Resumo da Divina Comédia, de Dante
Por Rui Nakamura 10 min de leitura
Aviso de spoiler. Este resumo conta a história inteira, inclusive o final.
Em 30 segundos
A Divina Comédia narra, em primeira pessoa, uma viagem de Dante pelo além. Perdido numa selva escura aos 35 anos, ele é resgatado pelo poeta Virgílio, que o conduz pelo Inferno, um funil de nove círculos onde os pecadores recebem castigos que espelham suas culpas, até Lúcifer, preso no gelo do centro da Terra. Os dois saem do outro lado e sobem a montanha do Purgatório, onde as almas se purificam dos sete pecados capitais em terraços. No alto, Virgílio fica para trás e Beatriz, a mulher amada por Dante, o guia pelos céus do Paraíso até a visão final de Deus. São cem cantos, em italiano e não em latim, e o poema mistura teologia, política de Florença e figuras da antiguidade.
Quem é quem
- Dante
- Narrador e viajante, que percorre o além para reencontrar o caminho perdido.
- Virgílio
- Poeta romano, guia pelo Inferno e pelo Purgatório.
- Beatriz
- Mulher amada por Dante, que pede o socorro inicial e o guia pelo Paraíso.
- São Bernardo
- Guia da contemplação final, que pede à Virgem a visão de Deus para Dante.
- Francesca
- Condenada no círculo dos luxuriosos, que conta como se apaixonou por Paolo lendo um livro.
- Farinata
- Líder político florentino, entre os hereges, que discute com Dante a política da cidade.
- Ulisses
- Herói grego, entre os maus conselheiros, que narra sua última viagem além dos limites do mundo.
- Conde Ugolino
- Traidor preso no gelo, que conta a morte de fome com os filhos numa torre de Pisa.
- Lúcifer
- Anjo caído, preso no centro da Terra, com três faces.
- Catão
- Romano da república, guardião da praia ao pé da montanha do Purgatório.
O ponto de partida
O poema começa com um verso que virou referência: no meio do caminho da vida, o narrador se vê perdido numa selva escura. Na conta da época, a vida tinha setenta anos, e o meio dela são os trinta e cinco que Dante tinha em 1300, ano em que a viagem se passa.
Ele tenta subir uma colina iluminada pelo sol e é barrado por três feras, uma onça, um leão e uma loba. Quando está sendo empurrado de volta para a escuridão, aparece a sombra de Virgílio, o poeta da Eneida. Ele explica que foi enviado por Beatriz, a mulher que Dante amou, e que o único caminho para sair dali passa pelo além.
Dante escreveu o poema no exílio. Banido de Florença em 1302, nas disputas entre facções políticas, nunca mais voltou à cidade. Muitos dos inimigos e aliados dessa época aparecem no poema, colocados no Inferno, no Purgatório ou no Paraíso.
A forma
A obra tem cem cantos: um canto de abertura e trinta e três para cada parte, o que dá 34 no Inferno e 33 em cada uma das outras duas. O número três organiza tudo, inclusive o verso: Dante criou a terza rima, tercetos em que a rima do meio de uma estrofe comanda as rimas da seguinte, puxando o leitor para a frente.
Cada uma das três partes termina com a mesma palavra, estrelas.
Inferno
O Inferno é um funil aberto sob a terra, com círculos cada vez mais estreitos e pecados cada vez mais graves. Na porta, uma inscrição manda deixar toda a esperança.
A lógica dos castigos é o contrapasso: a pena reproduz, de forma simbólica, o próprio pecado.
Antes do primeiro círculo, ficam os indecisos, que nunca tomaram partido, correndo atrás de uma bandeira sem rumo. Depois:
- Limbo: pagãos virtuosos e crianças não batizadas, sem tormento, apenas sem esperança de ver Deus. É onde vivem Homero, Aristóteles e o próprio Virgílio.
