Resumo de A Revolução dos Bichos, de George Orwell
Por Beatriz Amaral e Otávio Ribeiro 9 min de leitura
Em 30 segundos
A Revolução dos Bichos é uma fábula de George Orwell, de 1945. Inspirados pelo sonho do velho porco Major, os animais da Granja do Solar expulsam o fazendeiro Jones e criam a Granja dos Bichos, com sete mandamentos que terminam em todos os animais são iguais. Os porcos, mais espertos, assumem o comando. Napoleão expulsa o rival Bola-de-Neve com cães treinados, culpa-o por todos os problemas e governa pelo medo, com a propaganda do porco Garganta. Os mandamentos são reescritos às escondidas, o cavalo Sansão trabalha até cair e é vendido ao matadouro. No fim, os porcos andam em duas patas e jogam cartas com os humanos, e os outros bichos já não conseguem distinguir porco de homem. É uma alegoria da Revolução Russa traída pelo stalinismo.
Uma fábula com alvo certo
George Orwell terminou A Revolução dos Bichos em 1944, durante a Segunda Guerra, quando a União Soviética era aliada da Inglaterra contra Hitler. Vários editores recusaram o livro para não ofender um aliado. Saiu em 1945 e foi um sucesso imediato. O subtítulo original é “uma história de fadas”, e a forma de fábula, com animais falantes, deixa a sátira simples de seguir e difícil de esquecer.
O alvo é a Revolução Russa de 1917 e o que veio depois dela sob Stálin: a promessa de igualdade transformada em uma ditadura de nova elite. Orwell, socialista, queria mostrar como uma revolução pode ser traída por quem a lidera.
O sonho de Major e a revolta
Na Granja do Solar, do fazendeiro Jones, o velho porco Major reúne os animais e conta um sonho: um mundo sem homens, em que os bichos ficariam com o fruto do próprio trabalho. Ensina a eles a canção Bichos da Inglaterra. Major morre três dias depois.
Os porcos, considerados os mais inteligentes, organizam as ideias de Major numa doutrina, o animalismo. Pouco depois, Jones esquece de alimentar os bichos, eles arrombam o depósito e expulsam o fazendeiro e seus empregados. A granja passa a se chamar Granja dos Bichos, e os porcos pintam na parede do celeiro os sete mandamentos:
- Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
- Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
- Nenhum animal usará roupa.
- Nenhum animal dormirá em cama.
- Nenhum animal beberá álcool.
- Nenhum animal matará outro animal.
- Todos os animais são iguais.
Para os bichos que não conseguem decorar tudo, a doutrina é resumida no lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, que as ovelhas repetem sem parar.
Napoleão contra Bola-de-Neve
Dois porcos disputam a liderança. Bola-de-Neve é brilhante, faz discursos, organiza comitês e comanda a defesa na Batalha do Estábulo, quando Jones tenta retomar a granja. Propõe construir um moinho de vento que geraria energia e reduziria o trabalho.
Napoleão fala pouco e age nos bastidores. Desde cedo separa os filhotes de uma cadela e os cria em segredo. No dia da votação sobre o moinho, solta nove cães enormes, que perseguem Bola-de-Neve até expulsá-lo da granja. As assembleias acabam; as decisões passam a ser tomadas por um comitê de porcos.
Dias depois, Napoleão anuncia que o moinho será construído, como se a ideia fosse sua. Bola-de-Neve vira o inimigo oficial: qualquer desastre, uma colheita ruim, o moinho derrubado por uma tempestade, é atribuído a sabotagens dele.
Garganta e os mandamentos reescritos
O porco Garganta é o porta-voz de Napoleão, capaz, diz o narrador, de convencer que preto é branco. A cada privilégio dos porcos, ele tem uma explicação: os porcos ficam com o leite e as maçãs porque são os cérebros da granja, e se falharem Jones voltará.
Os mandamentos começam a mudar às escondidas, à noite:
| Original | Reescrito |
|---|---|
| Nenhum animal dormirá em cama. | Nenhum animal dormirá em cama com lençóis. |
| Nenhum animal beberá álcool. | Nenhum animal beberá álcool em excesso. |
| Nenhum animal matará outro animal. | Nenhum animal matará outro animal sem motivo. |
Quando os bichos estranham, Garganta garante que sempre esteve escrito assim, e eles, sem registro próprio, acreditam que lembram mal.
O terror e Sansão
Napoleão promove confissões públicas: galinhas que resistiram a entregar os ovos e porcos que questionaram decisões confessam ligação com Bola-de-Neve e são mortos pelos cães na frente de todos. A cena remete aos processos de Moscou, em que antigos revolucionários confessaram crimes improváveis antes de serem executados. A canção Bichos da Inglaterra é proibida.
O cavalo Sansão é o trabalhador mais dedicado da granja. Seus lemas são “Trabalharei mais ainda” e “Napoleão tem sempre razão”. Quando se machuca e não consegue mais trabalhar, os porcos dizem que vão levá-lo a um hospital. Uma carroça vem buscá-lo; o burro Benjamim, que sabe ler, vê escrito nela o nome de um matadouro de cavalos. É tarde. Garganta conta que Sansão morreu num hospital agradecendo a Napoleão. Pouco depois os porcos compram uma caixa de uísque.
