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Resumo dos doze trabalhos de Hércules

Por Rui Nakamura 10 min de leitura

Em 30 segundos

Héracles é filho de Zeus com a mortal Alcmena, e por isso perseguido a vida inteira por Hera. Num acesso de loucura provocado pela deusa, ele mata a própria esposa e os filhos. Para se purificar do crime, o oráculo de Delfos o manda servir Euristeu, rei de Micenas, e cumprir as tarefas que o rei impuser. Eram dez trabalhos, mas Euristeu anulou dois, alegando que Héracles recebeu ajuda em um e pagamento em outro, e acrescentou mais dois. Por isso são doze. A sequência vai de monstros locais no Peloponeso até os limites do mundo conhecido e, no último, ao próprio reino dos mortos.

Os doze trabalhos de Hércules organizados em duas etapas, do Peloponeso aos limites do mundo conhecido e ao reino dos mortos
Ilustração: resumode.com.br

Quem é quem

Héracles
O herói, chamado Hércules pelos romanos, filho de Zeus e da mortal Alcmena.
Zeus
Pai de Héracles.
Alcmena
Mãe mortal de Héracles.
Hera
Esposa de Zeus, que persegue Héracles desde o nascimento.
Euristeu
Rei que impõe os trabalhos a Héracles.
Iolau
Sobrinho e companheiro de Héracles, decisivo contra a Hidra.
Hidra
Serpente de muitas cabeças que renasciam quando cortadas.
Atlas
Titã que sustenta o céu e participa do episódio dos pomos de ouro.
Cérbero
Cão de várias cabeças que guarda o mundo dos mortos, alvo do último trabalho.

Como a história começa

Zeus se une à mortal Alcmena tomando a forma do marido dela, e desse encontro nasce Héracles. Hera, esposa de Zeus, passa então a persegui-lo desde o berço, onde envia duas serpentes que o bebê estrangula.

Adulto, Héracles se casa com Mégara e tem filhos. Hera lhe envia um acesso de loucura, e nele o herói mata a própria família. Recuperada a consciência e diante do que fez, ele procura o oráculo de Delfos.

A resposta do oráculo é a chave do mito: para se purificar, deve servir durante anos a Euristeu, rei de Micenas, e cumprir tudo o que este mandar. Euristeu é um rei medroso e mesquinho, primo de Héracles, e isso torna a humilhação parte do castigo.

Eram para ser dez tarefas. No fim foram doze, porque Euristeu anulou duas: a da Hidra, alegando que Héracles teve ajuda, e a dos estábulos, alegando que ele aceitou pagamento.

Os doze, na ordem tradicional

A sequência mais usada vem de Apolodoro. Repare que ela é geograficamente organizada: começa perto, no Peloponeso, e vai se afastando até sair do mundo dos vivos.

Primeira etapa: o Peloponeso

1. O Leão de Nemeia. Uma fera cuja pele nenhuma arma atravessa. Héracles descobre que precisa de força e não de lâmina, e o estrangula. Depois usa as próprias garras do animal para esfolá-lo e passa a vestir a pele, que se torna seu símbolo.

2. A Hidra de Lerna. Uma serpente de muitas cabeças, e cada cabeça cortada é substituída por duas. A solução exige método, não força: seu sobrinho Iolau cauteriza cada corte com fogo, impedindo o crescimento. A cabeça imortal é enterrada sob uma rocha. Héracles mergulha suas flechas no sangue venenoso, o que será decisivo no fim da sua própria vida. Trabalho anulado por causa da ajuda.

3. A Corça de Cerineia. Um animal sagrado de Ártemis, rápido demais para ser alcançado. A dificuldade não é matar, é capturar sem ferir e sem ofender a deusa. Héracles a persegue por um ano inteiro.

4. O Javali de Erimanto. Deve ser trazido vivo. Ele o exaure numa perseguição pela neve e o carrega nos ombros até Micenas, onde Euristeu se esconde dentro de um jarro de bronze de tanto medo.