- Luxuriosos: arrastados por um vendaval. Ali Dante ouve Francesca, que conta como ela e Paolo se apaixonaram lendo juntos uma história de amor.
- Gulosos: deitados na lama sob chuva fria e suja, vigiados por Cérbero.
- Avarentos e pródigos: empurram grandes pesos uns contra os outros.
- Irados: brigam no pântano do Estige.
Daí em diante começa a cidade de Dite, o baixo Inferno:
- Hereges: em túmulos ardentes. Ali está Farinata, líder florentino que discute com Dante a política da cidade.
- Violentos: contra o próximo, num rio de sangue fervente; contra si mesmos, os suicidas, transformados em árvores; contra Deus e a natureza, num deserto de areia com chuva de fogo.
- Fraudulentos: o círculo mais complexo, dividido em dez valas. Há sedutores, bajuladores, simoníacos, adivinhos, corruptos, hipócritas, ladrões, maus conselheiros, semeadores de discórdia e falsários. Entre os maus conselheiros está Ulisses, que narra uma última viagem, inventada por Dante, além dos limites do mundo conhecido.
- Traidores: presos no lago gelado do Cocito. O conde Ugolino conta como morreu de fome com os filhos numa torre. No centro está Lúcifer, com três faces, mastigando Judas, Bruto e Cássio.
Para sair, Dante e Virgílio descem pelo corpo de Lúcifer, atravessam o centro da Terra e sobem por uma passagem até o outro hemisfério, onde voltam a ver as estrelas.
Purgatório
O Purgatório é uma montanha numa ilha do hemisfério sul, no ponto oposto a Jerusalém. Na praia, o guardião é Catão, romano da república.
Ao contrário do Inferno, aqui há esperança: as almas sofrem, e sabem que vão sair. A primeira parte, o antepurgatório, reúne quem se arrependeu tarde e precisa esperar antes de começar.
Na porta, um anjo marca sete letras P na testa de Dante, uma para cada pecado. A montanha tem sete terraços, na ordem do mais grave para o mais leve:
- soberba;
- inveja;
- ira;
- preguiça espiritual;
- avareza;
- gula;
- luxúria.
A cada terraço vencido, um P é apagado, e a subida fica mais leve.
No topo está o Paraíso terrestre, o jardim perdido. É ali que Virgílio se despede: como pagão, não pode seguir adiante. Beatriz aparece numa procissão e recebe Dante com repreensões antes de acolhê-lo. Ele atravessa dois rios, um que apaga a memória dos pecados e outro que reaviva a do bem.
Paraíso
O Paraíso é uma subida pelos céus que giram em torno da Terra, conforme a astronomia da época: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, estrelas fixas e o primeiro móvel. Acima de todos está o Empíreo, fora do espaço e do tempo.
Em cada céu, as almas aparecem a Dante para que ele compreenda graus diferentes de bem-aventurança, embora todas estejam, na verdade, no Empíreo. Ele encontra teólogos, guerreiros da fé, governantes justos e contemplativos, e é examinado sobre fé, esperança e caridade.
No Empíreo, os bem-aventurados formam uma imensa rosa branca. Beatriz volta ao seu lugar entre eles, e São Bernardo assume a última etapa, pedindo à Virgem que conceda a Dante a visão de Deus. O poema termina quando a vontade de Dante passa a girar com o amor que move o sol e as outras estrelas.
O que a obra deixa
A Divina Comédia é ao mesmo tempo um mapa teológico da época, uma autobiografia espiritual e um acerto de contas político. Papas, reis e vizinhos de Florença aparecem julgados pelo autor, o que dá ao poema uma atualidade que surpreende quem espera só alegoria.
É também um marco da língua. Ao escrever uma obra desse tamanho em italiano, Dante mostrou que a língua falada servia para os assuntos mais altos, e o toscano do poema se tornou base do italiano literário.
