Resumo de As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis
Por Rui Nakamura 11 min de leitura
Aviso de spoiler. Este resumo conta a história inteira, inclusive o final.
Em 30 segundos
As Crônicas de Nárnia são sete livros curtos sobre crianças do nosso mundo que atravessam para uma terra onde os animais falam e um leão chamado Aslam é a autoridade maior. O mais conhecido começa com quatro irmãos mandados para o campo durante a guerra: a caçula encontra uma passagem no fundo de um guarda-roupa e chega a um lugar preso num inverno de cem anos, imposto por uma feiticeira. Os quatro acabam envolvidos na queda dela e reinam por muitos anos, até voltarem pelo mesmo caminho e descobrirem que, do lado de cá, quase nenhum tempo passou. Os outros seis livros percorrem épocas diferentes daquele mundo, da criação até o fim, quase sempre com personagens novos e alguns reencontros.
Quem é quem
- Lúcia
- A irmã caçula, primeira a atravessar o guarda-roupa e a única a ser acreditada só no fim.
- Edmundo
- O irmão que se alia à feiticeira em troca de promessas e depois é resgatado por Aslam.
- Pedro
- O mais velho dos quatro, que assume a liderança na batalha e é coroado rei supremo.
- Susana
- A irmã prudente, que duvida das aventuras e, no último livro, já não se conta entre os amigos daquele mundo.
- Aslam
- O leão que criou Nárnia e reaparece nos momentos decisivos, sem governar no dia a dia.
- A Feiticeira Branca
- Também chamada Jadis, mantém o país sob inverno perpétuo e petrifica quem a enfrenta.
- Tumnus
- O fauno que encontra Lúcia na primeira travessia e desobedece à ordem de entregá-la.
- Caspian
- Príncipe herdeiro de um povo invasor, que se alia aos antigos narnianos para retomar o trono.
- Eustáquio
- Primo insuportável dos quatro, transformado em dragão e devolvido à forma humana por Aslam.
Duas ordens, e a briga que nunca acaba
Lewis publicou os sete livros entre 1950 e 1956, na ordem em que os escreveu. Só que a história que eles contam não acontece nessa sequência: um dos últimos a ser escrito narra a criação daquele mundo, e outro se passa dentro do período coberto pelo primeiro.
| Ordem de publicação | Ordem interna da história |
|---|---|
| O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa | O Sobrinho do Mago |
| Príncipe Caspian | O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa |
| A Viagem do Peregrino da Alvorada | O Cavalo e seu Menino |
| A Cadeira de Prata | Príncipe Caspian |
| O Cavalo e seu Menino | A Viagem do Peregrino da Alvorada |
| O Sobrinho do Mago | A Cadeira de Prata |
| A Última Batalha | A Última Batalha |
As edições mudaram de posição ao longo das décadas, e hoje a numeração impressa costuma seguir a coluna da direita. Lewis chegou a comentar, respondendo a um leitor, que talvez a ordem cronológica fosse preferível, sem dar ao assunto grande importância.
A diferença prática é de experiência. Começando pela publicação, o guarda-roupa é um enigma e a origem do mundo é revelada no fim. Começando pela cronologia, o leitor sabe de antemão o que a primeira geração de personagens levou o livro inteiro para descobrir.
O livro que abriu tudo
Quatro irmãos são enviados para uma casa de campo durante a guerra, longe dos bombardeios na cidade. Brincando de esconde-esconde, a caçula entra num guarda-roupa, sente pinheiros no lugar dos casacos e sai numa floresta nevada, ao lado de um poste de iluminação aceso.
Ali ela conhece o fauno Tumnus, que confessa ter recebido ordens de entregar qualquer humano à Feiticeira Branca. Ela governa há cem anos, mantém o país num inverno permanente em que nunca chega o Natal, e transforma em estátua quem a contraria.
Ninguém acredita em Lúcia quando ela volta. Depois, Edmundo também atravessa, encontra a feiticeira sozinho e aceita dela um doce encantado e a promessa de ser feito rei, com a condição de trazer os irmãos. Quando os quatro finalmente entram juntos, ele já está comprometido.
O que os espera é uma profecia: quando dois filhos de Adão e duas filhas de Eva ocuparem os quatro tronos da capital, o reinado da feiticeira acaba. E o inverno começa a ceder, sinal de que Aslam está a caminho.
