Resumo de urbanização brasileira
Por Otávio Ribeiro 11 min de leitura
Em 30 segundos
O Brasil deixou de ser um país majoritariamente rural em poucas décadas. Até meados do século XX, a maior parte da população vivia no campo; entre os censos de 1960 e 1970, a população urbana passou a ser maioria, e hoje a grande maioria mora em cidades. Dois motores explicam a virada: a industrialização concentrada no Sudeste, que atraía trabalhadores, e o êxodo rural, empurrado pela concentração de terras, pela mecanização do campo e pelas secas. O resultado foi uma urbanização rápida e concentrada, que produziu metrópoles enormes antes de produzir empregos formais, moradia e infraestrutura para todos. Daí vêm os conceitos que a prova cobra: metropolização, periferização, favelização, conurbação e segregação socioespacial.
O que exatamente se chama de urbanização
Antes de tudo, o conceito, porque é nele que mora a pegadinha mais frequente.
Crescimento urbano é o aumento da população das cidades. Urbanização é o aumento da proporção de pessoas que vivem em áreas urbanas em relação à população total. A medida é a taxa de urbanização, uma porcentagem.
A diferença importa. Se campo e cidade crescessem juntos na mesma velocidade, as cidades estariam crescendo e o país não estaria se urbanizando. O que aconteceu no Brasil foi outra coisa: as cidades cresceram muito, o campo perdeu gente, e a proporção virou em poucas décadas.
Do país rural ao país urbano
Durante a maior parte da história brasileira, a economia se organizou em torno da exportação de produtos agrícolas e minerais, e a população vivia no campo. As cidades eram sobretudo portos e centros administrativos.
Isso começa a mudar a partir dos anos 1930 e se acelera no pós-guerra, com a industrialização. O Estado passa a investir em indústria de base, energia e transporte, e a produção industrial se concentra no Sudeste, sobretudo em São Paulo.
A virada numérica acontece entre 1960 e 1970: pela primeira vez, a população urbana supera a rural. Nas décadas seguintes o processo continua, e já no censo de 2010 a população urbana passava de oito em cada dez brasileiros.
A comparação com os países que se industrializaram primeiro ajuda a entender a escala. O que levou mais de um século em partes da Europa aconteceu no Brasil em poucas décadas.
Por que as pessoas saíram do campo
O êxodo rural é explicado pela combinação de dois conjuntos de fatores.
Fatores de expulsão, no campo:
- Concentração fundiária. Grande parte das terras nas mãos de poucos proprietários, com muitos trabalhadores sem terra própria.
- Modernização da agricultura. Tratores, colheitadeiras e novas técnicas aumentaram a produção e dispensaram mão de obra.
- Secas prolongadas, especialmente no semiárido nordestino.
- Falta de acesso a crédito, assistência técnica, escola e saúde.
Fatores de atração, na cidade:
- Oferta de emprego na indústria e na construção civil, concentrada no Sudeste.
- Salários mais altos do que os pagos no campo, ainda que baixos.
- Acesso a serviços como escola, hospital e comércio.
- Redes de migração: quem já tinha ido abria caminho para parentes e vizinhos.
Os dois conjuntos funcionam juntos. Nenhum sozinho explica a velocidade do processo.
Uma urbanização rápida e concentrada
As características que tornam a urbanização brasileira particular são duas.
A rapidez. A população chegou às cidades mais depressa do que as cidades conseguiam oferecer emprego formal, moradia, transporte e saneamento. A diferença foi absorvida pela informalidade: trabalho sem carteira, loteamento irregular, casa construída pelo próprio morador ao longo de anos.
A concentração. O fluxo não se distribuiu pelo país. Dirigiu-se sobretudo a poucas metrópoles, com São Paulo e Rio de Janeiro no topo. Surge assim o que se chama de macrocefalia urbana: uma rede em que poucas cidades são desproporcionalmente maiores do que todas as outras.
Os conceitos que explicam a cidade resultante
Metropolização. Formação de regiões metropolitanas, em que uma cidade principal polariza municípios vizinhos, que passam a funcionar como uma unidade: gente que mora em uma cidade e trabalha em outra, serviços compartilhados, trânsito diário.
Conurbação. Encontro físico das manchas urbanas de cidades diferentes, que passam a formar um tecido contínuo. Quem atravessa não percebe onde termina um município e começa outro.
Megalópole. Conjunto de metrópoles interligadas por fluxos intensos. O eixo entre São Paulo e Rio de Janeiro é o exemplo brasileiro mais citado.
Periferização. A população de menor renda ocupa as bordas da cidade, onde a terra é mais barata, longe dos empregos e com pouca infraestrutura. O custo aparece em horas diárias de deslocamento.
Favelização. Ocupação de áreas não regularizadas, frequentemente em encostas, várzeas ou terrenos públicos, com moradia autoconstruída. Não é fenômeno recente: há ocupações desse tipo no Rio de Janeiro desde o fim do século XIX, mas o processo se multiplicou com a urbanização acelerada.
Segregação socioespacial. A separação dos grupos sociais no espaço conforme a renda. De um lado, bairros com serviços completos e, no extremo, condomínios fechados; de outro, áreas com acesso precário a tudo. É o conceito que amarra os anteriores.
