Resumo de fato social e da sociologia de Durkheim
Por Otávio Ribeiro 10 min de leitura
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Durkheim queria que a sociologia fosse uma ciência com objeto próprio, e esse objeto é o fato social: maneiras de agir, pensar e sentir que existem fora dos indivíduos e se impõem a eles. Um fato social tem três características. É exterior, porque já existia antes de a pessoa nascer e continuará depois. É coercitivo, porque quem se desvia sofre alguma sanção, da punição legal ao simples ridículo. E é geral, porque é compartilhado pelo grupo. Para estudá-lo, Durkheim propõe tratar os fatos sociais como coisas, observando-os de fora, sem partir das opiniões pessoais. A partir daí, analisa a coesão das sociedades, distinguindo solidariedade mecânica e orgânica, e descreve a anomia, a crise das normas que regulam a vida social.
O problema que Durkheim queria resolver
No fim do século XIX, a França vivia o que muitos países europeus viviam: indústria crescendo, gente saindo do campo, cidades enormes, famílias e comunidades tradicionais perdendo força. A pergunta que atravessava a época era prática: o que mantém uma sociedade unida quando os laços antigos se desfazem?
Durkheim respondeu a essa pergunta criando um método. Queria que a sociologia deixasse de ser um ramo da filosofia ou da psicologia e se tornasse uma ciência com objeto e procedimento próprios. Para isso, precisava mostrar que existe uma realidade social que não se reduz à soma das pessoas.
Esse é o sentido do conceito de fato social.
O que é fato social
Nas Regras do Método Sociológico, de 1895, Durkheim define os fatos sociais como maneiras de agir, de pensar e de sentir que existem fora das consciências individuais e que se impõem a elas.
Exemplos que ajudam a fixar:
- a língua que você fala, que já existia antes de você;
- as regras de cumprimentar, de se vestir para um casamento ou um velório;
- as normas morais e religiosas de um grupo;
- o sistema monetário que você é obrigado a usar;
- as formas aceitas de organizar a família e o trabalho.
Nenhuma dessas coisas foi inventada por quem as pratica. Todas chegaram prontas, e todas pesam sobre quem tenta ignorá-las.
As três características
| Característica | O que significa | Exemplo |
|---|---|---|
| Exterioridade | Existe fora do indivíduo, antes e depois dele | A língua portuguesa existia antes de você nascer |
| Coercitividade | Impõe-se, e o desvio gera sanção | Ir de pijama a uma entrevista de emprego |
| Generalidade | É compartilhada pelo grupo, não é traço de uma pessoa | O costume de almoçar em determinado horário |
A coercitividade merece atenção. Ela não depende de lei. A sanção pode ser formal, como a multa, ou informal, como a gozação e o isolamento. E muitas vezes nem é sentida: quando a regra foi aprendida desde cedo, a pessoa age conforme ela achando que está apenas fazendo o que quer. A coerção só aparece com clareza quando alguém tenta resistir.
Tratar os fatos sociais como coisas
A regra metodológica mais famosa de Durkheim é considerar os fatos sociais como coisas.
Não significa dizer que eles são objetos físicos. Significa estudá-los de fora, com a mesma atitude de um cientista diante da natureza: observar, comparar, medir, sem partir das explicações que as próprias pessoas dão para o que fazem nem das opiniões do pesquisador.
Isso inclui afastar as prenoções, as ideias prontas que todo mundo tem sobre a vida social. É uma exigência de objetividade, inspirada no ideal de ciência positiva da época.
Solidariedade mecânica e orgânica
Na primeira grande obra, Da Divisão do Trabalho Social, de 1893, Durkheim compara formas de coesão social.
Solidariedade mecânica. Típica de sociedades pequenas e pouco diferenciadas. As pessoas fazem trabalhos parecidos, pensam de modo parecido e compartilham uma consciência coletiva muito forte. A coesão vem da semelhança. O direito tende a ser repressivo: quem viola a norma ofende o grupo inteiro e é punido com dureza.
Solidariedade orgânica. Típica das sociedades modernas, com grande divisão do trabalho. As pessoas são diferentes, especializadas, e cada uma depende do trabalho das outras. A coesão vem da interdependência, como a dos órgãos de um corpo. O direito tende a ser restitutivo: busca reparar o dano e restabelecer a relação, mais do que punir.
A tese central é que a divisão do trabalho não é só um fenômeno econômico: é uma forma de integração social. A modernidade não destrói a coesão, transforma sua base.
Anomia
A divisão do trabalho, porém, nem sempre funciona bem. Quando as transformações são rápidas demais, as normas que regulam a vida social ficam para trás. Durkheim chama essa situação de anomia.
Anomia não é ausência de leis. É a perda de força das regras que dão limite aos desejos e sentido às condutas. Em períodos de crise, ou mesmo de prosperidade súbita, as pessoas deixam de saber o que é razoável esperar, desejar e fazer, e a vida social se desorganiza.
O Suicídio
Em O Suicídio, de 1897, Durkheim escolhe de propósito o ato que parece mais individual de todos para mostrar que ele tem causas sociais.