A Mesa de Pedra
Edmundo se arrepende e é recuperado pelos aliados, mas a feiticeira reivindica o direito sobre a vida do traidor, amparada numa lei antiga daquele mundo.
Aslam negocia com ela em particular e oferece a própria vida no lugar. Naquela noite, diante do exército dela, é amarrado, humilhado, tosquiado e morto sobre a Mesa de Pedra, com as duas irmãs escondidas assistindo a tudo.
Na manhã seguinte, a mesa está partida ao meio e ele está vivo. A explicação que dá às meninas é que existe uma lei ainda mais antiga, que a feiticeira não conhecia: quando alguém sem culpa se entrega no lugar de um condenado, a morte trabalha ao contrário.
Ele então percorre o castelo da feiticeira soprando sobre as estátuas, que voltam a ser criaturas vivas e seguem para a batalha. Vencida a guerra, os quatro irmãos são coroados em Cair Paravel e reinam por muitos anos, até que, já adultos, perseguem um cervo branco, reencontram o poste e atravessam de volta, crianças de novo, no mesmo instante em que tinham saído.
Os outros cinco
| Livro | O que acontece |
|---|---|
| Príncipe Caspian | Os quatro voltam mais de mil anos depois, quando Nárnia foi tomada por um povo que expulsou as criaturas falantes, e ajudam o herdeiro legítimo a recuperar o trono |
| A Viagem do Peregrino da Alvorada | Uma expedição marítima rumo ao limite oriental do mundo, à procura de nobres desaparecidos, com Lúcia, Edmundo e o primo Eustáquio a bordo |
| A Cadeira de Prata | Eustáquio e uma colega de escola são enviados a procurar um príncipe sequestrado, numa jornada por terras do norte e por um reino subterrâneo |
| O Cavalo e seu Menino | Passa-se durante o reinado dos quatro irmãos e acompanha um menino criado num país ao sul, que foge para o norte com um cavalo falante |
| O Sobrinho do Mago | Volta ao começo: duas crianças, anéis mágicos, a descoberta de um mundo agonizante, o despertar da feiticeira e a criação de Nárnia, cantada por Aslam |
A Última Batalha fecha a série. Um macaco convence um burro a vestir uma pele de leão e passa a governar em nome de um falso Aslam, vendendo o trabalho das criaturas falantes a um império estrangeiro. A fraude descamba em guerra, o rei é derrotado, e aquele mundo chega ao fim, com as estrelas caindo e a porta se fechando. Os personagens atravessam para uma versão maior e mais viva do mesmo lugar, onde tudo o que amaram continua existindo.
Transformações
Um motivo atravessa os sete livros: o corpo muda conforme o que a pessoa se torna.
A feiticeira transforma inimigos em pedra, e o retorno deles à vida é a imagem mais forte do primeiro livro. Eustáquio, ganancioso e mesquinho, adormece sobre um tesouro e acorda dragão, preso numa forma que é o retrato exato de seu comportamento; para voltar, precisa aceitar que outro lhe arranque a pele, porque as camadas que ele mesmo tira crescem de novo. Em outro livro, um personagem se transforma em algo pior, e noutro um animal comum é elevado à condição de falante.
Nárnia não trata a transformação como truque mágico: ela funciona como revelação do que já estava ali.
Susana
O ponto mais discutido da série está no último volume. Todos os personagens humanos reaparecem, menos Susana, de quem se diz que não é mais amiga de Nárnia: passou a considerar aquilo brincadeira de criança e se interessa por convites, meias de náilon e batom.
A passagem incomodou leitores desde o início, e escritores posteriores a criticaram abertamente, entendendo que a personagem foi descartada por crescer. Leitores em sentido contrário observam que Lewis não a declara condenada, apenas ausente naquele momento, e que ele mesmo escreveu, em resposta a uma criança, que a história dela não estava necessariamente encerrada.
Vale ler a cena e formar opinião própria: são poucos parágrafos, e eles decidem boa parte de como a série inteira é lembrada.
Uma nota sobre os nomes
As traduções variam. No original, os irmãos são Peter, Susan, Edmund e Lucy, o leão é Aslan e a capital é Cair Paravel. As edições brasileiras costumam usar Pedro, Susana, Edmundo, Lúcia e Aslam. Se um nome não bater com o da sua edição, é quase sempre isso.