E é uma continuação consciente da tradição épica: escolher Virgílio como guia é declarar de qual linhagem o poema quer descender.
O essencial para não se perder
- A estrutura em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso, com 34, 33 e 33 cantos.
- Os guias: Virgílio representa o que a razão humana alcança, e Beatriz o que depende da fé e da graça.
- O contrapasso, lógica em que o castigo de cada pecador espelha o próprio pecado.
- A geografia do Inferno em círculos cada vez mais graves, com a fraude e a traição no fundo.
- A escolha do italiano da Toscana em vez do latim e seu peso na formação da língua italiana.
- A presença de personagens reais da política de Florença e da Igreja espalhados pelo além.
Confusões que se espalharam
Dante chamou o poema de Divina Comédia
Dante o chamou de Comédia. Na terminologia da época, comédia era a obra que começa mal e termina bem, escrita em estilo mais simples e na língua do povo, o oposto da tragédia. O adjetivo divina veio depois: foi usado por Boccaccio em louvor ao poema e se fixou no título a partir de uma edição impressa em Veneza no século XVI.
O Inferno de Dante é o lugar do fogo eterno
O fogo aparece em alguns círculos, e o fundo do Inferno é gelo. No nono círculo, o dos traidores, os condenados estão presos num lago congelado, e Lúcifer está preso no centro, batendo as asas e produzindo o vento que mantém tudo congelado. A imagem é de imobilidade e frio, o extremo oposto do amor que move o resto do universo no poema.
Virgílio acompanha Dante até o Paraíso
Virgílio guia Dante pelo Inferno e pelo Purgatório e se despede no alto da montanha, no Paraíso terrestre. Como pagão, ele vive no Limbo e não pode entrar no Paraíso. Beatriz assume a condução a partir dali, e na visão final quem intercede é São Bernardo.
O Limbo é um lugar de tormento para quem não foi batizado
No poema, o Limbo é o primeiro círculo e não tem castigo físico. Ali estão crianças não batizadas e pagãos virtuosos, como Homero, Aristóteles e o próprio Virgílio, num lugar descrito com certa nobreza. A pena é a ausência: vivem no desejo de ver Deus sem esperança de alcançá-lo.
Beatriz é uma figura puramente alegórica
Beatriz tem um lado alegórico forte no poema, e a tradição a identifica com uma mulher real de Florença, Beatriz Portinari, que Dante conheceu na juventude e que morreu jovem. Ele já tinha escrito sobre ela na Vida Nova. O poema trabalha nos dois planos ao mesmo tempo, e escolher só um empobrece a leitura.
Teste sua memória
7 perguntas
- Como a obra está dividida?
- Em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso, com cem cantos no total: 34, 33 e 33.
- Quem guia Dante pelo Inferno?
- O poeta romano Virgílio, autor da Eneida, enviado a pedido de Beatriz.
- O que é o contrapasso?
- A correspondência entre pecado e castigo. Os luxuriosos, levados pela paixão em vida, são arrastados para sempre por um vento violento.
- Quem está no último círculo do Inferno?
- Os traidores, presos no gelo. No centro, Lúcifer mastiga Judas, Bruto e Cássio.
- Como é o Purgatório?
- Uma montanha numa ilha, com sete terraços, um para cada pecado capital, e o Paraíso terrestre no topo.
- Qual é a palavra final de cada uma das três partes?
- Estrelas. Inferno, Purgatório e Paraíso terminam com a mesma palavra.
- Por que a escolha da língua foi importante?
- Porque um poema dessa ambição escrito em italiano da Toscana, e não em latim, ajudou a firmar essa variedade como base da língua italiana.
Rui Nakamura
Resumos de mitologia e de narrativas longas
Escreve os resumos da estante Universos, mapeando panteões e histórias grandes demais para caber na memória. Monta a árvore genealógica e a linha do tempo antes de escrever uma linha. Se as duas não fecham, o resumo ainda não está pronto.