Comparando estatísticas de diferentes países, grupos religiosos, estados civis e períodos, observa que as taxas de suicídio variam de maneira regular conforme o grau de integração e de regulação dos grupos. Daí os tipos:
- egoísta, ligado à fraca integração do indivíduo ao grupo;
- altruísta, ligado à integração excessiva, em que o indivíduo se sacrifica pelo grupo;
- anômico, ligado à falta de regulação em momentos de crise ou mudança brusca;
- fatalista, mencionado em nota, ligado ao excesso de regulação.
A obra não pretende explicar por que uma pessoa específica se mata. Explica por que as taxas diferem entre sociedades. É a demonstração prática do método: um fato individual, quando visto em conjunto, revela uma realidade social.
Normal e patológico
Durkheim propõe ainda distinguir fatos sociais normais e patológicos. Normal é o que é geral naquele tipo de sociedade; patológico é o desvio em relação a essa média.
A consequência mais cobrada é a tese sobre o crime: ele é normal, porque existe em todas as sociedades, e cumpre uma função, já que a reação coletiva a ele reafirma as normas. Patológica seria uma taxa muito acima do habitual.
Como cair bem numa prova sobre Durkheim
Recite as três características. Exterioridade, coercitividade, generalidade. Muitas questões se resolvem aqui.
Não troque as solidariedades. Mecânica é semelhança e sociedade simples; orgânica é interdependência e sociedade moderna.
Defina anomia com precisão. Enfraquecimento das normas, não ausência de leis. É o erro mais frequente nas alternativas.
O que costuma cair
- As três características do fato social: exterioridade, coercitividade e generalidade.
- A regra metodológica de tratar os fatos sociais como coisas e o que ela quer dizer.
- A diferença entre solidariedade mecânica, baseada na semelhança, e orgânica, baseada na interdependência.
- O conceito de anomia como enfraquecimento das normas, e não como ausência de leis.
- O estudo sobre o suicídio como demonstração de que um ato individual tem causas sociais.
Onde quase todo mundo erra
Fato social é qualquer acontecimento que sai no jornal
Em Durkheim, fato social não é um evento isolado, é um padrão coletivo que se impõe aos indivíduos: a língua, as regras de etiqueta, a moral, a moda, as crenças compartilhadas, a forma de se vestir para um enterro. Uma briga de trânsito não é fato social; a taxa de violência no trânsito de uma sociedade pode ser tratada como tal, porque expressa algo coletivo e regular.
Coerção social só existe quando há lei e punição
A coerção inclui sanções formais, como multa e prisão, e também informais, como o riso, o olhar reprovador, a exclusão do grupo. Quem vai a uma festa formal de bermuda não comete crime, mas sente a pressão imediatamente. Muitas vezes a coerção nem é percebida, porque a pessoa já interiorizou a regra desde a infância e age conforme ela sem pensar.
Solidariedade orgânica é a das comunidades mais unidas e naturais
O nome confunde, mas é o contrário. A solidariedade mecânica é típica de sociedades simples, em que as pessoas se parecem, fazem trabalhos semelhantes e compartilham uma consciência coletiva forte. A orgânica é típica das sociedades modernas: as pessoas são diferentes, especializadas, e se mantêm unidas porque dependem umas das outras, como os órgãos de um corpo.
Anomia quer dizer ausência de leis, uma espécie de anarquia
Anomia é o enfraquecimento das normas que dão limite e sentido aos desejos e às condutas, geralmente em períodos de mudança rápida, como crises econômicas ou transformações bruscas. Pode haver leis em pleno funcionamento e, ainda assim, anomia, quando as regras deixam de orientar a vida das pessoas. Não é um conceito sobre o Estado, é sobre a regulação moral da sociedade.
Para Durkheim, o crime é sempre uma doença da sociedade
Durkheim argumenta que o crime é um fenômeno normal, porque existe em todas as sociedades conhecidas, e que ele tem até função: a reação coletiva ao crime reafirma as normas e reforça a coesão. Patológico seria um nível de criminalidade muito acima do que é comum para aquele tipo de sociedade. É uma das teses mais cobradas justamente por contrariar o senso comum.
Cards de revisão
6 perguntas
- O que é fato social para Durkheim?
- Maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo e dotadas de poder de coerção sobre ele.
- Quais são as três características do fato social?
- Exterioridade, coercitividade e generalidade.
- O que significa tratar os fatos sociais como coisas?
- Estudá-los de fora, como realidades objetivas que podem ser observadas e medidas, deixando de lado as opiniões prévias do pesquisador.
- O que caracteriza a solidariedade mecânica?
- A coesão pela semelhança: pouca divisão do trabalho, consciência coletiva forte e pouco espaço para a individualidade.
- Quais são os tipos de suicídio descritos por Durkheim?
- Egoísta, altruísta e anômico. Em nota, ele menciona ainda o fatalista.
- Em que contexto Durkheim escreve?
- Na França do fim do século XIX, marcada pela industrialização, pelo crescimento das cidades e pela sensação de que os antigos laços sociais estavam se desfazendo.
Otávio Ribeiro
Resumos de história e ciências humanas
Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.