Os problemas urbanos como consequência
A prova costuma apresentar os problemas urbanos em lista, mas eles fazem mais sentido como consequência do processo descrito acima.
| Problema | De onde vem |
|---|---|
| Déficit habitacional | Chegada de população maior do que a oferta de moradia formal |
| Mobilidade precária | Periferias distantes dos empregos, transporte coletivo insuficiente |
| Enchentes e deslizamentos | Ocupação de várzeas e encostas, impermeabilização do solo |
| Saneamento incompleto | Expansão urbana mais rápida do que a rede de água e esgoto |
| Violência urbana concentrada | Desigualdade de acesso a serviços e presença do Estado |
| Ilhas de calor | Asfalto, concreto e pouca vegetação nas áreas centrais |
A tendência recente
Nas últimas décadas, o padrão mudou de ritmo. As grandes metrópoles continuam crescendo, mas mais devagar, e as cidades médias passaram a crescer mais depressa. Contribuem para isso a instalação de indústrias e serviços fora dos grandes centros, a expansão do agronegócio com cidades de apoio no interior e o custo de vida elevado nas capitais.
O nome técnico é desconcentração relativa. Relativa porque a hierarquia urbana continua liderada pelas mesmas metrópoles. Não se trata de retorno ao campo, e sim de urbanização distribuída por mais pontos do território.
Como cair bem numa questão de urbanização
Defina antes de responder. Urbanização é proporção. Muitas alternativas erradas tratam urbanização como tamanho da cidade.
Explique pelo ritmo. Quase todo problema urbano brasileiro se explica pela velocidade do processo diante da oferta de emprego, moradia e infraestrutura.
Separe físico de funcional. Conurbação é mancha contínua; metropolização é rede de fluxos. A questão costuma colocar os dois lado a lado.
O que costuma cair
- A diferença entre urbanização, que é o aumento da proporção de população urbana, e crescimento urbano.
- Os fatores de atração da cidade e de expulsão do campo que explicam o êxodo rural.
- A relação entre industrialização concentrada no Sudeste e migração inter-regional.
- Os problemas urbanos como resultado do ritmo e da desigualdade do processo: periferização, favelas e segregação.
- A tendência recente de crescimento das cidades médias e de desconcentração relativa.
Onde quase todo mundo erra
Urbanização quer dizer que as cidades cresceram
Cidade crescer é crescimento urbano. Urbanização é outra coisa: o aumento da parcela da população que vive em áreas urbanas em relação ao total. Um país pode ter cidades crescendo sem se urbanizar, se o campo crescer no mesmo ritmo. A questão costuma cobrar justamente essa diferença, porque ela explica por que se fala em taxa de urbanização.
O Brasil se urbanizou como a Europa, só que mais tarde
Na Europa, a urbanização acompanhou uma industrialização longa, que abriu empregos em escala parecida com a chegada de gente às cidades. No Brasil, o processo foi muito mais rápido e a população chegou antes das vagas formais, da moradia e do saneamento. Por isso a urbanização brasileira é descrita como acelerada e excludente, com peso grande do trabalho informal e da autoconstrução.
O êxodo rural foi só de nordestinos fugindo da seca
A seca foi um fator importante, mas não o único nem exclusivo de uma região. A concentração da terra, a modernização da agricultura com máquinas que dispensavam trabalhadores e a falta de acesso a crédito expulsaram gente do campo em todo o país, inclusive do Sul e do Sudeste. O Nordeste teve papel destacado na migração para São Paulo e Rio, mas o fenômeno foi nacional.
Conurbação e metropolização são sinônimos
Conurbação é físico: é quando a mancha urbana de duas ou mais cidades se encontra e elas passam a formar um tecido contínuo. Metropolização é funcional: é a formação de uma rede de cidades polarizada por uma metrópole, com fluxos diários de trabalho, serviços e consumo. Costumam andar juntas, mas uma região pode ser metropolitana sem conurbação completa.
As metrópoles estão encolhendo e as pessoas voltando para o interior
O que se observa é desconcentração relativa: as cidades médias passaram a crescer mais depressa do que as maiores metrópoles, que continuam enormes e em geral seguem crescendo, só que em ritmo menor. Não é um esvaziamento. A mudança tem a ver com a instalação de indústrias e serviços fora dos grandes centros e com o custo de vida elevado nas capitais.
Cards de revisão
6 perguntas
- O que é taxa de urbanização?
- A porcentagem da população total que vive em áreas urbanas. Mede urbanização, não o tamanho das cidades.
- Quando a população urbana brasileira superou a rural?
- Entre os censos de 1960 e 1970. O de 1970 foi o primeiro a registrar maioria urbana no país.
- O que é êxodo rural?
- A migração em massa do campo para a cidade, causada por fatores de expulsão no campo e de atração na cidade.
- O que é periferização?
- A ocupação das bordas da cidade pela população de menor renda, geralmente longe dos empregos e com menos infraestrutura.
- O que é segregação socioespacial?
- A separação dos grupos sociais no espaço urbano conforme a renda, visível em bairros com acesso muito desigual a serviços e segurança.
- O que é macrocefalia urbana?
- A concentração desproporcional de população e atividades em uma ou poucas cidades, muito maiores do que as demais da rede urbana.
Otávio Ribeiro
Resumos de história e ciências humanas
Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.