiro
Resumos de história e ciências humanas
Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.