5. Os estábulos de Áugias. Trinta anos de esterco acumulado de milhares de bois, para serem limpos em um único dia. A solução é de engenharia: desviar os rios Alfeu e Peneu para dentro dos estábulos. Trabalho anulado porque ele cobrou pagamento.

6. As Aves do Estínfalo. Bandos de aves com penas de bronze. Héracles usa um chocalho de bronze feito por Hefesto para espantá-las do pântano e as abate em voo.

Segunda etapa: o mundo conhecido e o além

7. O Touro de Creta. Um touro enfurecido que devastava a ilha. Capturado e levado vivo, é depois solto e reaparece em outro mito, o de Teseu.

8. As Éguas de Diomedes. Cavalos alimentados com carne humana pelo rei da Trácia. Héracles resolve a questão com a lógica implacável do mito: dá o próprio Diomedes às éguas e elas se acalmam.

9. O cinturão de Hipólita. A rainha das amazonas concorda em entregar o cinturão pacificamente. Hera espalha o boato de que Héracles pretende raptá-la, as amazonas atacam, e o que seria negociação vira massacre.

10. O gado de Gerião. Um gigante de três corpos que vive no extremo ocidente. Para chegar lá, Héracles atravessa territórios desconhecidos e, segundo a tradição, abre o estreito de Gibraltar, cujos dois rochedos ficaram conhecidos como as Colunas de Hércules.

11. Os pomos das Hespérides. Maçãs de ouro guardadas por um dragão de cem cabeças, num jardim no fim do mundo. Em uma das versões, Héracles pede a Atlas que as colha enquanto ele sustenta o céu no lugar do titã. Atlas volta com os pomos e propõe não retomar a carga; Héracles concorda e apenas pede que segure um instante para ajeitar o manto no ombro. Atlas aceita, e o herói vai embora.

12. Cérbero. Descer ao mundo dos mortos e trazer à superfície o cão de três cabeças, sem usar armas, com a autorização de Hades. É o único trabalho que ultrapassa a fronteira entre vivos e mortos, e por isso fecha a série.

Por que essa ordem importa

A progressão não é aleatória, e perceber isso costuma render a melhor resposta em uma questão dissertativa.

  • Os seis primeiros acontecem no Peloponeso, território grego conhecido. São feras locais.
  • Os seis últimos saem da Grécia: Creta, Trácia, terra das amazonas, extremo ocidente, fim do mundo e, por último, o reino dos mortos.

O herói vai ampliando o alcance até esgotar o mapa. Quando não sobra mais mundo para percorrer, só resta descer ao que fica embaixo dele. É uma estrutura de esgotamento do espaço conhecido.

Também muda o tipo de problema: os primeiros exigem força e coragem; os do meio exigem astúcia, técnica ou paciência; os últimos exigem negociação com poderes maiores, inclusive com deuses.

O que os trabalhos dizem

A leitura mais antiga é a mais simples: são histórias de fundação, ligadas a lugares reais, que explicam por que tal cidade tem tal santuário e por que tal acidente geográfico existe.

Uma segunda leitura, já presente na Antiguidade, vê ali um percurso de expiação. Héracles cometeu o crime mais grave imaginável dentro da lógica grega, matar os próprios filhos, e nenhum sacrifício comum bastaria. O que o redime é uma sucessão de serviços prestados à comunidade: livrar regiões de monstros, limpar o que estava sujo, trazer de volta o que estava perdido.

E há uma terceira camada, que explica a permanência do mito: Héracles é filho de um deus e continua sendo um mortal sujeito a erro, humilhação e dor. Ele não vence por ser perfeito. Vence por não parar.

Como a história termina

Os doze trabalhos não são o fim. Depois deles, Héracles participa de guerras, se casa de novo com Dejanira e vive outras aventuras.

O desfecho fecha um círculo que começou no segundo trabalho. O centauro Nesso, ferido de morte por uma flecha embebida no sangue da Hidra, convence Dejanira de que seu sangue serve como filtro de amor. Anos depois, temendo perder o marido, ela impregna uma túnica com aquele sangue e a envia a Héracles. O veneno da Hidra o queima por dentro e nenhuma força resolve.