O final
Os anos passam. Poucos bichos ainda lembram da revolução. Um dia, os outros animais veem Garganta andando sobre duas patas, e logo depois Napoleão, com um chicote. As ovelhas, treinadas, passam a balir “Quatro pernas bom, duas pernas melhor”. Na parede do celeiro, sobra um mandamento só:
Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros.
Os porcos vestem roupas, leem jornais e recebem fazendeiros vizinhos para jogar cartas. Napoleão anuncia que a granja voltará a se chamar Granja do Solar. A partida termina em briga, e os bichos, espiando pela janela, olham de porco para homem e de homem para porco, e já não conseguem dizer qual é qual.
A alegoria personagem a personagem
| Personagem | Representa |
|---|---|
| Jones | O czar Nicolau II e o antigo regime |
| Major | Marx e Lênin, as ideias que inspiram a revolução |
| Napoleão | Stálin |
| Bola-de-Neve | Trótski, expulso e transformado em inimigo |
| Garganta | A propaganda oficial |
| Os cães | A polícia política |
| Sansão | A classe trabalhadora leal |
| As ovelhas | A massa que repete slogans |
| Benjamim | O cético que entende tudo e não age |
| Moisés, o corvo | A religião, que promete a Montanha de Açúcar-Cande depois da morte |
| Pilkington e Frederick | As potências vizinhas, Inglaterra e Alemanha |
Por que a revolução se corrompe
A pergunta central não é se a revolução era justa, mas como ela foi corrompida: pelo controle da informação, pela reescrita das regras, pelo medo e pela passividade de quem confia demais nos líderes. Benjamim sabe ler e entende o que acontece, mas não faz nada até ser tarde.
Quatro anos depois, Orwell levaria o mesmo problema ao limite em 1984, em que o regime controla não só as regras, mas a língua e a memória. A teoria da revolução que o livro satiriza está em Karl Marx; a ideia do poder conquistado e mantido pela força e pela aparência, em O Príncipe.
O que costuma cair
- A alegoria da Revolução Russa: Major como Marx e Lênin, Napoleão como Stálin, Bola-de-Neve como Trótski, Jones como o czar.
- A reescrita dos sete mandamentos como mecanismo de poder, até a frase final sobre os animais mais iguais que outros.
- Garganta e a propaganda: a manipulação da linguagem e da memória para justificar cada privilégio.
- Sansão como a classe trabalhadora leal e explorada, com seus lemas trabalharei mais ainda e Napoleão tem sempre razão.
- O final: porcos e homens se tornam indistinguíveis, a revolução reproduz a opressão que derrubou.
- A relação com 1984, do mesmo autor, que leva o controle da verdade e da língua ao extremo.
Onde quase todo mundo erra
O livro é uma crítica ao socialismo e defende o sistema dos fazendeiros
Orwell era socialista democrático e se dizia contra o totalitarismo. O livro critica a traição de uma revolução por uma nova elite, e o fazendeiro Jones não é apresentado como alternativa: é bêbado e negligente. O final mostra porcos e humanos iguais, isto é, a nova tirania se confundindo com a antiga.
Bola-de-Neve era o vilão, como diz Napoleão
Bola-de-Neve lutou na Batalha do Estábulo e propôs o moinho de vento. Napoleão o expulsa com os cães, rouba a ideia do moinho e passa a culpá-lo por tudo, de colheitas ruins a sabotagens imaginárias. É a imagem de Trótski transformado em inimigo oficial.
Os mandamentos foram trocados de uma vez, numa votação
As mudanças são feitas às escondidas, à noite, com uma ou duas palavras acrescentadas: nenhum animal dormirá em cama com lençóis, nenhum animal matará outro sem motivo. Quando os bichos estranham, Garganta convence-os de que estão lembrando errado. É a falsificação do passado que reaparece em 1984.
Sansão foi levado ao hospital veterinário, como os porcos disseram
A carroça que leva Sansão é de um matadouro de cavalos, e Benjamim lê a inscrição. Garganta inventa que a carroça tinha sido comprada por um veterinário. Pouco depois, os porcos aparecem com dinheiro para comprar uísque.
Cards de revisão
7 perguntas
- Quem é o velho Major?
- O porco premiado que sonha com uma revolução dos animais e morre antes dela; representa Marx e Lênin.
- Quem Napoleão e Bola-de-Neve representam?
- Napoleão representa Stálin; Bola-de-Neve, Trótski.
- Qual o papel de Garganta?
- É o porco porta-voz, que justifica cada decisão de Napoleão e convence os bichos de que estão lembrando errado.
- Quais são os lemas de Sansão?
- Trabalharei mais ainda e Napoleão tem sempre razão.
- Qual era o sétimo mandamento no início?
- Todos os animais são iguais.
- Em que ele se transforma no fim?
- Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros.
- O que os bichos veem na cena final?
- Os bichos olham de porco para homem e de homem para porco e não conseguem mais dizer quem é quem.
Beatriz Amaral
Coordenação editorial e resumos de literatura e língua portuguesa
Coordena a linha editorial do site e escreve os resumos de obras literárias. Lê a obra inteira antes de escrever, monta o esqueleto da narrativa em um diagrama e só depois redige. Se o diagrama não fecha, o resumo ainda não está pronto.
Otávio Ribeiro
Resumos de história e ciências humanas
Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.