O essencial para não se perder
- A diferença entre a ordem de publicação e a ordem cronológica interna, que muda por onde se começa a ler.
- O enredo de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, que é a porta de entrada da série.
- O funcionamento do tempo: anos em Nárnia podem corresponder a minutos no nosso mundo.
- Quem é Aslam e por que ele aparece pouco em cada livro.
- O que acontece em cada um dos sete volumes, em uma frase.
- O destino de Susana no último livro, ponto mais discutido da série.
Confusões que se espalharam
A ordem certa de leitura é aquela numerada nas edições atuais
Não existe uma ordem única e pacífica. Os livros foram publicados numa sequência e as edições mais recentes costumam numerá-los pela cronologia interna da história, o que faz O Sobrinho do Mago, escrito em sexto lugar, aparecer como volume um. Lewis chegou a responder a um leitor que talvez a ordem cronológica fosse melhor, sem tratar o assunto como questão importante. Quem começa pela publicação encontra o guarda-roupa como mistério; quem começa pela cronologia já sabe de onde ele veio.
Nárnia é uma alegoria, com cada personagem representando uma figura específica
O próprio autor recusava o termo alegoria e usava outra palavra: suposição. A pergunta que ele dizia ter feito a si mesmo era o que aconteceria se existisse um mundo como aquele e o que se passaria lá. Lewis era cristão e não escondia isso, e a diferença importa para a leitura: alegoria exige correspondência item a item, e nesses livros ela não se sustenta, porque personagens e episódios funcionam primeiro dentro da própria história.
O tempo passa igual nos dois mundos
Essa é a regra que mais confunde quem lê fora de ordem. Os irmãos reinam por muitos anos e voltam crianças, no mesmo instante em que saíram. No livro seguinte, um ano do nosso mundo corresponde a mais de mil anos de lá, e por isso eles retornam a um país que já os considera lenda antiga. Não há conversão fixa entre as duas linhas de tempo, e o próprio texto diz que ninguém pode prever quanto terá passado.
Aslam é apenas o rei de Nárnia, uma espécie de líder local
Ele não governa no sentido administrativo e não mora ali: aparece, resolve, desaparece, e os personagens repetem que não é um leão domesticado. Os tronos são ocupados por humanos, e a autoridade dele é de outra ordem. Tratá-lo como personagem político deixa sem explicação tanto suas ausências longas quanto o peso que sua presença tem em cada livro.
Todos os sete livros contam a história dos mesmos irmãos
Apenas dois volumes têm os quatro como protagonistas. Depois disso a série troca de elenco com frequência: entram um primo, uma colega de escola, um menino criado em outro país e, num dos livros, os quatro nem aparecem. O elemento de continuidade é o mundo e o leão, não o grupo de personagens.
Teste sua memória
7 perguntas
- Quantos livros formam a série e quando foram publicados?
- Sete, publicados entre 1950 e 1956, escritos em ordem diferente daquela em que a história acontece.
- Como as crianças chegam a Nárnia no primeiro livro publicado?
- Pelo fundo de um guarda-roupa, na casa de campo de um professor, para onde tinham sido enviadas durante a guerra.
- O que a Feiticeira Branca fez com Nárnia?
- Impôs um inverno de cem anos, em que era sempre inverno e nunca Natal, e transformava seus inimigos em estátuas de pedra.
- Como Edmundo se volta contra os irmãos?
- Seduzido por um doce encantado e pela promessa de ser feito rei pela feiticeira, ele entrega a informação de que os quatro estão em Nárnia.
- O que acontece na Mesa de Pedra?
- Aslam se entrega no lugar de Edmundo e é morto pela feiticeira, e volta à vida na manhã seguinte, quando a mesa se parte ao meio.
- Qual é o primeiro livro na cronologia interna?
- O Sobrinho do Mago, que narra a criação de Nárnia e explica a origem do guarda-roupa e da feiticeira.
- O que acontece com Susana no último livro?
- Ela deixa de ser contada entre os amigos de Nárnia, por ter passado a tratar tudo aquilo como brincadeira de infância.
Rui Nakamura
Resumos de mitologia e de narrativas longas
Escreve os resumos da estante Universos, mapeando panteões e histórias grandes demais para caber na memória. Monta a árvore genealógica e a linha do tempo antes de escrever uma linha. Se as duas não fecham, o resumo ainda não está pronto.