Sem saída, ele monta a própria pira funerária. A parte mortal queima; a parte divina sobe ao Olimpo, onde finalmente se reconcilia com Hera.

O veneno que o mata é o mesmo que ele recolheu no trabalho anulado. É a espécie de simetria que a mitologia grega faz melhor do que qualquer outra.

O essencial para não se perder

  1. O motivo dos trabalhos: purificação pelo assassinato da família, cometido sob loucura enviada por Hera.
  2. A razão de serem doze e não dez, com a anulação da Hidra e dos estábulos de Áugias por Euristeu.
  3. A ordem tradicional e a progressão geográfica, que sai do Peloponeso e chega ao fim do mundo e ao Hades.
  4. Os trabalhos mais cobrados isoladamente: Leão de Nemeia, Hidra de Lerna, Pomos das Hespérides e Cérbero.
  5. A diferença entre o nome grego Héracles e o romano Hércules, e a ironia de o nome significar glória de Hera.

Confusões que se espalharam

Chamar o herói de Hércules ao falar dos mitos gregos

Héracles é o nome grego; Hércules é a forma latina. Em contexto de mitologia grega, o correto é Héracles, embora Hércules seja o nome consagrado em português. Há ainda uma ironia que a prova adora: Héracles significa glória de Hera, justamente a deusa que passa a vida tentando destruí-lo.

Hera foi quem impôs os doze trabalhos a Héracles

Hera provocou a loucura, mas quem determina a servidão é o oráculo de Delfos, como forma de purificação pelo crime, e quem define as tarefas é Euristeu. A distinção entre causa do crime, sentença religiosa e autoridade que ordena costuma ser exatamente o que se pede.

Afirmar que a lista dos doze é fixa em todas as fontes

A ordem e alguns detalhes variam entre autores. A sequência mais usada vem de Apolodoro, mas há divergências sobre a posição do cinturão de Hipólita e sobre o que exatamente acontece nas Hespérides, onde em algumas versões é Atlas quem colhe os pomos enquanto Héracles sustenta o céu.

Os doze trabalhos são a história de Héracles

Os trabalhos são um episódio dentro de uma biografia muito maior, que inclui a participação na expedição dos Argonautas, guerras, casamentos e a morte por causa da túnica envenenada enviada por Dejanira. O ciclo dos doze é o mais famoso, não o único.

Teste sua memória

6 perguntas

Por que Héracles teve de cumprir os trabalhos?
Para se purificar de ter matado a própria esposa e os filhos num acesso de loucura enviado por Hera. O oráculo de Delfos determinou que servisse a Euristeu.
Por que os trabalhos são doze e não dez?
Euristeu anulou dois: a Hidra, porque Héracles teve ajuda de Iolau, e os estábulos de Áugias, porque ele cobrou pagamento. Dois novos foram acrescentados.
Qual foi o primeiro trabalho e qual a dificuldade?
Matar o Leão de Nemeia, cuja pele era imune a armas. Héracles o estrangulou e passou a usar a pele como armadura.
Como Héracles venceu a Hidra de Lerna?
Com ajuda de Iolau, que cauterizava cada pescoço decepado para impedir que duas cabeças nascessem no lugar. A cabeça imortal foi enterrada sob uma rocha.
Como ele limpou os estábulos de Áugias em um dia?
Desviando o curso dos rios Alfeu e Peneu para dentro dos estábulos.
Qual foi o último trabalho?
Capturar Cérbero, o cão de três cabeças que guarda o mundo dos mortos, e trazê-lo vivo à superfície sem usar armas.

Rui Nakamura

Resumos de mitologia e de narrativas longas

Escreve os resumos da estante Universos, mapeando panteões e histórias grandes demais para caber na memória. Monta a árvore genealógica e a linha do tempo antes de escrever uma linha. Se as duas não fecham, o resumo ainda não está pronto.

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